Mundo
Determinantes para a geopolítica mundial. O que está em causa nas eleições em Taiwan?
Taiwan realiza este sábado eleições presidenciais e parlamentares e o resultado será decisivo não só para a política nacional, mas também para a geopolítica mundial. O líder eleito determinará o futuro das relações da ilha com a China, moldando também as relações entre Pequim e Washington, uma vez que Taiwan é o principal ponto de tensão entre estas duas potências mundiais.
As eleições que decorrem este sábado na pequena ilha asiática estão a ser observadas de perto a nível internacional, particularmente pela China e pelos Estados Unidos.
O ponto crucial e aquilo que está mais em jogo nestas eleições é a relação futura de Taiwan com a China, uma vez que Pequim há muito reivindica a ilha como parte do seu território. Desta forma, a escolha do próximo presidente de Taiwan será determinante.
A grande maioria da população de Taiwan não quer ser governada pela China, cujo líder, Xi Jinping, intensificou a atividade militar em torno da ilha nos últimos anos, enviando regularmente aviões e navios de guerra para o Estreito de Taiwan.
Por este motivo, o favorito nesta corrida eleitoral e aquele que lidera as sondagens é Lai Ching-te (também conhecido por William Lai), o atual vice da presidente Tsai Ing-wen, do partido no poder DPP (Partido Democrático Progressista), tradicionalmente pró-independência.
Lai descreveu-se como “um trabalhador prático para a independência de Taiwan” e comprometeu-se a preservar o statu quo e a tentar manter o diálogo com Pequim “sob princípios de igualdade e dignidade”. Nenhum partido político em Taiwan foi jamais eleito para um terceiro mandato. Se Lai conseguir levar o DPP para um novo mandato, estareos perante um resultado sem precedentes nos 27 anos de história democrática da ilha – e assim uma metáfora para o fracasso da abordagem bélica da China em relação a Taiwan.
O principal adversário de Lai é Hou Yu-ih, ex-polícia e autarca da cidade de Nova Taipé, do KMT (Kuomintang), o principal partido da oposição. Hou defende laços mais estreitos e “relações pacíficas” com a China, mas nega ser pró-Pequim.
O terceiro candidato é Ko Wen-je, do TPP (Partido Popular de Taiwan), fundado em 2019. Ko Wen-je foi governador de Taipé entre 2014 e 2022 e apresenta-se como um candidato mais neutro. Wen-je acusa o DPP de ser “demasiado hostil” e o KMT “demasiado diferente”, defendendo por isso um “meio-termo” nas relações entre Taiwan e Pequim.
China alerta que William Lai constitui um “perigo sério”
A China opõe-se abertamente ao atual partido no poder de Taiwan e descreve estas eleições como uma escolha entre “guerra e paz, prosperidade e declínio”.
Com o aproximar das eleições, Pequim reforçou a sua retórica de forma a tentar persuadir Taiwan a submeter-se ao seu plano de “reunificação” e apontou baterias ao seu rival e candidato favorito nestas eleições, Lai Ching-te.
Pequim alerta para o “perigo sério” que William Lai constitui para a paz caso saia vitorioso destas eleições e apelou, por isso, aos residentes de Taiwan para que façam a "escolha certa".
O gabinete chinês para os Assuntos de Taiwan disse, num comunicado, que Lai é um "obstinado trabalhador pela independência de Taiwan" e que, se chegasse ao poder, promoveria ainda mais as atividades separatistas.
"Espero sinceramente que a maioria dos compatriotas de Taiwan reconheça o perigo extremo da linha de 'independência de Taiwan' do DPP e o perigo extremo de Lai Ching-te desencadear confrontos e conflitos através do Estreito, e que faça a escolha certa”, lê-se no comunicado. O KMT também denunciou Lai como um apoiante da independência e afirmou que se o atual vice-presidente vencesse as eleições as tensões provavelmente aumentariam.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan respondeu ao comunicado da China condenando Pequim por "mais uma vez intimidar descaradamente o povo taiwanês e a comunidade internacional" e por tentar interferir nas eleições.
