Diferenças entre Portugal e Estados Unidos na produção de filmes independentes

Nova Iorque, 01 mai 2019 (Lusa) -- Dois jovens cineastas portugueses, que produziram recentemente um filme em Nova Iorque, afirmaram à Lusa que as principais diferenças entre os trabalhos da produção cinematográfica independente em Portugal e nos Estados Unidos são a disponibilidade e a generosidade das pessoas.

Lusa /

Tiago Durão e Sofia Mirpuri, responsáveis pelo filme "Tales From The Rabbit Hole: A Curious Kitsch Novel", disseram à Lusa, em Nova Iorque, que as maiores diferenças que sentiram são a vontade dos outros de ajudar, e a dimensão da rede de contactos profissionais a que podem recorrer, em Portugal, em relação aos EUA, mas falam também na abertura e no número de possibilidades existentes para a produção de um filme.

O realizador Tiago Durão, que vive em Nova Iorque há cinco anos, afirmou que "em Portugal seria mais fácil" produzir um filme, porque foi onde cresceram e estudaram e recolheram mais contactos profissionais, em relação aos que estabeleceram nos Estados Unidos.

"Todos os nossos amigos e pares de profissão estão lá [em Portugal]" afirmou Tiago Durão, que reiterou a falta de `networking` nos EUA como uma das complicações, embora "tudo o resto [seja] mais fácil".

Em Portugal, recordou o realizador, o filme não avançou, porque foi "muito difícil reunir 40 ou 50 pessoas à volta de uma produção", quando se trata de uma produção independente, com grande parte dos envolvidos a trabalhar noutros empregos principais.

Sofia Mirpuri, atriz e diretora executiva do filme, disse, por seu lado, que em Portugal, as pessoas "ficam mais curiosas", "ajudam muito mais e são mais generosas", ao passo que, em Nova Iorque, "filmar um filme é muito mais normal e as pessoas não querem muito saber".

Os jovens cineastas deram como exemplo a ajuda que tiveram dos portugueses quando alugaram uma caravana na Trafaria, perto de Lisboa, onde acontece o início do filme "Tales From The Rabbit Hole: A Curious Kitsch Novel".

"Precisávamos de eletricidade e fomos pedir ao vizinho. O vizinho passou-nos eletricidade para as caravanas, sem problema nenhum", recordou Sofia Mirpuri.

Ainda sobre a caravana do início do filme, Tiago Durão contou que teve "um `shot` de sorte" com o aluguer que encontrou em Portugal: a sua primeira ideia para encontrar uma caravana foi pesquisar na plataforma de alojamento local Airbnb, onde encontrou "duas caravanas da mesma pessoa, que morava muito perto do local das gravações", contou Tiago Durão.

"Ainda estávamos em Nova Iorque, mandámos mensagem e o senhor foi quase fazer um `scouting` [percurso de exploração], para o início do filme", disse, expressando ainda a surpresa na sua voz.

"O proprietário pegou na caravana, foi a Trafaria, Porto Brandão, Costa [de Caparica], aquela zona toda. Estacionava a caravana e tirava uma fotografia, seguia para outro local e tirava outra fotografia da vista. Mandou-nos as fotografias todas com localizações do Google Maps", contou Tiago Durão à Lusa, apreciando o esforço do proprietário e dizendo que muito dificilmente poderia encontrar alguém que se disponibilizasse da mesma maneira nos Estados Unidos.

"Quando cheguei a Portugal, ele foi fazer a mesma coisa comigo. Ver os sítios, falar com as pessoas locais, perguntar sobre os melhores sítios. E isso não acontece aqui [nos Estados Unidos]", resumiu o realizador.

"Pode acontecer", respondeu Sofia, "mas em Portugal as pessoas entreajudam-se muito mais, têm vontade de ajudar, ficam curiosas com o que estás a fazer. Enquanto que aqui, filmar um filme é muito mais normal e as pessoas não querem muito saber".

"Aqui também consegues encontrar pessoas que ajudam, mas é mais complicado, até porque quando não és de cá, não tens os conhecimentos certos, tens de andar um bocadinho à procura", disse Sofia Mirpuri.

Tiago Durão, que começou no teatro em Portugal e que se mudou para os Estados Unidos, opinou que a distribuição comercial de filmes independentes em Portugal parece ter-se tornado "mais acessível" e que "a campanha contra o cinema português acabou ou está a acabar".

A desvalorização do cinema português é uma coisa que Tiago Durão repudia e considerou "que não faz sentido nenhum", porque acredita que o cinema português é dos melhores do mundo.

"Acho que temos do melhor cinema que se faz na Europa e no mundo", disse o realizador, "porque temos uma liberdade de o fazer, que é uma coisa que os americanos já não têm".

"Os americanos são liderados pelo capital" e seguem os modelos de filme e de imagem que dão dinheiro, algo que não acontece muito no cinema independente em Portugal, considerou Tiago Durão.

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