Diabos da Tasmânia estão de regresso ao continente da Austrália

Uma dezena de Diabos da Tasmânia foram largados recentemente numa área protegida da Austrália continental, num regresso ao estado selvagem na região há muito aguardado e que poderá ajudar a proteger outras espécies autóctones ameaçadas.

RTP /
Diabos da Tasmânia a alimentar-se da carcaça de um canguru Reuters

Juntaram-se a outros, já libertados em julho, num total de 26 animais, ação considerada um marco histórico, ao fim de 16 anos de trabalho de recuperação.

Tim Faulkner, presidente do grupo de conservação ambiental Aussie Ark, considera "incrível" ter chegado até aqui.

"É como um sonho", afirmou. "O maior predador indígena atualmente no continente é o gato-marsupial", também conhecido como gato-tigre ou Quoll-de-cauda-pintada, mais pequeno do que os Diabos. "Reintroduzir um animal desta envergadura é tremendo", acrescentou Faulkner.

O Diabo pode pesar até oito quilos, caça geralmente outros animais indígenas e alimenta-se também de carcaças.

A libertação dos 26 animais deverá ser a primeira etapa de um programa de conservação ex-situ que visa criar uma população preservada longe da Tasmânia, onde uma doença contagiosa ameaça a sobrevivência da espécie.
Os animais foram libertados na área protegida de 400 mil hectares do santuário Barrington Tops, a 190 quilómetros a norte de Sidney, na Nova Gales do Sul.
Nada foi deixado ao acaso. O santuário foi murado e delimitado para evitar acidentes em estradas e proteger os animais de doutras ameaças.

"O terreno foi escolhido por lembrar uma parte da Tasmânia", revelou o presidente da Aussie Ark, e os animais libertados foram seleccionados pelas suas aptidões reprodutivas.

"Introduzimos espécimes jovens e de boa saúde atualmente, o que lhes dá seis meses para desenvolverem os seus marcadores, estabelecerem os seus territórios e prepararem-se para a época de acasalamento, que ocorre geralmente em fevereiro", explicou Faulkner, confiante no sucesso do projeto.

Será a  primeira vez nas suas vidas que os animais estarão entregues a si mesmos para encontrar água, alimento e abrigo. Vão contudo ser atentamente vigiados.
Papel crucial
Estes marsupiais são necrófagos e noctívagos e conhecidos pelas mandíbulas poderosas, pela sofreguidão ao alimentar-se, pela ferocidade e pelo forte cheiro que emitem quando ameaçados.

Extinguiram-se na área continental há mais de três mil anos, muito antes da chegada dos primeiros europeus. Mantiveram-se na Tasmânia, a sul do continente austral. Desde 1941 são uma espécie protegida, mas continuavam ausentes da área continental.

Após o desenvolvimento na Austrália continental do maior programa de criação de Diabos da Tasmânia, chegou a hora de os devolver à natureza, mesmo que num ambiente controlado.
“Ver estes Diabos libertados na paisagem selvagem – é um momento muito emocionante”, comentou Liz Gabriel, diretora do Aussie Ark, que tem liderado o programa de recuperação em conjunto com outras organizações ambientalistas.
Os defensores da iniciativa esperam que, como predadores de topo, os Diabos possam vir a desempenhar um papel crucial no controlo das populações invasoras de gatos assilvestrados e de raposas, que têm prosperado na Austrália selvagem, ajudando dessa forma a proteger a biodiversidade local.

Os gatos assilvestrados e as raposas serão "responsáveis pela grande maioria das 40 extinções de espécies mamíferas da Austrália", explicou Faulkner. "Está em jogo muito mais do que o Diabo da Tasmânia".

O projeto assemelha-se, refere, ao que reintroduziu o lobo no Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos, há 30 anos, o qual teve, de acordo com os especialistas, uma cascata de efeitos positivos, desde a regeneração dos arbustos ao longo dos rios e a estabilização dos cursos de água, ao regresso de aves e de castores.

Um Diabo da Tasmânia capturado em 2015 numa armadilha antes de ser enviado para a Austrália continental e integrar um programa de recuperação da espécie Foto: Reuters

Mas nem todos os ambientalistas concordam com este programa australiano.
Criar um problema
Alguns ecologistas acreditam que a reintrodução dos Diabos da Tasmânia irá apenas fazer com que as outras espécies carnívoras deixem de procurar carcaças para se dedicarem a presas vivas.

