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Diplomacias dos Estados Unidos e da China entram em braço-de-ferro no Alasca
A primeira reunião presencial entre representantes da Administração Biden e da China ficou marcada por trocas de acusações. Com Antony Blinken, chefe da diplomacia dos Estados Unidos, a acusar a Pequim de ameaçar “a ordem fundada em regras que garantam a estabilidade mundial” e o homólogo chinês a exortar Washington a “parar de promover a própria democracia".
A esperança de que a reunião em Anchorage, no Alasca, fosse o reinício dos laços bilaterais entre os dois países - após tensões sobre comércio, Direitos Humanos e cibersegurança durante a Presidência de Donald Trump – evaporou-se quando Blinken se referiu à crescente preocupação global com o histórico problema de Direitos Humanos na China.
"Vamos apresentar profundas inquietações sobre os atos da China, trata-se de Xinjiang”, atalhou o secretário de Estado norte-americano. Os Estados Unidos acusam Pequim de “genocídio” contra os muçulmanos uigures e responsabilizam o regime pela repressão em Hong Kong, pelas tensões com Taiwan, por ataques cibernéticos e "coerção económica contra aliados" de Washington.
Com o mais alto responsável do Partido Comunista Chinês para as Relações Externas, Yang Jiechi, a afirmar: “Esperamos que os Estados Unidos façam melhor com Direitos Humanos. O facto é que existem muitos problemas nos Estados Unidos em relação aos Direitos Humanos, o que é admitido no próprio país”.
Blinken já tinha afirmado que os líderes mundiais tinham expressado “profunda satisfação” pelo facto de os EUA estarem a envolver-se novamente com a comunidade internacional após quatro anos da doutrina “América em primeiro lugar” de Donald Trump.
O chefe da diplomacia norte-americana acrescentou ter ouvido sentimentos semelhantes durante as visitas que realizou ao Japão e à Coreia do Sul e frisou que o Governo de Biden e os seus aliados estão unidos na luta contra o crescente autoritarismo e assertividade da China no interior e no exterior. A reunião – em que além de Blinken e Yang estiveram também presentes o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, e o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Jake Sullivan - deveria ser uma oportunidade para cada lado avaliar o outro.
Em resposta, Yang exigiu furiosamente aos EUA que parassem de promover a sua própria versão de democracia numa altura em que estão a lidar com um descontentamento entre a sua própria população.
“Acreditamos que é importante que os Estados Unidos mudem a sua própria imagem e partem de promover a sua própria democracia no resto do mundo. Muitas pessoas nos Estados Unidos têm pouca confiança na democracia norte-americana (…) segundo estudos de opinião, os líderes chineses contam com amplo apoio do seu povo”, frisou.
“A China não aceitará acusações injustificadas do lado dos EUA”, disse Yang, acrescentando que os “desenvolvimentos recentes mergulharam as relações num período de dificuldade sem precedentes que prejudicou os interesses dos nossos povos”.
“Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global”, afirmou Blinken, referindo-se às ações de Pequim em Xinjiang, Hong Kong e Taiwan, bem como aos ataques cibernéticos aos Estados Unidos e à coerção económica contra os aliados de Washington. “É por isso que não são só questões internas e por isso sinto a obrigação de levantar esses temas hoje”.
Ao que Yang rebateu: “Os Estados Unidos usam a sua força militar e hegemonia financeira para cumprir uma jurisdição do seu poder e suprimir outros países. Abusa das chamadas noções de segurança nacional para obstruir as normas comerciais e incita outros países a atacar a China”.
“Deixe-me dizer-lhe, os Estados Unidos não têm qualificação para dizer quem pode dialogar com a China”, acrescentou.
Já Blinken recordou que o Governo norte-americano “está empenhado em liderar com a diplomacia para promover os interesses dos Estados Unidos e fortalecer a ordem internacional com base nessas regras. Este sistema não é uma generalização. Ajuda os países a resolver as diferenças pacificamente, a coordenar os esforços multilaterais com eficácia e a participar no comércio global com a garantia de que todos seguem as mesmas regras. A alternativa para uma ordem baseada em regras é um mundo no qual o poder faz o que é certo e os vencedores levam tudo. E esse seria um mundo muito mais violento e instável para todos”.