As autoridades de Taiwan acusam a China de tentar interferir nas eleições em particular através de campanhas de desinformação nas redes sociais e da coerção económica.
Pequim já desvalorizou estes alertas, acusando o governo de Taiwan de “exagerar” na retórica de ameaça militar de forma a conseguir obter vantagens eleitorais.
Taiwan é a "primeira linha vermelha" entre EUA e China
O estatuto de Taiwan é uma das matérias mais sensíveis na relação entre a China e os Estados Unidos.
Washington cortou relações formais com Taiwan em 1979, depois de transferir o reconhecimento diplomático de Taipé para Pequim. Desde então, os EUA têm mantido laços estreitos, mas não oficiais, com Taiwan e são o seu maior aliado e fornecedor de armamento.
A China, por sua vez, condena o aumento dos contactos entre líderes políticos norte-americanos e taiwaneses, falando em violação do compromisso dos Estados Unidos de não manter relações oficiais com a ilha.
Durante a Administração de Donald Trump, e agora também sob a liderança de Joe Biden, os EUA aumentaram o apoio e a venda de armas a Taiwan. Por este motivo, a “queda” de Taiwan abalaria a credibilidade dos EUA no que diz respeito ao seu sistema de alianças na Ásia-Pacífico, ditando o fim do domínio geoestratégico norte-americano na região.
Biden disse mesmo, em várias ocasiões, que os EUA defenderiam Taiwan em caso de uma invasão da China.
Estas declarações e o crescente apoio de Washington a Taipé irritaram Pequim, que apontam a questão de Taiwan como “a primeira linha vermelha que não deve ser ultrapassada nas relações China-EUA”.
Mas os EUA recusam essa tentativa de intimidação e na passada quarta-feira anunciaram o envio de “uma delegação informal” a Taiwan depois das eleições presidenciais.
Pequim reagiu de imediato, avisando os EUA para não “se intrometerem” nas eleições para “evitarem danos graves nas relações sino-norte-americanas”.
Mao Ning, porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, reiterou ainda que a China “se opõe firmemente a qualquer forma de intercâmbio oficial entre os Estados Unidos e Taiwan” e lembrou que “existe apenas uma China no mundo e Taiwan é parte inalienável da China”.
"A questão de Taiwan está no centro dos interesses da China e constitui a primeira linha vermelha intransponível nas relações sino-americanas", frisou Mao Ning.
Estas eleições serão, por isso, um teste para Washington e Pequim na medida em que irão determinar se as duas potências conseguem controlar as tensões ou se irão provocar uma escalada no conflito.
A história de Taiwan e do conflito com a China
Ao longo dos séculos, Taiwan esteve sob domínio holandês, espanhol, chinês e japonês. No final da Segunda Guerra Mundial, o território integrou a República da China, sob o governo nacionalista de Chiang Kai-shek.
Em 1949, após a derrota contra o Partido Comunista na guerra civil chinesa, o governo nacionalista refugiou-se na ilha, que mantém, até hoje, o nome oficial de República da China, em contraposição com a República Popular da China, o regime comunista que passou então a vigorar no continente.
No entanto, a China continua a considerar Taiwan como uma das suas províncias que ainda não conseguiu reunificar com o resto do território, desde o fim da guerra civil chinesa.
Ao longo dos anos, a China aumentou a pressão militar, política e económica sobre a ilha e, apesar de se dizer favorável a uma reunificação “pacífica”, nunca renunciou ao uso da força militar. Em 2005, Pequim aprovou mesmo uma lei que dá ao país a base legal para uma ação militar contra Taiwan, caso este se separe formalmente ou pareça prestes a fazê-lo.
As relações entre Pequim e Taipé deterioraram-se desde que Tsai Ing-wen, do DPP, assumiu o poder em 2016. Tsai enfatizou uma identidade nacional taiwanesa distinta da China e recusou reconhecer o consenso alcançado em 1992, que afirma a unidade da ilha e do continente no âmbito do princípio “Uma só China”.