“Pode estar a criar-se um problema onde não existia nenhum”, afirmou Nick Mooney, um ambientalista australiano que tem trabalhado com os marsupiais tasmanianos nos últimos 40 anos. “Os felinos selvagens, como gatos e raposas, irão simplesmente começar a caçar”, em vez de competir com os Diabos.

A base alimentar destes são pequenos mamíferos, mas os Diabos também são conhecidos por se aproveitarem oportunisticamente das carcaças de ovelhas e reses de maior porte, podendo dessa forma vir a tornar-se um problema para os criadores de gado, lembrou por seu lado a ecologista Menna Jones, da Universidade da Tasmânia.

“Quando se fazem grandes intervenções, como esta, é necessário convencer a comunidade, particularmente os que vão ser mais afetados”, criticou Jones. “É necessário consultar as populações”.

Para já, os 11 animais libertados em setembro, os que os antecederam e os que se lhes seguirem nos próximos anos, vão ser vigiados no santuário, através de câmaras e de colares GPS,  para registar hábitos e possíveis problemas, e alimentados de forma suplementar se for necessário.
Um cancro devastador
A reintrodução da espécie na fauna continental australiana visa ainda preservar e aumentar a variedade de linhagens dos Diabos, depois destes terem ficado à beira da extinção nos anos 90 do século XX.

Nessa altura, um cancro contagiante conhecido como doença dos tumores faciais, reduziu uma população de quase 140 mil animais a cerca de 20 mil, num golpe duro aos esforços de proteção ambiental.
O cancro, transmitido por animais infetados através de dentadas durante o acasalamento e em lutas, provoca grandes tumores no focinho que impedem o animal de se alimentar. Praticamente 100 por cento dos animais afetados acaba por morrer de fome.
A resposta dos ambientalistas foi isolar populações de Diabos livres do cancro em santuários selvagens na ilha australiana da Tasmânia.

Desde 2004, alguns dos descendentes destes grupos – que testaram negativo para a doença - foram libertados em áreas não delimitadas.

À France Presse, o investigador Rodrigo Hamede, da Universidade da Tasmânia, afirmou que há animais que contraíram a doença mas se curaram, enquanto outros não ficaram doentes, o que abre mais o horizonte de recuperação.

"O risco de extinção continua a existir"
alertou contudo Chris Coupland, do santuário de Cradle Mountain, referindo que a população não pode cair abaixo dos 10 mil animais.

Como em resposta, o ciclo reprodutivo dos Diabos está a acelerar, com ciclos anuais em vez de um a cada dois anos. Os animais têm também chegado à idade reprodutiva mais cedo.
Extintos há 3.000 anos
Este é o primeiro programa a soltar Diabos saudáveis numa área protegida do continente. Pretende-se que venham a ser largados noutras áreas, num futuro próximo.

Sonhamos com muito mais santuários com Diabos e o aumento real dos números para proteger a espécie e igualmente a fauna do seu ambiente circundante”, afirmou Liz Gabriel. “Isto é só o princípio”.

Os Diabos da Tasmânia, cujo nome científico é Sarcophilus Harrissi (do grego sarx, carne + philos, amigo, e harrissi em homenagem ao naturalista e explorador da Tasmânia, George Harris), extinguiram-se há mais de três mil anos na área continental australiana.

Menna Jones defende que o Diabo foi forçado a migrar e a exilar-se na ilha da Tasmânia, empurrado pela introdução de dingos, os cães selvagens australianos competidores diretos no seu habitat, por uma explosão populacional humana e por uma seca devastadora provocada por um El Niño prolongado.

“Não acredito que qualquer destes fatores isoladamente tivesse causado a extinção, mas os três em conjunto deverão provavelmente ter levado à extinção dos Diabos no continente”, refere a ecologista.

Nem sempre os humanos são a causa principal do desaparecimento de espécies. No caso do Diabo da Tasmânia estão a mostrar-se cruciais para a sua preservação.

A Aussie Ark pretende ainda relançar nos ecossistemas australianos continentais, nos próximos anos, outras seis espécies autóctones, a par do gato-marsupial, dos Peramelidae conhecidos como bandicoot e dos cangurus-das-rochas.

C/agências
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