Ditador da Libéria trabalhou para a CIA

O primeiro Presidente africano a ser julgado por crimes de guerra, Charles Taylor, foi informante da CIA e de outras agências de informação, durante a sua ascensão ao poder, nos anos 80. Ao fim de um quarto de século de silêncio as autoridades norte-americanas confirmaram suspeitas antigas. Mas a Agência de Informações de Defesa, o corpo de espionagem do Pentágono, recusa revelar quaisquer detalhes da relação com Taylor, alegando que isso poria em perigo a segurança nacional norte-americana.

Graça Andrade Ramos /
Charles Taylor nos tempos de senhor da guerra da Libéria

Foi o próprio Charles Taylor quem primeiro revelou a relação com as agências de informação norte-americanas, em 2009, perante o Tribunal Penal de Haia, confirmando rumores anteriores.

Na ocasião a CIA classificou a alegação como “completamente absurda”.

Agora, devido a uma pergunta feita pelo jornal Globe, ao abrigo da lei americana de Liberdade de Informação, a Agência de espiões do Pentágono confirmou pela primeira vez as palavras do ex-ditador.

Segundo a resposta recebida pelo Globe, Charles Taylor colaborou efetivamente com a Agência e igualmente com os agentes da CIA, durante os anos 80, o período em que se tornou um dos senhores de guerra mais célebres de África.

Entre 1997 e 2003 Charles Taylor foi Presidente da Libéria, um país conhecido pelas suas guerras e pelos “diamantes de sangue” com que Taylor financiava a compra de armas, devido ao embargo decretado pela ONU.

Nesse período terá, alegadamente, armado e controlado os rebeldes da RUF na vizinha Serra Leoa, numa guerra que durante 10 anos espalhou o terror e atingiu severamente a população civil.

Taylor está atualmente detido em Haia onde responde perante o Tribunal Especial das Nanções Unidas para a Serra Leoa, por múltiplas acusações de assassínio, violação, ataque a civis e uso de crianças-soldados durante a guerra. Em 2009 afirmou-se inocente de todas as acusações.

Se for condenado, Charles Taylor deverá cumprir pena no Reino Unido.
  Uma vida que dava um filme
Charles Taylor nasceu na Libéria a 28 de janeiro de 1948. O pai era libério-americano e ele foi estudar em Massachusetts, no Bentley College, entre 1972 e 1977, onde se formou em Economia. Durante a sua estadia nos Estados Unidos, liderou a contestação na sede da ONU, em Nova Iorque, ao então Presidente da Libéria, William Tolbert, com quem chegou a debater várias questões da Libéria.

Em 12 de abril de 1980 Taylor apoiou Samuel Doe no golpe para destituir Tolbert, que acabou assassinado. Foi incluído no governo de Doe como responsável pela Agência Geral de Serviços da Libéria mas acabou demitido em maio de 1983, acusado de desviar mais de um milhão de dólares para contas pessoais na América.

Taylor fugiu para os Estados Unidos onde foi detido em 1984 ao abrigo de um acordo de extradição com a Libéria. Combateu a decisão, alegando possibilidade de ser assassinado pelos homens de Doe e foi defendido pelo ex-Procurador-geral dos EUA, Ramsey Clark.

Encerrado numa prisão de alta segurança em Massachusetts, Taylor e outros quatro detidos fugiram no dia 15 de setembro de 1985, através da janela de uma lavandaria e descendo 12 metros através de lençóis atados uns aos outros.

Escalaram e passaram o muro da prisão e foram os cinco encontrar-se com a mulher e a cunhada de Taylor. Estas e os outros quatro fugitivos acabaram por ser detidos mas Taylor desapareceu em Staten Island.

Atualmente suspeita-se que a fuga tenha tido a colaboração da CIA e que, já então, as agências de informação americanas estavam interessadas em usá-lo como informador.

Um antigo associado de Taylor e senador liberiano, Prince Johnson, testemunhou depois, perante a Comissão de Reconciliação da Libéria, que Taylor foi libertado para ajudar os Estados Unidos a depor Doe, versão confirmada pelo próprio Taylor em Haia.

Os anos da guerra
Dos Estados Unidos Taylor refugiu-se na Líbia, onde recebeu treino de guerrilha e se tornou um protegido de Muammar Kaddafi. Depois rumou à Costa do Marfim, onde fundou a NPFL, Frente Patriótica de Libertação da Libéria.

Com este grupo e apoiado pelo regime líbio, Taylor iniciou em dezembro de 1989 uma ofensiva para depor Doe. Johnson, então um dos seus lugares-tenentes, acabou por se separar e fundou o seu próprio grupo. Foi ele quem capturou e executou Doe.

Depois, Johnson e Taylor e mais cinco senhores da guerra lançaram-se na primeira guerra civil da Libéria, de contornos tribais, em luta pelos inúmeros recursos do país, sobretudo madeira, diamantes, borracha e minério de ferro.

A guerra terminou em 1996 e no ano seguinte Taylor ganhou as eleições presidenciais com 75% dos votos e o slogan “ele matou o meu pai, ele matou a minha mãe, mas eu vou votar nele”.

Proteção dos EUA
A presidência de Taylor ficou marcada por acusações de financiamento do conflito civil da Serra Leoa. Ele terá fornecido armas aos rebeldes e dado apoio a diversas atrocidades contra a população civil, desde raptos e mutilações até ao uso de crianças como soldados.

A segunda guerra civil da Libéria começou em 1999, para destronar Taylor. Este aguentou-se no poder até 2003, quando abdicou sob forte pressão internacional e se refugiou na Nigéria, um aliado dos EUA.

Nesse mesmo ano, o Tribunal Especial para a Serra Leoa acusara Taylor de crimes de guerra e ordenado a sua detenção. Mas só em 2006 esta aconteceu, apesar de Taylor ter tentado fugir, mais duas vezes.

Nos Estados Unidos o Presidente era então George W. Bush, cuja administração foi severamente criticada pela demora em intervir junto do governo da Nigéria para entregar Taylor.

Atualmente, diversos especialistas em política internacional acreditam que a relutância americana em entregar Taylor estava relacionada com os serviços prestados por ele às agências de informação. E talvez estas tenham desempenhado algum papel nas suas tentativas de fuga.

Um veredicto do julgamento de Taylor é esperado no primeiro trimestre do ano, afirma um porta-voz de Haia.
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