Dissidentes sauditas no exílio criam partido de oposição à monarquia absoluta
Um grupo de dissidentes sauditas exilados em países como o Reino Unido ou os Estados Unidos anunciou hoje a criação de um partido da oposição, a primeira força política do género sob o reinado do rei Salman.
"Anunciamos hoje a criação do Partido da Assembleia Nacional [PAN], que visa instaurar a democracia como forma de Governo no reino da Arábia Saudita", indicaram os dissidentes num comunicado publicado no dia do 90.º aniversário da fundação do reino saudita.
A Arábia Saudita é uma monarquia absoluta que não tolera qualquer oposição política e a criação do PAN surge numa altura em que Riade tem aumentado a repressão sobre dissidentes.
Até agora, as autoridades sauditas ainda não tomaram qualquer posição.
O partido é dirigido por Yahya Assiri, defensor dos Direitos Humanos e residente em Londres, e conta, entre os membros, o professor universitário Madaoui al-Rachid, o investigador Said bem Nasser al-Gamdi, Abdallah Alaoudh, que reside nos Estados Unidos, e Oman Abdel Aziz, exilado no Canadá, indicaram à agência noticiosa France-Presse (AFP) fontes próximas da nova força política.
O novo partido coloca, segundo especialistas citados pela AFP, um novo desafio aos dirigentes sauditas, numa altura em que o reino está a ser afetado pela queda dos preços do petróleo e se prepara para acolher uma cimeira do G20, em novembro.
"Criamos o partido num momento crítico para tentar salvar o nosso país [...], instituir um futuro democrático e responder às aspirações do nosso povo", disse à AFP Yahya Assiri, que foi eleito secretário-geral do PAN.
Assiri, um antigo oficial da Força Aérea saudita, é o fundador da organização de defesa dos Direitos Humanos ALQST, com sede em Londres.
No comunicado, a nova força política releva que a sua criação ocorre num momento em que "o horizonte político está bloqueado por todos os lados".
"O Governo pratica, de forma constante, a violência e a repressão, com um número crescente de detenções e de assassínios, políticas cada vez mais agressivas contra os Estados vizinhos, desaparecimentos forçados e obriga as pessoas a fugirem do país", lê-se no texto do documento.
A Arábia Saudita tem sido há já vários anos objeto de críticas internacionais relacionadas com os Direitos Humanos, acusações acentuadas depois de Mohamed ben Salmane, que se apresentou como reformista, se ter tornado príncipe herdeiro, em junho de 2017.
Em outubro de 2018, a morte do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime saudita, no consulado da Arábia Saudita em Istambul (Turquia) manchou a imagem do reino e do próprio príncipe herdeiro, acusado pela Turquia e pelos defensores dos direitos humanos de estar por trás do assassínio.
A formação do Partido da Assembleia Nacional "era aguardado há muito", declarou à AFP Abdallah Alaoudh, cujo pai, Salman al-Awda, um religioso, foi detido em dezembro de 2017, arriscando a pena de morte.
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