Discussão com tiros e "gritos incessantes" antecedeu morte de namorada de Pistorius

Testemunhas ouviram uma acesa discussão e disparos em duas ocasiões distintas na casa de Oscar Pistorius, na madrugada em que a namorada do atleta sul-africano foi assassinada a tiro, afirma a procuradoria sul-africana. Reeva Steenkamp foi encontrada morta na casa-de-banho da casa onde vivia com Pistorius em Pretoria. Pistorius diz que confundiu Reeva com um assaltante.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Oscar Pistorius durante a audiência preliminar pela morte da namorada, Reeva Steenkamp. Siphiwe Sibeko/Reuters

De acordo com o primeiro agente da polícia a chegar ao local, uma testemunha afirmou ter ouvido gritos e tiros vindo da casa de Pistorius.

"Temos o testemunho de uma pessoa que disse que, depois de ouvir tiros, foi à varanda e viu que as luzes estavam acesas. Então ouviu uma mulher a gritar duas ou três vezes e depois, mais tiros", afirmou Hilton Botha na audiência preliminar de Pistorius, de acordo com a Agência France Presse.

Há testemunhos de que entre as 02h00 e as 03h00 da madrugada de 14 de fevereiro se ouvia "conversa em voz alta incessante como numa discussão," afirmou a procuradoria sul-africana.
Tiros "de cima"
Hilton Botha disse que, quando chegou à cena do crime pelas 04:15, estavam presentes um advogado e o irmão de Oscar Pistorius.

O agente encontrou Reeva na casa-de-banho, vestida com calções e um casaco e coberta de toalhas. O agente acrescenta que a modelo parecia ter sido atingida por tiros vindos "de cima" o que poderá indicar que o atleta tinha colocado as próteses que usa nas pernas amputadas.

Oscar Pistorius afirmou terça-feira que não tinha as próteses colocadas e isso o fazia sentir-se "extremamente vulnerável".

Diz ainda que confundiu Reeva com um intruso e que disparou em plena escuridão contra a porta da casa-de-banho. Nega também que tenha havido uma discussão. Revolver sem licença
Botha disse que Pistorius deverá ser acusado de ter violado a lei de posse de arma, por ter sido encontrado um revólver sem licença calibre 38 e munições na casa onde ele vive.
O diário de Joanesburgo, The Star, afirma que Pistorius pediu em janeiro licença para seis armas Maverick, Mossberg, Wincheter, Vextor .223, Smith&Wesson 500 e 30.Special.
O agente afirmou terem sido encontrados ainda dois recipientes com testosterona assim como seringas, na casa-de-banho do atleta paraolímpico e olímpico. A testosterona é considerada uma substância dopante interdita aos atletas.

A defesa de Pistorius contestou no entanto esta afirmação de Botha, dizendo que não se tratava de testosterona mas sim de um medicamento à base de ervas.

Levou ainda o polícia a reconhecer que a testemunha que ouviu os tiros e os gritos estava a cerca de 600 metros da casa de Pistorius, acusando depois o agente de estar a interpretar da pior forma os vestígios encontrados na cena do crime.
Fuga à justiça
Oscar Pistorius, de 26 anos, é acusado do assassínio premeditado de Reeva na noite de São Valentim, mas o juiz pode decidir libertá-lo sob caução.

Hilton Botha afirmou ao tribunal que foi também recuperada uma pen com informações sobre as contas de Pistorius no estrangeiro, considerando isso como prova de que o atleta poderia fugir à justiça sul-africana.

O segundo dia da audiência preliminar iniciou-se com atraso devido à multidão de jornalistas e de curiosos que tentaram entrar na sala do Tribunal. Uma jornalista chegou a desmaiar devido à pressão.

O julgamento só deverá decorrer daqui a vários meses.
"Extremamente vulnerável"
Oscar Pistorius afirmou na terça-feira que amava a namorada e que a matou por engano. Conforme contou ao juiz, acordou durante a noite convencido de que estava um intruso na casa-de-banho.

O atleta afirma que então, sem acender as luzes, pegou numa arma que estava debaixo da cama, gritou à pessoa para fugir e disparou através da porta. A modelo foi encontrada na casa-de-banho morta com quatro tiros na cabeça e no torso disparados por uma arma Parabellum de nove milímetros.

O atleta sul-africano é amputado de ambas as pernas e afirma que se sentia "extremamente vulnerável" sem as próteses com que costuma caminhar, embora consiga andar sobre os cotos.

Pistorius acrescenta que, só depois de disparar é que se apercebeu que Reeva não estava deitada na cama. "Ela morreu nos meus braços. Estou completamente devastado pela morte da minha querida Reeva," afirmou Pistorius entre lágrimas.

O corpo da modelo, de 29 anos, foi cremado na terça-feira.
Premeditado
Os procuradores contestam a versão de Pistorius e afirmam que o crime foi premeditado.

"Não há explicação que apoie a versão dele de que pensava tratar-se de um ladrão," afirma a acusação.

"Fez tudo parte de um plano. Porque é que um assaltante se fecharia na casa-de-banho?" acrescentam os procuradores afirmando que o atleta colocou as próteses antes de disparar.

A audiência preliminar deverá durar até ao fim de semana.

Oscar Pistorius alcançou a fama ao correr em competição com próteses e por se ter tornado o primeiro atleta a participar nos Jogos Olímpicos apesar da sua deficiência.
PUB