Dilma e Serra fogem a braço-de-ferro no último debate

A matemática das sondagens levou Dilma Rousseff e José Serra a evitarem medir forças no último debate entre os candidatos à Presidência do Brasil. A três dias das eleições, a candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), na dianteira das estimativas, escolheu defrontar Plínio de Arruda Sampaio, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), e Marina Silva, do Partido Verde (PV), e só gaguejou quando teve de responder a críticas sobre doações.

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As eleições do próximo domingo vão ser acompanhadas por mais de 150 observadores de 35 países Marcelo Sayao, EPA

Quem esteve à espera do debate da TV Globo para perceber se as eleições brasileiras terão ou não duas voltas pode ter desligado o televisor com alguma frustração. O último confronto entre os quatro candidatos à Presidência teve como nota dominante, na maior parte do tempo, a tepidez. A jogar à defesa, a candidata do PT e José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), fugiram a ataques mútuos. Dilma Rousseff esgotou as três perguntas que poderia ter dirigido a Serra em confrontações com Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio. José Serra orientou, por seu turno, a mira para a candidata do PV.

O ambiente só aqueceu na segunda das quatro partes do debate, quando a candidata apoiada pelo Presidente cessante hesitou na resposta a críticas de Arruda Sampaio à gestão mediática que os partidos adversários fazem das doações averbadas. O candidato do PSOL condenou os adversários por excluírem, nos seus portais da Internet, a fonte das verbas que recebem para a campanha eleitoral. Dilma Rousseff respondeu que “todas as doações” da sua campanha “são oficiais”, gaguejando antes de explicar que “todas elas” estão registadas “no Tribunal Superior Eleitoral”. Perante os risos ouvidos entre a assistência, insistiu: “Gostaria de deixar claro que todas as doações são oficiais. Lamento os risos de quem tem outras práticas. A minha não é essa”.

A estratégia escolhida por Serra e Dilma acabou por dar espaço a Marina Silva, a candidata melhor posicionada para baralhar as contas de uma vitória à primeira volta feitas na cúpula do PT. Marina procurou igualar os dois adversários enquanto agentes políticos conotados com “a política velha do século XX”: “Serra e Dilma são parecidos, têm uma visão de gerente, mas é preciso ter uma visão estratégica para o país. Por isso, cada vez mais o eleitor olha para o meu projecto porque não entro no mundo azul de Serra nem no mundo cor-de-rosa da Dilma”.

“Onda verde”
A mais recente sondagem mostra que Dilma Rousseff terá conseguido suster as perdas das últimas semanas. Contudo, não tem assegurada uma vitória à primeira volta. De acordo com a pesquisa do Datafolha, conhecida na quinta-feira, a candidata do PT recolhe 52 por cento dos votos na projecção para a primeira volta. José Serra obtém 31 por cento dos votos e a candidata do PV 15 por cento. Dilma terá de obter 50 por cento mais um voto para garantir a Presidência à primeira volta. A margem de erro ontem avançada pelo Datafolha é de dois pontos percentuais.

Mas há outros cenários. Segundo a sondagem do Ibope, divulgada na quarta-feira, Dilma Rousseff vence à primeira volta com 55 por cento dos votos válidos contra 30 por cento de José Serra e 14 por cento de Marina Silva. E a sondagem da CNT/Sensus, publicada no mesmo dia, atribui também à candidata do PT uma vitória na primeira volta com 54,7 por cento dos votos – neste caso, José Serra obteria 29,5 por cento dos votos válidos e Marina Silva 13,3 por cento.

A capitalizar a subida das últimas semanas nas sondagens de opinião - que, a verificar-se, ditaria a segunda volta -, Marina Silva falou de uma “onda verde” no Brasil. Desafiou também José Serra a fazer “uma autocrítica” por atacar o programa Bolsa Família, destinado a agregados em situação de pobreza e de extrema pobreza. Serra respondeu com o argumento de que esteve na origem daquele programa, ao instituir, enquanto ministro, o plano Bolsa-Alimentação. Quando a candidata do PV voltou à carga, Serra mostrou-se irritado: “Não use a sua régua para medir os outros. Não gosto de usar a minha régua para ficar medindo. Se fosse usar, diria que você e a Dilma têm muito mais coisas parecidas do que qualquer outro candidato aqui. Você ficou no Governo no mensalão”.

A “multiplicidade do Brasil”
A falar ao eleitorado, a candidata do Partido dos Trabalhadores prometeu, caso vença no domingo, governar com base numa aliança que represente a “multiplicidade do Brasil”, levando por diante uma linha de acção que “continue a assegurar a ascensão social de milhões de brasileiros”. E quando confrontada com os ataques de Marina Silva, que criticou as ideias da campanha do PT para a redução do número de trabalhadores sem registo e a “falta” de um programa de infra-estruturas a longo prazo, Dilma Rousseff sustentou que a criação de quase 15 milhões de empregos foi precisamente “uma das grandes conquistas” do consulado de Lula da Silva.

“Contribuiu para isso a expansão do mercado interno, que gerou maior produção, maior consumo e maior número de empregos, além da ampliação do crédito e do investimento”, advogou.

Quem herdar a Presidência do Brasil vai governar um país que, no termo de 2010, estará em condições de apresentar um crescimento económico acima de sete por cento, de acordo com as estimativas de Brasília. De 2011 a 2014, a expansão será de 5,8 a seis por cento. O Ministério da Fazenda estima que a economia crie, no conjunto do ano, mais de dois milhões de postos de emprego. E o país está hoje em terceiro lugar na lista de países mais atractivos para o investimento estrangeiro, à frente dos Estados Unidos e atrás da China e da Índia, segundo dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), citados pela agência Lusa.

As eleições do próximo domingo vão ser acompanhadas por mais de 150 observadores de 35 países, indicou esta semana o Tribunal Superior Eleitoral. As missões de observação integram elementos da Organização dos Estados Americanos, do Parlatino e do Parlamento do Mercosul, a par de organizações não governamentais de África, Haiti e do Conselho Internacional de Educação Eleitoral, dos Estados Unidos. No capítulo da segurança, pelo menos 171 municípios vão receber reforços de tropas federais.
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