Do Quénia para Lisboa ou o caminho das pedras de refugiados e migrantes
Margaret deixou o filho no Quénia, de onde partiu há um ano e meio, por não se sentir segura no contexto familiar e político. Em Portugal, espera conseguir trabalho ou criar o próprio negócio.
É apenas um dos rostos que esta semana passam pelos apoios da Refugee Week, em Lisboa, mas as histórias repetem-se a cada dia.
Sozinha em Portugal, sonha ter consigo o filho de 21 anos. "O meu filho está a enfrentar muitos desafios. Já falei com alguém na AIMA [Agência para a Integração, Migrações e Asilo]. Fiz um pedido para o programa de reagrupamento familiar. Gostava disso", contou à agência Lusa nas instalações do Lisbon Project, uma das várias associações que participam na Refugee Week (16 a 22 de junho) e que ajudam refugiados e migrantes.
Margaret Njeri Nyoto chegou a Portugal há um ano e cinco meses, depois de passar pelos Países Baixos, onde permaneceu 12 dias.
No Quénia, era "constantemente ameaçada", disse.
"Se conseguir um bom trabalho em Portugal ou um bom negócio, penso que prefiro ficar aqui", sorriu. "No início não foi fácil, mas considero que é melhor para mim. É melhor do que o Quénia, não se pode comparar!".
Foi para procurar ajuda com a busca de trabalho que recorreu ao Lisbon Project, onde é prestado apoio com questões burocráticas, elaboração de currículo e outros assuntos que para refugiados e migrantes representam obstáculos acrescidos, como aceder à AIMA ou tratar do IRS.
No Quénia, fazia bolos e vendia. "Aqui posso trabalhar num hotel, fazer limpezas ou trabalhar como cuidadora", adiantou.
"Vim como imigrante, mas quando as coisas se complicaram para mim, decidi pedir asilo", recordou ao lembrar um percurso ao longo do qual nem sempre se sentiu segura, mesmo fora do Quénia, como quando teve de partilhar um campo com "homens africanos de outros países".
Com os portugueses sente-se bem e não tem qualquer experiência negativa para contar: "Penso que estou em segurança".
"Vim aqui para pedir proteção, porque não me sentia segura. Consegui asilo e agora tenho residência temporária", referiu.
Vive atualmente em Lisboa, ao abrigo da Santa Casa, que tem um programa de respostas de emergência para cidadãos sem residência fixa ou em trânsito na cidade, face a situações de risco, como requerentes de asilo e candidatos ao estatuto de refugiado.
Adriane Vieira, gestora de cuidados sociais do Lisbon Project, a comemorar oito anos de existência, lida diariamente com estas situações. As nacionalidades com maior afluência neste momento são do Paquistão, do Nepal, do Bangladesh e da Índia, observou, estimando em centenas o número de pessoas que ali procurou ajuda este ano.
"Também temos pessoas do Brasil, da Síria e de Marrocos", acrescentou: "Todos os dias temos muitas pessoas a passar pelo Lisbon Project. Como voluntários e staff, também temos várias nacionalidades".
A organização, situada em Arroios, presta habitualmente também apoio emocional e de bem-estar, além de ajudar com o acesso a cuidados de saúde, o registo das crianças e aulas de português.
Entre os voluntários que participam nesta semana que une várias comunidades em diversos eventos culturais e sociais, a gestora indicou a equipa da Global Citizen Slutions, uma empresa portuguesa especializada em mobilidade, parceira do Lisbon Project.
"Estão a guiar as pessoas em questões relacionadas com a AIMA, Finanças, IRS e arrendamento", explicou, antes de seguir para um ´workshop´ sobre empregabilidade, prestes a começar.
Gizane Campos, da Global Citezen Solutions, que está nesta parceria a prestar atendimento gratuito, reconheceu que todo o processo que envolve documentação é "bem complicado", especialmente para quem vem de outro país, "em situações adversas".
Para um motorista, por exemplo, uma carta de condução sem validade significa que não pode trabalhar em Portugal, nem pode solicitar qualquer serviço no país de origem onde é perseguido.
"Hoje tivemos aqui uma pessoa com uma situação destas. A carta está vencida e não pode ser emitida, porque não pode nem pisar na embaixada desse país", garantiu.
"São casos destes em que as pessoas precisam de uma orientação bem específica e humanizada", afirmou, sublinhando que quando procuram ajuda muitos já tentaram, sem sucesso, resolver por si, junto das entidades oficiais, os problemas que enfrentam.
Neste caso, o portador da carta tinha já tentado resolver a questão, através de vários contactos com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT).
A única solução, por vezes, é iniciar uma aprendizagem e começar de novo, admitiu Gizane, reconhecendo que a ajuda prestada aos refugiados e migrantes não acompanha todo o processo: "Indicamos o caminho das pedras".