Denúncias sobre "mesadas" de parlamentares no Brasil têm forte repercussão

As denúncias do presidente Nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o deputado Roberto Jefferson, publicadas segunda-feira pelo jornal "Folha de São Paulo", tiveram fortes repercussões políticas e no mercado financeiro do Brasil.

Agência LUSA /

O ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, depois de uma reunião com o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e outros ministros, procurou distanciar o governo das denúncias que envolvem o Partido dos Trabalhadores (PT).

"Não há nenhuma acusação que relacione o pagamento a parlamentares por parte do governo. A denúncia refere-se ao hipotético pagamento de um partido a parlamentares de outros partidos. O governo não sofreu qualquer tipo de acusação", afirmou.

Na entrevista ao jornal "Folha de São Paulo", Roberto Jefferson, que está a ser investigado por corrupção, disse que o PT pagou "mesadas" de 30.000 reais (10.000 euros) a deputados da base aliada para votarem junto com o governo.

A prática, segundo o deputado, só terá terminado em Janeiro último, quando Jefferson revelou o esquema ao presidente Lula.

De acordo com as denúncias de Jefferson, seis ministros, entre eles o da Fazenda, Antonio Palocci, e o da Casa Civil, José Dirceu, já sabiam há mais de um ano da existência das "mesadas".

Em nota divulgada segunda-feira, Antonio Palocci negou ter conhecimento do suposto esquema e afirmou que "nunca foi abordado pelo deputado Roberto Jefferson sobre procedimentos inadequados junto à base parlamentar".

Em Washington, o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, admitiu ter conhecimento das denúncias feitas por Jefferson, mas que indicou não haver nenhum "dado prático" que comprove as acusações.

O vice-presidente José Alencar, que integra o Partido Liberal (PL), uma das siglas de parlamentares que terá recebido as alegadas "mesadas" no Congresso, garantiu que não sabia das "mesadas" e defendeu uma "firme investigação".

No Congresso Nacional, as denúncias feitas pelo presidente do PTB foram o tema do dia, tanto no plenário, como nos bastidores da Câmara dos Deputados e do Senado.

O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti disse que as denúncias podem levar à cassação de mandatos.

No Senado, a oposição ao governo do presidente Lula da Silva apresentou requerimentos para que mais de 30 pessoas citadas por Roberto Jefferson, entre elas seis actuais ministros, prestem depoimentos sobre o caso.

O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP) apresentou a mesma versão do ministro Aldo Rebelo e disse que o presidente Lula da Silva não recebeu nenhuma denúncia formal sobre propinas a deputados da base aliada.

Segundo Mercadante, houve uma reunião no final do ano passado, na qual participaram Rebelo e o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), onde o deputado Roberto Jefferson referiu ao presidente que havia comentários no Congresso sobre as "mesadas" dos deputados da base aliada.

"Ninguém tratou do assunto como uma denúncia", afirmou o senador, acrescentando que o presidente Lula pediu, entretanto, a Rebelo que investigasse o assunto.

"Se o presidente ouviu do deputado Roberto Jefferson e não abriu uma investigação, ele é directamente responsável. Cometeu crime de responsabilidade por omissão e conivência e tem de ser impedido", disse o presidente da Câmara do Rio de Janeiro, César Maia.

César Maia, membro do Partido da Frente Liberal (PFL), de oposição ao governo, afirmou ainda que é possível encaminhar um pedido de "impeachment" do presidente em decorrência das denúncias do parlamentar do PTB.

Já o deputado Miro Teixeira (PT-RJ), ex-ministro das Comunicações do governo Lula, afirmou que o relato que ouviu de Roberto Jefferson sobre o alegado esquema de corrupção envolvendo parlamentares é "muito mais grave" do que o que é conhecido.

"Há uma parte muito grave que o deputado omitiu. Estranho que ele omita este relato. Ou era mentira ou está a guardá-lo para usar como trunfo em seu proveito", declarou à imprensa brasileira.

O presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno, considerou as declarações de Jefferson de infundadas, "sem pé nem cabeça" e disse que o partido não teme investigações.

O escândalo que abalou a credibilidade do PT afectou também o mercado financeiro, com a Bolsa de Valores de São Paulo a cair 3,07 por cento esta segunda-feira e o dólar a subir quase um por cento, terminando o dia em 2,45 reais.

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