As intervenções iniciais de Blinken e de Yang, que foram abertas à comunicação social, duraram mais de uma hora – muito mais do que o habitual em reuniões de alto nível. Mas, as duas delegações não se entenderam quanto ao tempo reservado à assistência dos jornalistas ao debate entre as maiores economias do mundo.
Após a parte aberta à comunicação social, um alto funcionário do Governo dos Estados Unidos afirmou que a delegação chinesa tinha chegado “com a intenção de se exibir, focada em encenações públicas e dramáticas em vez de substância”.
“Deixaram isso claro ao violar o protocolo. Tínhamos acordado em fazer uma declaração de abertura de dois minutos para cada delegação. No entanto, enquanto as declarações dos representantes norte-americanos ficaram perto desse limite, a delegação chinesa discursou mais de 20 minutos”, acrescentou.
Os momentos que antecederam a reunião
Quando foi revelado que as duas delegações se iriam reunir no Alasca houve um certo grau de otimismo, pois poderia ser o pontapé de partida para o início de um novo relacionamento entre Pequim e Washington, após o colapso no final do mandato de Trump.
Os EUA procuravam uma mudança de comportamento da China, que no início do ano expressou a esperança de um retorno às relações.
"Vamos apresentar profundas inquietações sobre os atos da China, trata-se de Xinjiang”, atalhou o secretário de Estado norte-americano. Os Estados Unidos acusam Pequim de “genocídio” contra os muçulmanos uigures e responsabilizam o regime pela repressão em Hong Kong, pelas tensões com Taiwan, por ataques cibernéticos e "coerção económica contra aliados" de Washington.
Com o mais alto responsável do Partido Comunista Chinês para as Relações Externas, Yang Jiechi, a afirmar: “Esperamos que os Estados Unidos façam melhor com Direitos Humanos. O facto é que existem muitos problemas nos Estados Unidos em relação aos Direitos Humanos, o que é admitido no próprio país”.
Blinken já tinha afirmado que os líderes mundiais tinham expressado “profunda satisfação” pelo facto de os EUA estarem a envolver-se novamente com a comunidade internacional após quatro anos da doutrina “América em primeiro lugar” de Donald Trump.
O chefe da diplomacia norte-americana acrescentou ter ouvido sentimentos semelhantes durante as visitas que realizou ao Japão e à Coreia do Sul e frisou que o Governo de Biden e os seus aliados estão unidos na luta contra o crescente autoritarismo e assertividade da China no interior e no exterior. A reunião – em que além de Blinken e Yang estiveram também presentes o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, e o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Jake Sullivan - deveria ser uma oportunidade para cada lado avaliar o outro.
Em resposta, Yang exigiu furiosamente aos EUA que parassem de promover a sua própria versão de democracia numa altura em que estão a lidar com um descontentamento entre a sua própria população.
“Acreditamos que é importante que os Estados Unidos mudem a sua própria imagem e partem de promover a sua própria democracia no resto do mundo. Muitas pessoas nos Estados Unidos têm pouca confiança na democracia norte-americana (…) segundo estudos de opinião, os líderes chineses contam com amplo apoio do seu povo”, frisou.
“A China não aceitará acusações injustificadas do lado dos EUA”, disse Yang, acrescentando que os “desenvolvimentos recentes mergulharam as relações num período de dificuldade sem precedentes que prejudicou os interesses dos nossos povos”.
O encontro decorre numa altura em crescem as tensões sobre o comércio, abuso de Direitos Humanos no Tibete, em Hong Kong e na região ocidental de Xinjiang, bem como sobre Taiwan, a assertividade de Pequim no Mar do Sul e a pandemia de Covid-19.
“Cada uma dessas ações ameaça a ordem baseada em regras que mantém a estabilidade global”, afirmou Blinken, referindo-se às ações de Pequim em Xinjiang, Hong Kong e Taiwan, bem como aos ataques cibernéticos aos Estados Unidos e à coerção económica contra os aliados de Washington. “É por isso que não são só questões internas e por isso sinto a obrigação de levantar esses temas hoje”.
Ao que Yang rebateu: “Os Estados Unidos usam a sua força militar e hegemonia financeira para cumprir uma jurisdição do seu poder e suprimir outros países. Abusa das chamadas noções de segurança nacional para obstruir as normas comerciais e incita outros países a atacar a China”.
