Derradeira homenagem em Berlim a ex- Presidente Johannes Rau
A Alemanha prestou hoje a derradeira homenagem ao ex-Presidente da República Johannes Rau, falecido a 27 de Janeiro, com uma cerimónia fúnebre na Catedral de Berlim.
Ao acto solene assistiram, além da mulher e dos três filhos, cerca de 1.600 convidados, incluindo vários chefes de Estado, primeiros-ministros, chefes da diplomacia e presidentes de Parlamentos de países europeus.
Portugal esteve representado na cerimónia pelo Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.
"Foi uma vida que se cumpriu, uma vida para tornar o nosso país melhor e mais justo", disse na cerimónia o Presidente alemão, Horst Koehler, que passou em revista mais de 50 anos de vida política do destacado político social-democrata.
Koehler lembrou também a forma como Rau "encorajou o diálogo europeu, dando um contributo eficaz e duradouro".
O actual chefe de Estado alemão recordou ainda o discurso de Johanes Rau no Parlamento israelita (Knesset), que considerou "um ponto alto na história da Alemanha" do pós-guerra.
Rau, 75 anos, foi o primeiro chefe de Estado alemão a falar no Knesset, onde manifestou "profunda vergonha" pelo extermínio dos judeus pelos nazis, durante o Holocausto.
O Presidente austríaco Heinz Fischer, o segundo orador da cerimónia, considerou Johannes Rau "um europeu convicto, por quem todas as pessoas tinham admiração e respeito".
O último orador foi o ex-presidente do SPD, Hans- Jochen Vogel, um amigo de longa data de Johannes Rau, que enalteceu "a forma respeitosa como lidava com todas as pessoas".
Vogel recordou também que Rau era um excelente jogador de "skat", o mais popular jogo de cartas alemão e um grande contador de anedotas "de memória prodigiosa".
No final da cerimónia na catedral de Berlim, a urna com os restos mortais de Johannes Rau foi transportada aos ombros por oficiais do exército e em automóvel atravessou as ruas de Berlim rumo ao cemitério Dorotheenstadt, para um enterro reservado apenas a familiares e amigos mais próximos.
O ex-Presidente da República faleceu a 27 de Janeiro na residência de Berlim, após doença prolongada.
Rau submeteu-se nos últimos meses a várias intervenções cirúrgicas e o estado de saúde já não lhe permitiu estar presente na festa do 75/o aniversário, promovida pelo actual Presidente, Horst Koehler, a 16 de Janeiro no Palácio Bellevue, em Berlim.
Nascido a 16 de Janeiro de 1931 em Wuppertal (Renânia), Rau aderiu com 21 anos ao Partido Pan-Alemão, uma formação liberal contra o rearmamento do país dirigida pelo seu mentor Gustav Heinemann, que viria a ser também Presidente da República.
Após a extinção daquela força política, Rau aderiu ao Partido Social-Democrata (SPD) em 1957, e pouco depois, com apenas 27 anos, tornou-se o deputado mais jovem no Parlamento regional da Renânia do Norte-Vestefália, em Dusseldorf.
Mais tarde, foi ministro-presidente do importante Estado federado durante 20 anos, vencendo cinco eleições sucessivas, tornando-se no político alemão que ocupou o cargo durante mais tempo.
Em 1987, foi candidato a chanceler federal pelo SPD, mas perdeu para o titular o democrata-cristão Helmut Kohl.
Em 1994, candidatou-se a Presidente da República pela primeira vez, mas perdeu o escrutínio indirecto na Assembleia Federal, colégio formado pelos membros do Parlamento e por igual número de cidadãos, para o candidato democrata-cristão Roman Herzog.
Em 1999, já com o SPD e os Verdes no Governo federal, em Berlim, e com a maioria absoluta na Assembleia Federal, Johannes Rau foi eleito oitavo Presidente da República da Alemanha.
Rau cumpriu apenas um mandato presidencial, "por sua livre e expressa vontade" mas também por razões de saúde, e cessou funções a 01 de Julho de 2004.
Profundamente religioso e grande conhecedor da Bíblia - o que lhe valeu a carinhosa alcunha de "Bruder Johannes" (Irmão João) - a sua acção como primeiro magistrado da Nação alemã foi marcada pelo consenso e pela fidelidade à grande máxima da sua vida "reconciliar em vez de dividir".
Outra das facetas da sua presidência foi o empenho em melhorar a coexistência entre alemães e imigrantes estrangeiros.
"Quero ser o Presidente de todos os alemães e o interlocutor de todas as pessoas sem um passaporte alemão que vivem e trabalham entre nós", disse Rau no primeiro discurso depois de ser eleito.
A morte de Johannes Rau foi motivo de pesar para todos os quadrantes políticos na Alemanha, que elogiaram a capacidade de diálogo e o consideraram um dos políticos mais destacados do pós-guerra.