Num discurso na véspera do Ano Novo, o presidente chinês deixou um novo aviso a Taiwan: “A reunificação da pátria é uma inevitabilidade histórica”.
c/agências
O ponto crucial e aquilo que está mais em jogo nestas eleições é a relação futura de Taiwan com a China, uma vez que Pequim há muito reivindica a ilha como parte do seu território. Desta forma, a escolha do próximo presidente de Taiwan será determinante.
A grande maioria da população de Taiwan não quer ser governada pela China, cujo líder, Xi Jinping, intensificou a atividade militar em torno da ilha nos últimos anos, enviando regularmente aviões e navios de guerra para o Estreito de Taiwan.
Por este motivo, o favorito nesta corrida eleitoral e aquele que lidera as sondagens é Lai Ching-te (também conhecido por William Lai), o atual vice da presidente Tsai Ing-wen, do partido no poder DPP (Partido Democrático Progressista), tradicionalmente pró-independência.
Lai descreveu-se como “um trabalhador prático para a independência de Taiwan” e comprometeu-se a preservar o statu quo e a tentar manter o diálogo com Pequim “sob princípios de igualdade e dignidade”. Nenhum partido político em Taiwan foi jamais eleito para um terceiro mandato. Se Lai conseguir levar o DPP para um novo mandato, estareos perante um resultado sem precedentes nos 27 anos de história democrática da ilha – e assim uma metáfora para o fracasso da abordagem bélica da China em relação a Taiwan.
O principal adversário de Lai é Hou Yu-ih, ex-polícia e autarca da cidade de Nova Taipé, do KMT (Kuomintang), o principal partido da oposição. Hou defende laços mais estreitos e “relações pacíficas” com a China, mas nega ser pró-Pequim.
O terceiro candidato é Ko Wen-je, do TPP (Partido Popular de Taiwan), fundado em 2019. Ko Wen-je foi governador de Taipé entre 2014 e 2022 e apresenta-se como um candidato mais neutro. Wen-je acusa o DPP de ser “demasiado hostil” e o KMT “demasiado diferente”, defendendo por isso um “meio-termo” nas relações entre Taiwan e Pequim.
China alerta que William Lai constitui um “perigo sério”
A China opõe-se abertamente ao atual partido no poder de Taiwan e descreve estas eleições como uma escolha entre “guerra e paz, prosperidade e declínio”.
Com o aproximar das eleições, Pequim reforçou a sua retórica de forma a tentar persuadir Taiwan a submeter-se ao seu plano de “reunificação” e apontou baterias ao seu rival e candidato favorito nestas eleições, Lai Ching-te.
Pequim alerta para o “perigo sério” que William Lai constitui para a paz caso saia vitorioso destas eleições e apelou, por isso, aos residentes de Taiwan para que façam a "escolha certa".
O gabinete chinês para os Assuntos de Taiwan disse, num comunicado, que Lai é um "obstinado trabalhador pela independência de Taiwan" e que, se chegasse ao poder, promoveria ainda mais as atividades separatistas.
"Espero sinceramente que a maioria dos compatriotas de Taiwan reconheça o perigo extremo da linha de 'independência de Taiwan' do DPP e o perigo extremo de Lai Ching-te desencadear confrontos e conflitos através do Estreito, e que faça a escolha certa”, lê-se no comunicado. O KMT também denunciou Lai como um apoiante da independência e afirmou que se o atual vice-presidente vencesse as eleições as tensões provavelmente aumentariam.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan respondeu ao comunicado da China condenando Pequim por "mais uma vez intimidar descaradamente o povo taiwanês e a comunidade internacional" e por tentar interferir nas eleições.
As autoridades de Taiwan acusam a China de tentar interferir nas eleições em particular através de campanhas de desinformação nas redes sociais e da coerção económica.