“Deixe-me dizer-lhe, os Estados Unidos não têm qualificação para dizer quem pode dialogar com a China”, acrescentou.
Já Blinken recordou que o Governo norte-americano “está empenhado em liderar com a diplomacia para promover os interesses dos Estados Unidos e fortalecer a ordem internacional com base nessas regras. Este sistema não é uma generalização. Ajuda os países a resolver as diferenças pacificamente, a coordenar os esforços multilaterais com eficácia e a participar no comércio global com a garantia de que todos seguem as mesmas regras. A alternativa para uma ordem baseada em regras é um mundo no qual o poder faz o que é certo e os vencedores levam tudo. E esse seria um mundo muito mais violento e instável para todos”.
As intervenções iniciais de Blinken e de Yang, que foram abertas à comunicação social, duraram mais de uma hora – muito mais do que o habitual em reuniões de alto nível. Mas, as duas delegações não se entenderam quanto ao tempo reservado à assistência dos jornalistas ao debate entre as maiores economias do mundo.
Após a parte aberta à comunicação social, um alto funcionário do Governo dos Estados Unidos afirmou que a delegação chinesa tinha chegado “com a intenção de se exibir, focada em encenações públicas e dramáticas em vez de substância”.
“Deixaram isso claro ao violar o protocolo. Tínhamos acordado em fazer uma declaração de abertura de dois minutos para cada delegação. No entanto, enquanto as declarações dos representantes norte-americanos ficaram perto desse limite, a delegação chinesa discursou mais de 20 minutos”, acrescentou.
Os momentos que antecederam a reunião
Quando foi revelado que as duas delegações se iriam reunir no Alasca houve um certo grau de otimismo, pois poderia ser o pontapé de partida para o início de um novo relacionamento entre Pequim e Washington, após o colapso no final do mandato de Trump.
Os EUA procuravam uma mudança de comportamento da China, que no início do ano expressou a esperança de um retorno às relações.
No mês passado após uma chamada telefónica entre Biden e o líder chinês, Xi Jinping, o ministro das Relações Exteriores da China afirmou que “nos últimos anos, as relações China – EUA desviaram-se do caminho normal e enfrentou as maiores dificuldades desde o estabelecimento das relações diplomáticas”.
Com os órgãos de comunicação social chineses a especularem se o “momento Alasca” poderia fornecer bases para isso.
Mas, à medida que a reunião se aproximava, os dois lados começaram a sinalizar que o espaço para acordos era muito reduzido, e a minimizar as possibilidades de um acordo.
Na véspera da reunião, Pequim vaticinou um encontro controverso, com o seu embaixador em Washington a afirmar que os Estados Unidos estavam cheios de ilusões se pensassem que a China chegaria a um acordo.
Apesar de grande parte da política de Biden com a China ainda estar a ser formulada, incluindo a forma de lidar com as tarifas sobre produtos importados da China implementadas por Trump, a sua administração colocou, até agora, uma enfase mais forte nos valores democráticos e nos alegados abusos de direitos humanos por parte da China.
Poucos dias antes da reunião em Anchorage, os Estados Unidos lançaram uma série de ações dirigidas à China, incluindo um movimento para revogar as licenças de telecomunicações, intimações a várias empresas chinesas de tecnologia de informação por questões de segurança nacional e sanções devido a um retrocesso da democracia em Hong Kong.
Mas, à medida que a reunião se aproximava, os dois lados começaram a sinalizar que o espaço para acordos era muito reduzido, e a minimizar as possibilidades de um acordo.
Na véspera da reunião, Pequim vaticinou um encontro controverso, com o seu embaixador em Washington a afirmar que os Estados Unidos estavam cheios de ilusões se pensassem que a China chegaria a um acordo.
Apesar de grande parte da política de Biden com a China ainda estar a ser formulada, incluindo a forma de lidar com as tarifas sobre produtos importados da China implementadas por Trump, a sua administração colocou, até agora, uma enfase mais forte nos valores democráticos e nos alegados abusos de direitos humanos por parte da China.
Poucos dias antes da reunião em Anchorage, os Estados Unidos lançaram uma série de ações dirigidas à China, incluindo um movimento para revogar as licenças de telecomunicações, intimações a várias empresas chinesas de tecnologia de informação por questões de segurança nacional e sanções devido a um retrocesso da democracia em Hong Kong.