Discurso "puramente nazi" de Orbán provoca demissão de conselheira

O primeiro-ministro húngaro manifestou-se contra a existência de um "mundo mestiço", no caso de europeus se misturarem com povos externos. Estas palavras foram descritas pela conselheira Zsuzsa Hegedus como "puramente nazis" e dignas de Joseph Goebbels. Pelo que renunciou ao cargo.

Carla Quirino - RTP /
Eric Vidal - Reuters

O primeiro-ministro húngaro discursou no passado sábado na região romena de Tusványos, perante uma grande comunidade húngara. Viktor Orbán defendeu que os povos europeus devem ser livres para se misturarem, mas afirmou-se contra a mistura com não-europeus, porque, nas suas palavras, cria um "mundo mestiço".

"Estamos dispostos a misturar-nos uns com os outros, mas não queremos tornar-nos pessoas mestiças", declarou.

Na sequência de tais palavras, a socióloga e conselheira Zsuzsa Hegedus, que conhece Viktor Orbán há 20 anos, acusou o primeiro-ministro de ter proferido um discurso nazi, descrevendo-o como uma colagem à ideologia do chefe do ministério de propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels.

"Não sei como não percebeu que o discurso que fez é uma retórica puramente nazi digna de Joseph Goebbels"
, escreveu Hegedus na carta em que se demitiu do cargo.
Reações
Esta troca de acusações reacendeu as críticas às políticas nacionalistas e anti-imigração de Orbán.

A Comissão Internacional de sobreviventes do Holocausto de Auschwitz caracterizou o discurso de "estúpido e perigoso".

O rabino Robert Fröhlich relembrou que "apenas uma raça habita esta terra, Homo Sapiens. E é única e indivisa".

Os políticos da oposição húngara descreveram as palavras de Orbán como "indignas de um estadista europeu".
Resposta  e contra-resposta
Viktor Orbán respondeu a Hegedus: "Não pode estar a falar a sério quando me acusa de racismo depois de vinte anos a trabalharmos juntos. Sabe bem que o meu Governo segue uma política de tolerância zero quando se trata de antissemitismo e racismo na Hungria".

O porta-voz do Governo, Zoltan Kovacs, tentou abafar a onda crescente de condenação, primeiro dizendo que a comunicação social tinha deturpado o discurso e depois defendendo que Orbán tinha sido sincero sobre os temas de imigração.


Zsuzsa Hegedus | Zsolt Szigetváry - Twitter

Em contra-resposta, Zsuzsa Hegedus argumenta que, como pessoa sem responsabilidades políticas, Viktor Orbán poderia dizer o que quer, mas, uma vez que é primeiro-ministro, não poderia ficar calada.

"A menor sentença pública sobre discriminação racial incita algo que a história já provou não só na Europa, mas também na África e na Arménia", acentuou, relembrando os seis milhões de judeus vítimas do Holocausto.

"Não sei quem sugeriu este discurso ou porquê e não entendo como não se apercebeu de que este texto não é o que provavelmente pretendia dizer", sublinha Hegedus. Acrescenta que na carta de demissão não classificou Orbán de racista ou de extrema-direita, mas reconhece que o primeiro-ministro "tem esses pensamentos na cabeça".

O nacionalista Viktor Orbán foi reeleito em abril passado e elogiado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, perante a vitória nas urnas.
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