Pequim já desvalorizou estes alertas, acusando o governo de Taiwan de “exagerar” na retórica de ameaça militar de forma a conseguir obter vantagens eleitorais.
Taiwan é a "primeira linha vermelha" entre EUA e China
O estatuto de Taiwan é uma das matérias mais sensíveis na relação entre a China e os Estados Unidos.
Washington cortou relações formais com Taiwan em 1979, depois de transferir o reconhecimento diplomático de Taipé para Pequim. Desde então, os EUA têm mantido laços estreitos, mas não oficiais, com Taiwan e são o seu maior aliado e fornecedor de armamento.
A China, por sua vez, condena o aumento dos contactos entre líderes políticos norte-americanos e taiwaneses, falando em violação do compromisso dos Estados Unidos de não manter relações oficiais com a ilha.
Durante a Administração de Donald Trump, e agora também sob a liderança de Joe Biden, os EUA aumentaram o apoio e a venda de armas a Taiwan. Por este motivo, a “queda” de Taiwan abalaria a credibilidade dos EUA no que diz respeito ao seu sistema de alianças na Ásia-Pacífico, ditando o fim do domínio geoestratégico norte-americano na região.
Biden disse mesmo, em várias ocasiões, que os EUA defenderiam Taiwan em caso de uma invasão da China.
Estas declarações e o crescente apoio de Washington a Taipé irritaram Pequim, que apontam a questão de Taiwan como “a primeira linha vermelha que não deve ser ultrapassada nas relações China-EUA”.
Mas os EUA recusam essa tentativa de intimidação e na passada quarta-feira anunciaram o envio de “uma delegação informal” a Taiwan depois das eleições presidenciais.
Pequim reagiu de imediato, avisando os EUA para não “se intrometerem” nas eleições para “evitarem danos graves nas relações sino-norte-americanas”.
Mao Ning, porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, reiterou ainda que a China “se opõe firmemente a qualquer forma de intercâmbio oficial entre os Estados Unidos e Taiwan” e lembrou que “existe apenas uma China no mundo e Taiwan é parte inalienável da China”.
"A questão de Taiwan está no centro dos interesses da China e constitui a primeira linha vermelha intransponível nas relações sino-americanas", frisou Mao Ning.
Estas eleições serão, por isso, um teste para Washington e Pequim na medida em que irão determinar se as duas potências conseguem controlar as tensões ou se irão provocar uma escalada no conflito.
A história de Taiwan e do conflito com a China
Ao longo dos séculos, Taiwan esteve sob domínio holandês, espanhol, chinês e japonês. No final da Segunda Guerra Mundial, o território integrou a República da China, sob o governo nacionalista de Chiang Kai-shek.
Em 1949, após a derrota contra o Partido Comunista na guerra civil chinesa, o governo nacionalista refugiou-se na ilha, que mantém, até hoje, o nome oficial de República da China, em contraposição com a República Popular da China, o regime comunista que passou então a vigorar no continente.
No entanto, a China continua a considerar Taiwan como uma das suas províncias que ainda não conseguiu reunificar com o resto do território, desde o fim da guerra civil chinesa.
Ao longo dos anos, a China aumentou a pressão militar, política e económica sobre a ilha e, apesar de se dizer favorável a uma reunificação “pacífica”, nunca renunciou ao uso da força militar. Em 2005, Pequim aprovou mesmo uma lei que dá ao país a base legal para uma ação militar contra Taiwan, caso este se separe formalmente ou pareça prestes a fazê-lo.
As relações entre Pequim e Taipé deterioraram-se desde que Tsai Ing-wen, do DPP, assumiu o poder em 2016. Tsai enfatizou uma identidade nacional taiwanesa distinta da China e recusou reconhecer o consenso alcançado em 1992, que afirma a unidade da ilha e do continente no âmbito do princípio “Uma só China”.
Num discurso na véspera do Ano Novo, o presidente chinês deixou um novo aviso a Taiwan: “A reunificação da pátria é uma inevitabilidade histórica”.
c/agências