"Devolveu-me a vida". Cabeças brilhantes e a ajuda da IA

"Devolveu-me a vida". Cabeças brilhantes e a ajuda da IA

O britânico Rhys Hibbert tornou-se o primeiro paciente do mundo a ser submetido a uma cirurgia cerebral com o auxílio de Inteligência Artificial em tempo real. A ferramenta de IA analisou imagens da cirurgia à medida que esta decorria e orientou os cirurgiões sobre como evitar vasos sanguíneos e nervos cruciais, mas que estão ocultos, no cérebro. Portanto, foi possível remover a maior parte possível do tumor com segurança.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Foto: Piron Guillaume - Unsplash

"Do ponto de vista da segurança do doente, vejo claramente o benefício. Não existem placas de sinalização dentro da nossa cabeça", afirma Rhys Hibbert, pai de dois filhos, em declarações à BBC.

Ele foi operado por uma equipa do hospital University College, em Londres, e a cirurgia envolveu a inserção de um endoscópio — uma câmara fina acoplada a uma haste — através do nariz até à base do crânio.Escondido por camadas de osso e uma membrana resistente estava o tumor.

Habitualmente
, identificar o local mais seguro para o retirar não seria uma tarefa simples. Até porque a anatomia tende a variar de uma pessoa para outra.

Portanto, e sem o recurso em tempo real à IA, a probabilidade de não se conseguir retirar o tumor varia entre os 25 por cento e os 50 por cento. Para além do risco de lesão num vaso sanguíneo.

Com a ferramenta de IA os riscos e as probabilidades mudam. Foi o que aconteceu na cirurgia de Rhys Hibbert. Num ecrã, a transmissão de vídeo era analisada pela IA.

Em tempo real, foram demarcadas as zonas onde provavelmente se encontravam vasos e nervos. Os locais mais seguros para remover o tumor também foram destacados. A equipa que “treinou” a ferramenta de IA explica que o processo “é semelhante à tecnologia de reconhecimento facial nos telemóveis, mas, em vez disso, reconhece estruturas anatómicas importantes e, muitas vezes, ocultas”.
Os investigadores utilizaram centenas de vídeos de remoção de tumores na hipófise. 

Delimitaram os vasos sanguíneos e os nervos em cada vídeo para ajudar o sistema de IA a captar dados e começar a "reconhecer" as estruturas mais importantes.

"O sistema foi treinado com mais operações do que a maioria dos cirurgiões vê ou realiza ao longo de toda a sua carreira ", afirma um dos investigadores, Hani Marcus, que participou na realização do procedimento. Além disso, ao contrário de outras ferramentas experimentais de IA, funciona em tempo real.
Acresce ainda uma garantia, os cirurgiões mantêm o controlo total deste sistema de Inteligência Artificial que serve apenas de auxílio. “Pode atuar como um segundo par de olhos especializado”, sintetiza o investigador citado pela BBC.
A equipa desenvolveu e testou a sua tecnologia de IA em laboratório durante anos. Um trabalho que teve financiamento público, através do National Institute for Health and Care Research, e também privado, do Google.
"Devolveu-me a vida"
"Quando abri os olhos após a operação, senti como se tivesse uma visão de 360 graus, não via com tanta clareza há um ano", recorda Rhys Hibbert.

"Também recuperei a minha energia e todos os efeitos secundários que sofria antes da cirurgia desapareceram”.

Os problemas começaram há um ano e meio quando, durante a habitual caminhada na hora de almoço, perdeu os sentidos e começou a sofrer convulsões.

Um exame revelou a presença de um tumor benigno de 11 mm a crescer na glândula hipófise (um órgão do tamanho de um berlinde localizado na base do crânio).

O tumor estava localizado muito próximo das artérias carótidas e dos nervos óticos, responsáveis pela visão.

À medida que o tumor começou a pressionar os nervos óticos, a visão periférica de Hibbert foi reduzida.

Embora não necessitasse de cirurgia imediata, Hibbert começou a tropeçar em objetos e sentia uma fadiga intensa e tonturas.

No entanto, os maiores impactos foram emocionais e psicológicos.

Quando os cirurgiões lhe deram a opção de ser a primeira pessoa a submeter-se à cirurgia utilizando uma ferramenta de IA em tempo real, não hesitou.

"Se os doentes não estiverem dispostos a participar em investigação, como poderão os médicos aprender e como poderá a medicina evoluir?".
PUB