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Democratas e republicanos louvam o “último dos irmãos Kennedy”

Democratas e republicanos louvam o “último dos irmãos Kennedy”

A morte de Edward Kennedy, figura tutelar dos democratas e um dos mais respeitados decanos do Capitólio, levou os dois grandes partidos dos EUA a falarem em uníssono na homenagem ao último pilar de um clã. Senadores e antigos presidentes, democratas ou republicanos, juntaram-se ao tributo de Barack Obama, que descreveu "Teddy" como um misto de "seriedade, humildade e boa disposição".

RTP /
"Penso todos os dias nos meus irmãos. Eles deixaram altos padrões. Uma vezes chegamos lá, outras não" Matthew Cavanaugh, EPA

Edward M. Kennedy perdeu na terça-feira, aos 77 anos, uma tortuosa batalha contra um tumor no cérebro, que lhe fora diagnosticado em Maio de 2008. O "último dos irmãos Kennedy", detentor de uma carreira de mais de quatro décadas no Senado dos Estados Unidos, morreu na sua casa de Hyannis Port, no Estado do Massachusetts. A política norte-americana perdeu, nas palavras do antigo Presidente democrata Jimmy Carter, "um defensor sem quartel de milhões de menos afortunados". A família perdeu "Edward M. Kennedy, o marido, pai, avô, irmão e tio".

"Teddy" Kennedy era o derradeiro contraforte de um poderoso clã do Massachusetts predestinado, a um tempo, para a glória e a tragédia. Joe, o menos conhecido dos irmãos Kennedy, morreu na II Guerra Mundial. John F. Kennedy foi assassinado em 1963, numa curva da História que deixou a América de luto e o Mundo chocado com a morte brutal de um Presidente católico. Robert Kennedy, Procurador-Geral na Administração do irmão, foi também abatido a tiro em 1968, durante a campanha para as primárias do Partido Democrático.

Poucos deram crédito a Edward quando este chegou ao Senado em 1962, ocupando o lugar de J.F.K. Meio século de vida política apagou as vozes dos cépticos, que o acusavam de ser um político mediano alcandorado pelo nome da família. Um percurso que conheceria uma única derrota de monta em 1980, quando o senador do Massachusetts foi batido por Jimmy Carter na corrida para a nomeação presidencial do Partido Democrático.

A reacção de Jimmy Carter ao desaparecimento do senador chegou de Ramallah, na Cisjordânia. Edward Kennedy, sublinhou o antigo Presidente democrata, dedicou a vida "à melhoria do nível de vida dos que são pobres, perseguidos e ignorados".

Para lá da divisão partidária

"O nome Kennedy é um sinónimo do Partido Democrático. E por vezes Ted foi o alvo de ataques em campanhas partidárias. Porém, no Senado dos Estados Unidos, não me lembro de alguém que tenha gerado um maior respeito ou afeição em ambos os lados da câmara". Foi desta forma que Barack Obama resumiu, em Chilmark, no Massachusetts, a capacidade de Edward Kennedy para encontrar consensos legislativos e aliados improváveis em lados opostos da barricada.

Ao longo de 47 anos no Senado, Kennedy deu o seu contributo a pacotes legislativos para a protecção de direitos civis e laborais, para alargar o acesso aos cuidados de saúde - a "causa de uma vida", confessou um dia -, para melhorar o parque escolar e a ajuda financeira aos estudantes carenciados, também para conter a proliferação de armamento nuclear.

"Em cinco décadas, virtualmente todos os grandes projectos de legislação para fazer avançar os direitos civis, a saúde e o bem-estar económico do povo americano tiveram o seu nome e resultaram dos seus esforços", assinalou o 44.º Presidente dos Estados Unidos, tributário do apoio entusiástico que lhe foi outorgado por Edward Kennedy na Convenção Democrata de Agosto de 2008.

Para o antigo Presidente republicano George H. W. Bush, "Ted Kennedy foi uma figura basilar no Senado dos Estados Unidos, um líder que respondeu ao chamamento do dever durante 47 anos e cuja morte encerra um capítulo extraordinário na história daquele corpo".

Também o republicano Mitt Romney, batido nas primárias em 2008, recorda Edward Kennedy como um adversário leal. Em 1994, Romney foi derrotado por Kennedy na eleição para o Senado, juntando-se "à longa lista daqueles que se candidataram contra Ted e ficaram aquém". "Mas ele era o tipo de homem de quem podíamos gostar, apesar de ser um adversário", disse o antigo governador do Massachusetts, que em 2006 esteve ao lado de Edward Kennedy na tentativa de fazer aprovar uma lei de seguros de saúde universais naquele Estado.

Chappaquiddick

Em 1969, um acidente de automóvel na ilha de Chappaquiddick deu lugar a décadas de especulação em torno do senador. Na noite de 19 de Julho desse ano, Kennedy ofereceu boleia a Mary Jo Kopechne, uma colaboradora de campanha. Enquanto conduzia um pesado Oldsmobile sobre uma ponte mal iluminada, depois de uma festa, perdeu o controlo do carro e despistou-se para as águas do Lago Poucha.

O senador do Massachusetts abandonou o local do acidente, deixando o cadáver de Kopechne submerso.

Durante anos, Kennedy foi confrontado com questões sobre o seu comportamento nessa noite, tendo sempre negado qualquer intenção de encobrir o envolvimento no acidente. A própria polícia seria acusada de ajudar o senador a limpar o nome.

Reforma do sistema de saúde

O líder dos democratas no Senado, Harry Reid, promete agora redobrar esforços no sentido de uma reforma do sistema de saúde norte-americano, indo ao encontro dos intentos da Casa Branca de Obama.

"O sonho de Ted Kennedy era aquele pelo qual os pais fundadores lutaram e que os seus irmãos procuraram realizar. O poderoso rugido do leão liberal pode ter-se silenciado, mas o seu sonho jamais morrerá", declarou esta quarta-feira o senador do Nevada.

A paixão de Kennedy pelo tema dos cuidados de saúde, um dos mais fracturantes na sociedade norte-americana, remontava a 1964, quando sofreu uma grave lesão num desastre de avião. A "causa" ganharia força na década de 70 com a luta do seu filho contra o cancro.

"Beneficiei do melhor da medicina, mas também fui testemunha da frustração e da revolta de doentes e médicos ao enfrentar os desafios de um sistema que dá pouco troco a milhões de americanos", escrevia o "leão do Senado" num artigo publicado a 28 de Maio pelo jornal Boston Globe.

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