Depois de Macau, Hong Kong proíbe vigília em memória do massacre de Tiananmen
A polícia de Hong Kong proibiu a vigília em memória do massacre de Tiananmen, justificando a decisão com a prevenção da pandemia, dois dias após as autoridades de Macau terem feito o mesmo, disse fonte da organização.
"A justificação da polícia foi a pandemia e a impossibilidade de se manter o distanciamento social", explicou à Lusa Lo Wai Ming, da Aliança de Hong Kong de Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China.
Questionado sobre se a razão da proibição da vigília teve como base razões políticas, o responsável disse não querer chegar ainda a essa conclusão, até porque a organização vai recorrer da decisão à Comissão de Recurso sobre Reuniões e Processões Públicas.
Nas últimas 24 horas, a antiga colónia britânica não registou qualquer caso de covid-19 e nos últimos 14 dias foram registados 23 casos, apenas cinco dos quais considerados casos locais.
"A Aliança continuará a lutar pelo direito do público a lamentar, de forma legal, o incidente de 04 de junho", lê-se numa nota da Aliança de Hong Kong de Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China, a que a Lusa teve acesso.
A recusa de permitir a vigília deste ano vem dois dias depois de a polícia de Macau ter também proibido a comemoração, vendo-a como um risco de "incitamento à alteração violenta do sistema político", "ofensa a pessoa coletiva que exerça autoridade pública", para além das razões que se predem com medidas de prevenção da pandemia da covid-19.
Esta foi a primeira vez que as autoridades de Macau citaram uma razão política para proibir a comemoração.
"A polícia decidiu finalmente não permitir o comício porque o tema do comício ofenderia o Governo ou a autoridade pública, e por ser um obstáculo à saúde pública", explicou à Lusa o deputado pró-democracia de Macau Ng Kuok Cheong, um dos organizadores do evento, horas depois de conhecer a decisão das polícias.
"É evidente que existem considerações políticas na decisão".
Os organizadores vão apresentar, o mais brevemente possível, recurso ao Tribunal de Última Instância, disse, frisando que "a decisão da polícia é absolutamente irracional".
Em 1989, em Pequim, o exército chinês avançou com tanques para dispersar protestos pacíficos liderados por estudantes, causando um número de mortos nunca oficialmente assumido.
No ano passado, em Macau e Hong Kong, as autoridades proibiram, pela primeira vez em 30 anos, a realização do evento no espaço público, uma decisão então justificada também com os esforços de prevenção da covid-19.
Na noite de 04 de junho, as autoridades de Macau montaram uma operação e acabaram por deter duas estudantes e filhas do deputado pró-democracia Au Kam San, com os agentes a apreenderem duas velas e um livro sobre Tiananmen.
Hong Kong e Macau foram as últimas parcelas do território da China sob administração estrangeira.
A transferência da administração de Macau ocorreu no final de 1999, pouco mais de dois anos depois de a China ter recuperado a soberania sobre Hong Kong.
Em ambos os casos, Pequim aplicou o princípio "Um País, Dois Sistemas", que permitiu a Hong Kong e Macau manterem o sistema capitalista e o modo de vida, incluindo direitos e liberdades de que gozavam as respetivas populações.
As duas regiões têm autonomia em todas as áreas, exceto na diplomacia e na defesa.