Dezenas de mulheres afegãs protestam em Cabul e reivindicam direitos

As ruas da capital afegã são palco, esta sexta-feira, de manifestações organizadas por um grupo de ativistas afegãs. Cabul é controlada pelos talibã mas dezenas de mulheres juntaram-se para reivindicar direitos iguais e participação na vida política. Já na quinta-feira, cerca de 50 mulheres manifestaram-se em Herat, no Afeganistão, mantendo a pressão sobre o novo regime do grupo terrorista, antes da tão esperada apresentação do novo governo do país.

RTP /
EPA

Apesar do risco, o grupo Rede de Participação Política das Mulheres protestou frente ao Ministério das Finanças do Afeganistão, entoando slogans e segurando cartazes a exigir o envolvimento no governo afegão e uma lei constitucional. Vestidas com burcas e hijabs, dezenas de mulheres enfrentaram os talibãs pelos seus direitos, avança a CNN.

Segundo a cadeia norte-americana, houve um pequeno confronto entre uma força de segurança dos talibã e algumas das manifestantes. Embora o protesto tenha juntado poucas pessoas, foi um desafio à autoridade do regime.

Os talibãs estão prestes a anunciar o novo governo do Afeganistão, mas já ordenou que as mulheres fiquem em casa e que a maioria abandone os seus empregos.

Os líderes do regime extremista insistem publicamente que as mulheres devem desempenhar um papel proeminente na sociedade e que terão acesso à educação, mas as declarações públicas do grupo sobre a sua interpretação dos valores islâmicos aumentaram o temor de que o país possa regressar às políticas severas do governo talibã de há duas décadas, quando as mulheres praticamente desapareceram da vida pública.

Muitas mulheres afegãs já deixaram de sair de casa, receando pela sua segurança, e algumas famílias estão a comprar burcas para cobrir o rosto e o corpo de todos os membros do sexo feminino.

A manifestação na capital afegã, esta sexta-feira, ocorre um dia depois de cerca de 50 mulheres realizarem um protesto semelhante na cidade de Herat, no oeste do Afeganistão.

"Nenhum governo pode durar muito tempo sem o apoio das mulheres. As nossas reivindicações: o direito à educação e o direito ao trabalho em todas as áreas", lia-se num cartaz.
Mulheres desafiam talibãs
Pouco mais de cinco dezenas de mulheres participaram na manifestação de quinta-feira para reivindicar os seus direitos em Herat, mantendo a pressão sobre o novo regime dos talibãs antes da apresentação do novo governo do país.

"Estamos aqui para reivindicar os nossos direitos e não temos medo (…). É nosso direito ter educação, trabalho e segurança", entoaram em uníssono as manifestantes presentes, algumas erguendo cartazes a pedir respeito pelos direitos das mulheres.

"Não temos medo, estamos unidas", gritaram as manifestantes em Herat, cidade no oeste do Afeganistão, perto da fronteira com o Irão, conhecida por ser bastante liberal relativamente aos padrões afegãos.

À CNN, Lina Haidari, uma manifestante, disse que "os direitos e conquistas das mulheres, pelos quais trabalhamos e lutamos há mais de 20 anos, não devem ser ignorados" pelo governo dos talibã.

"Quero dizer que fui obrigada a ficar em casa pelo crime de ser estudante, há 20 anos", disse Haidari. "E agora, 20 anos depois, pelo crime de ser professora e mulher".

Recorde-se que, durante os primeiros cinco anos de governo dos talibãs no Afeganistão, entre 1996 e 2001, qualquer oposição às regras era severamente punida.

"Estamos aqui para reivindicar os nossos direitos", disse Fareshta Taheri, uma das manifestantes, contactada pela agência de notícias AFP por telefone. "Mulheres e raparigas temem que os talibãs não permitam que frequentem a escola e trabalhem".

Na manifestação de Herat uma manifestante vestia uma burca, mas as restantes usaram um véu simples a cobrir o cabelo, orelhas e pescoço.

"Estamos prontas para usar burcas se nos mandarem, mas queremos que as mulheres possam ir à escola e trabalhar", continuou Fareshta Taheri, artista e fotógrafa. "Neste momento, a maioria das mulheres que trabalhava em Herat está em casa, com medo e incertezas".

Durante o primeiro governo talibã, na década de 1990, foi negado o acesso à educação e ao emprego à grande maioria das mulheres e raparigas. As burcas tornaram-se obrigatórias nas ruas e as mulheres não podiam circular sem um acompanhante, geralmente um familiar do sexo masculino. Desde a reconquista do poder e a tomada de controlo de Cabul, a 15 de agosto, os talibãs afirmam ter mudado de atitude, garantindo repetidamente que desejam estabelecer um governo "inclusivo".

Mas as suas promessas foram contrariadas já na quarta-feira em declarações à BBC pelo vice-chefe do gabinete político dos talibãs no Qatar.

Questionado sobre o próximo Governo, que poderá ser anunciado na sexta-feira, Sher Mohammad Abbas Stanekzai deu a entender que "pode não haver" mulheres nomeadas como ministras ou em cargos de responsabilidade, mas apenas em níveis inferiores. Uma perspetiva inaceitável aos olhos das manifestantes de Herat.

"Vemos as notícias, não vemos nenhuma mulher nas reuniões e encontros organizados pelos talibãs"
, disse Mariam Ebram, uma das manifestantes.

Para a ex-ministra afegã Nehan Nargis, refugiada na Noruega, o Afeganistão de 2021 nada tem a ver com o Afeganistão de 2001, quando os talibãs deixaram o poder, expulsos por uma coligação liderada pelos Estados Unidos.

"As pessoas estão muito mais conscientes, agora têm aspirações diferentes para o Afeganistão e expectativas em relação ao Governo", disse Nehan Nargis à BBC na noite de quarta-feira, apontando para a importância das redes sociais, uma "ferramenta muito poderosa" de mobilização.

Em Herat, as manifestantes prometem continuar a manifestarem-se até que as suas reivindicações sejam ouvidas.

"Vamos continuar as nossas manifestações", garantiu Taheri, referindo que as saídas à rua "começaram em Herat, mas rapidamente se vão espalhar para outras províncias".
PUB