Diretores da Polícia Federal colocam cargos à disposição perante crise no Supremo brasileiro

Diretores da Polícia Federal colocam cargos à disposição perante crise no Supremo brasileiro

A direção da Polícia Federal (PF) do Brasil colocou os cargos à disposição após o Supremo Tribunal Federal (STF) afastar hoje o chefe da corporação, no meio de uma crise sem precedentes que envolve juízes da instituição.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Adriano Machado - Reuters

Ao todo, onze diretores da Polícia Federal decidiram divulgar uma nota conjunta em defesa do diretor-geral, Andrei Rodrigues, e de Leandro Almada, também afastado do cargo da diretoria de Inteligência da corporação por decisão do juiz do STF André Mendonça.

Na declaração conjunta, referem que Rodrigues e Almada foram alvo de "ataques injustificados" e defendem que a Polícia Federal deve ser preservada de "tentativas de usurpação de funções".

A carta é assinada por diretores das mais diferentes áreas, que compõem a estrutura da corporação, como diretoria de Amazónia e Meio Ambiente, Combate a Crimes Cibernéticos, Investigação e Combate ao Crime Organizado e Corrupção, Cooperação Internacional, entre outras.

"Narrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais não têm o poder de apagar a história, a reputação e a trajetória profissional de quem quer que seja", escrevem.

O afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada é mais um capítulo que envolve a guerra entre os juízes do STF André Mendonça e Alexandre de Moraes, que travam uma disputa via mecanismos processuais desde a semana passada.

Ambos tentam expor contradições do trabalho um do outro na condução de investigações que atingem vários políticos do país, num momento em que o Brasil está em campanha eleitoral.  

A crise iniciou-se após Mendonça quebrar o sigilo de uma investigação que expunha Moraes, sobre relações suspeitas e comprometedoras com Daniel Vorcaro, do banco Master, arguido por fraude milionária no sistema financeiro.

Em resposta, Moraes usou o inquérito das Fake News, que está sob a sua alçada há sete anos, para tentar levantar suspeitas contra Mendonça, ao encaminhar um pedido de investigação contra o colega ao presidente do Supremo.

Para sustentar o pedido, Moraes usou relatórios apócrifos da PF -- e classificados pela própria corporação como documentos sem prova probatória -- para acusar Mendonça de cometer os crimes de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e improbidade administrativa na condução de dois inquéritos de corrupção.

Mendonça é relator do inquérito do banco Master, que tem como figura central o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entretanto detido e atualmente em prisão preventiva, e do inquérito da fraude dos descontos indevidos de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social, que atinge também vários políticos.

Na decisão de hoje que afastou Rodrigues e Almada, Mendonça afirma que ele próprio foi alvo de "monitoramento sistemático" e "ilícito" realizado pelos serviços de informações (inteligência) da Polícia Federal (PF) durante mais de 30 dias.

Logo após o afastamento de Rodrigues e Almada, o diretor-executivo da Polícia Federal, William Marcel Murad, segundo na linha hierárquica da corporação, saiu em defesa dos colegas e da própria PF.

Horas depois, foi a vez da cúpula da corporação se manifestar, mas desta vez o grupo colocou o cargo à disposição de Murad, também num gesto de apoio aos dois dirigentes afastados.

"Assim, cumprindo nosso dever de defender a Instituição de ataques e tentativas de usurpação de funções, e assegurando o interesse público na manutenção de uma Polícia Federal capaz de promover justiça e assegurar o Estado Democrático de Direito, tornamos público nosso apoio aos diretores", escrevem.

"Para que fique absolutamente claro, repudiamos toda e qualquer tentativa de imputar a eles ou à Polícia Federal uma atuação não republicana. Tais acusações, desprovidas de fundamento, afrontam a história, a credibilidade e o compromisso institucional que sempre pautaram suas condutas", realçam.

A decisão de Mendonça foi recebida com surpresa no Palácio do Planalto (presidência), tendo o Presidente brasileiro, Lula da Silva, convocado uma reunião de emergência com ministros para avaliar como recorrer da decisão do juiz do STF.

Tópicos
PUB