Dezenas de mortos em motins e novos ataques islâmicos na Nigéria

O recolher obrigatório e a proibição de circulação foram repostos em dois estados da Nigéria, após um novo surto de violência islâmica. Em Damaturu, no norte do país, uma série de ataques de militantes ligados ao grupo extremista Boko Haram, fizeram entre 25 e 34 mortos. Na cidade de Kaduna, no centro do país, grupos de jovens islâmicos lançaram o caos, logo de manhã.

Graça Andrade Ramos, RTP /
A violência causada pela guerrilha islâmica tem provocado centenas de mortos e de feridos na Nigéria STR/EPA

Uma testemunha, citada pelo jornal Newsday e que se identificou apenas como Suleiman por medo de represálias, afirmou que "eles (grupos de jovens muçulmanos de Kaduna) estão nas ruas a incendiar pneus e aos tiros. Queimaram uma igreja."

Não se sabe se os tiros foram disparados contra alvos específicos ou se para o ar, nem se fizeram vítimas.

Os jovens estariam a exigir vingança pela morte de muçulmanos na violência sectária que abalou Kaduna após três atentados contra igrejas, este domingo e que levaram hoje a maior associação cristã nigeriana a denunciar uma "guerra contra os cristãos e o cristianismo" no país.

A população de Kaduna, que aproveitava o levantamento do recolher obrigatório, apressou-se a fugir e a voltar para casa. As autoridades repuseram as restrições menos de 24 horas depois de as terem levantado.


"Guerra aos cristãos"


A Associação cristã da Nigéria denunciou esta terça-feira a "limpeza religiosa sistemática" a que se está a assistir no país. "Estes ataques (às igrejas) são indicação clara que Jamaatu Alhlisunnah Lidda'awatiwal Jihad, mais conhecido pelo nome Boko Haram, declarou a guerra aos cristãos e ao cristianismo na Nigéria", afirmou em comunicado.

O grupo criticou ainda o Presidente cristão Goodluck Jonathan que se tem mostrado incapaz de controlar a guerrilha islâmica e evitar os repetidos ataques às comunidades cristãs.

Violência em Damaturu
Na capital do estado de Yobe, no nordeste da Nigéria, a violência iniciou-se segunda feira à noite. Foram atacados agentes da polícia e instalações militares e, segundo uma residente, duas escolas foram incendiadas.

O chefe da polícia estatal, acredita que "os militantes do Boko Haram" lançaram os ataques em Damaturu, "no regresso dos atentados realizados em Kaduna".

A Cruz Vermelha nigeriana contabilizou em Damaturu pelo menos 25 mortos, 20 dos quais civis. Mas uma fonte do hospital diz que "na morgue temos 34 corpos".

A violência estará ainda a dificultar o trabalho das equipas de socorro e a recolha de vitimas, apesar do recolher obrigatório reposto pelas autoridades.
Tática do medo
Boko Haram é um grupo extremista que pretende criar um estado islâmico no norte da Nigéria, sob a sharia.

Para isso tenta criar instabilidade governativa e amedrontar os cristãos residentes no norte maioritariamente muçulmano e levá-los a emigrar para o sul, maioritariamente cristão.

Os seus ataques visam habitualmente igrejas e as forças de segurança nos estados nortenhos mas o grupo tem estado a alargar o seu raio de ação até ao centro do país.
70 mortos domingo
Boko Haram reivindicou os ataques às três igrejas em Kaduna e conseguiu colocar uma contra a outra as comunidades cristã e muçulmana da cidade, que habitualmente convivem de forma pacífica.

Morreram 16 pessoas nos atentados contra as igrejas e, em resposta, grupos de jovens cristãos protestaram nas ruas e mataram os muçulmanos que encontraram. Um novo balanço afirma que a violência sectária fez pelo menos 70 mortos, nas duas comunidades.

O Vaticano condenou domingo os "ataques sistemáticos aos locais cristãos de culto", acrescentado que estes provam o desenrolar de um "plano de ódio absurdo" na Nigéria.
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