Divisões no Partido Republicano agudizam-se com acordo para evitar paralisação

O líder Republicano da Câmara dos Representantes norte-americana, Mike Johnson, conseguiu evitar a paralisação do governo com um acordo para o teto da dívida, mas o processo agudizou as divisões no partido, disse à Lusa a analista política Daniela Melo. 

Lusa /

"Johnson herdou agora um partido que está mais dividido ainda do que estava com McCarthy", afirmou a professora da Universidade de Boston, referindo o anterior líder Kevin McCarthy, afastado há cerca de um mês após pressão da ala mais radical dos congressistas Republicanos, mais próximos de Donald Trump. 

"O que aconteceu aqui é que Johnson comprou tempo para conseguir desenvolver uma estratégia que consiga aplacar não só a ala mais radical, mas também a ala mais centrista", adiantou. 

A resolução orçamental que evitou a paralisação do governo a partir de 17 de novembro só foi aprovada na câmara liderada por Johnson por causa dos votos dos Democratas, que estão na minoria. Houve 93 Republicanos a votar contra, o que denota a fratura no grupo maioritário. 

"Isto passou com mais votos Democratas do que Republicanos", salientou Daniela Melo. 

O anterior líder Kevin McCarthy foi destituído em outubro precisamente porque fez um acordo semelhante com os Democratas para evitar a paralisação do governo. Mike Johnson não sofreu o mesmo fim, segundo a cientista política, porque o contexto é distinto. 

"Temos aqui uma situação em que Johnson ainda é uma tábula rasa, ainda não criou os anticorpos nas várias fações do partido que McCarthy já tinha", considerou. 

O professor de ciência política na Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, Thomas Holyoke, também frisou esse ponto. "Os conservadores de extrema-direita no Freedom Caucus da câmara veem Johnson como um dos seus, algo que nunca sentiram com McCarthy", disse o analista, lembrando que a revolta contra o anterior `speaker` teve um cariz pessoal. 

Já a ala moderada, que não confia no novo líder, está expectante. "Não há estado de graça. A coisa é mais pragmática", disse Daniela Melo. "Criou-se um ambiente dentro do partido em que é cada um por si e neste momento a estratégia é esperar e ver". 

No cargo há apenas algumas semanas, Mike Johnson viu-se sem muitas opções e não querendo provocar uma paralisação a poucos dias do grande feriado do Dia de Ação de Graças, a 23 de novembro. É um dos mais importantes para os norte-americanos. 

"Não é a melhor altura do ano para paralisar o governo, parece mesquinho e vingativo, especialmente num momento em que é suposto termos gratidão e preparar-nos para o Natal", salientou Holyoke. 

"Os Republicanos aprenderam da pior forma, ao longo dos anos, que quando paralisam o governo as pessoas atribuem-lhes a culpa", lembrou. "Perceberam que uma paralisação seria provavelmente má para eles". 

Tal diz mais sobre a situação específica que das capacidades de liderança de Johnson, de quem ainda não se conhece bem o estilo. 

"Conseguiu passar legislação e evitar outro grande escândalo com os Republicanos no centro, e ao mesmo tempo conseguiu ganhar tempo para desenvolver uma estratégia", disse Daniela Melo. 

Mas o processo ilustrou a dificuldade de conciliar prioridades e faz antever um 2024 difícil no Congresso. 

"Há uma alienação dentro do Partido Republicano que poderá ou não ser resolvida por Johnson", apontou a professora. "Veremos se ele tem as capacidades necessárias para criar uma nova aliança dentro do partido".

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