"Dia da Reintegração" na Rússia de regiões anexadas é festa grande mas com reserva de admissão
As autoridades russas organizaram hoje uma grande festa-concerto na Praça Vermelha, em Moscovo, para assinalar um ano da "reintegração" das quatro regiões anexadas na Ucrânia, mas o acesso só era permitido a quem possuía ingressos distribuídos em instituições públicas.
O Presidente russo, Vladimir Putin, propôs ao parlamento declarar o dia 30 de setembro -- data em que assinou a anexação das regiões ucranianas de Kherson, Zaporijia, Donetsk e Lugansk -- como o "Dia da Reintegração" e que se somaram à província da Crimeia, anexada desde 2014 e também não reconhecida internacionalmente como território de Moscovo.
No início do mês, as quatro regiões e a Crimeia foram integradas nas eleições regionais russas, que também não foram reconhecidas nem sujeitas a observação eleitoral independente.
Kiev denunciou as eleições nas regiões ocupadas como ilegais por violarem a soberania e a integridade territorial da Ucrânia, e avisou que "não terão quaisquer consequências jurídicas".
Os combates ainda prosseguem naqueles territórios e o exército ucraniano lançou uma contraofensiva em junho que ainda prossegue com confrontos intensos e avanços lentos das forças de Kiev.
A partir das 17:30 (hora local, 15:30 em Lisboa), A agência Lusa testemunhou uma multidão de novos e velhos, de todos os estatutos sociais e origens que fez transbordar a praça icónica, famosa pelos seus grandes desfiles militares, situada no coração da capital russa, para lhe dar ainda mais vida e cor, mas sem Vladimir Putin.
"Não, não está nos planos do Presidente participar do evento", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, antes da festa-concerto.
O que Putin fará para comemorar a anexação das quatro regiões ucranianas é publicar no sábado uma mensagem gravada aos russos para "felicitar a todos pelo Dia da Reintegração das novas regiões com a Rússia", disse Peskov.
Vagas de cidadãos, das muitas etnias que habitam a Rússia, caminhavam para o local, com ar animado pelo momento que estavam a viver.
Pelo programa, iriam ouvir o poeta Vlad Malenko, que construiu uma fábula na qual um crocodilo americano, infiltrado na Ucrânia nos anos 90, depositou ovos na consciência da população.
Depois dele, há verdadeiras estrelas e artistas que apoiam abertamente a invasão militar na Ucrânia como Oleg Gazmanov, Polina Gagarina, o grupo Liube e Shaman, tido como o artista que melhor representa a música patriótica russa desde há um ano e meio, bem como Nikolai Vaskov, Alexandre Marchal, além do grupo "Os Nossos" e também atuações artísticas provenientes das novas regiões anexadas.
O programa prevê ainda no palco da Praça Vermelha a presença do ator e deputado Dmitri Pevsov, apoiante aberto de Putin - e que participou num festival do teatro de Almada - para declamar um poema de Alexandre Puchkin, no qual já atacava, na sua época, os caluniadores da Rússia.
Na véspera do evento, o Presidente russo promulgou a lei que estabelece que o dia 30 de setembro será oficialmente comemorado, a partir de agora, como o "Dia da Reintegração" com Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporijia.
Como é habitual, as autoridades convidaram para o evento em frente do Kremlin reformados e funcionários públicos, a sua base eleitoral, e estudantes.
Segundo a comunicação social russa, quem assistir ao concerto receberá 600 rublos (menos de seis euros), menos de metade do que se recebia num evento similar há um ano.
Ainda longe da Praça Vermelha, uma barreira de segurança barrava o caminho a quem pretendia aceder livremente à festa-concerto, incluindo órgãos de comunicação social estrangeiros, uma vez que só podia seguir em frente quem estivesse munido de um bilhete, distribuído nos estabelecimentos de ensino, empresas, fábricas e instituições públicas.
Mesmo a televisão só vai distribuir o espetáculo no sábado, que assinala oficialmente o Dia da Reintegração.
Comícios, concertos, desfiles e exposições estão marcados, para hoje e sábado em todo o país.
"Um país, uma família, uma Rússia" é o lema do concerto em Moscovo, que lembra "Um povo, um império, um líder" do partido nazi, como sugerem alguns meios de comunicação independentes.
Eventos semelhantes foram realizados em fevereiro e março de 2022 no estádio Luzhniki; e em setembro do mesmo ano na Praça Vermelha, que também acolheu um terceiro concerto em fevereiro passado, todos com a presença de Putin.
Apesar da popularidade interna do Presidente russo, num evento que encheu o estádio Luzhniki na capital do país em março para assinalar o aniversário da anexação da Crimeia jornalistas do New York Times e da BBC entrevistaram pessoas que disseram que foram "aconselhadas" ou até "obrigadas" pelos empregadores a comparecerem no comício.
No mesmo local, um mês antes, o momento alto do evento que comemorava o primeiro aniversário do início da agressão da Ucrânia, o Kremlin transportou crianças de Mariupol, cidade ucraniana arrasada no sudeste do país, para "agradecer" aos seus invasores.
A estrela desta festa de patriotismo russo foi Anna Naumenko, uma jovem de 15 anos de cabelo preto, que foi levada para o palco do estádio Luzhniki, para agradecer a um soldado apelidado de "Yuri Gagarin" (nome do primeiro cosmonauta soviético a viajar no espaço) por a ter supostamente resgatado.
"Obrigada, tio Yura por salvar a mim, à minha irmã e centenas de milhares de crianças em Mariupol", disse.
A estação CNN Internacional procurou saber mais sobre a história de Anna Naumenko - ou, simplesmente, Anya - que perdeu a mãe no cerco de Mariupol, falando com uma amiga, com a qual partilhou refúgio num abrigo subterrâneo durante três meses e que questiona as condições de segurança em que ela estará viver, depois de ter sido entregue a uma família de acolhimento, e sugerindo que foi vítima de coação.
Em 17 de março, o Tribunal Penal Internacional emitiu um mandado de detenção contra Putin como "supostamente responsável" pela deportação ilegal de crianças e pela sua transferência de áreas ocupadas na Ucrânia para a Rússia, o que constitui um crime de guerra.
Também emitiu outro mandado de prisão contra a política russa Maria Lvova-Belova, comissária presidencial para os direitos da criança na Rússia, pela mesma acusação.
O Kremlin afirmou que não reconhece a jurisdição do tribunal e considera o mandado de prisão contra o chefe do Estado russo "legalmente nulo".