Dois atentados abalam capital da Somália no espaço de uma hora

Dois carros armadilhados explodiram em Mogadisciu, à entrada de um restaurante e de um hotel, perto da praia do Lido e com uma hora de intervalo. O grupo armado islamita al Shabaab reivindicou a autoria do atentado num telefonema à televisão do Qatar, Al Jazeera.

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um polícia protege-se do tiroteio com as milícias islâmicas al Shabaab, dia 1 de novembro de 2015 na capital da Somália, Mogadisciu. Os jihadistas atacaram nessa ocasião um hotel, fazendo explodir duas viaturas e invadindo depois o edifício. Entrincheiraram-se durante horas. Pelo menos 11 pessoas morreram. Feisal Omar - Reuters

A primeira explosão ocorreu pelas 19h30 e os jihadistas invadiram depois o restaurante Beach View Café, que foi cercado pelas forças de segurança. Uma hora depois deu-se a segunda explosão que ecoou pela cidade.

O ataque atingiu as entradas do restaurante Marisqueira Lido e do café do Beach View Hotel.

Um carro carregado de explosivos foi primeiro atirado contra o Beach View Hotel, tendo os jihadistas depois aberto fogo sobre o local, afirmaram testemunhas à Al Jazeera. Depois, vindos da praia, aproximaram-se cinco homens armados.

"Após a explosão vi pelo menos quatro homens armados a entrar a correr dentro do hotel, a matar toda a gente dentro e fora do hotel", contou Mustafa Elmi, um visitante do Lido, à agência DPA. "Consegui escapar com ferimentos ligeiros mas houve pessoas mortas de imediato", referiu.

Uma segunda explosão atingiu depois a Marisqueira Lido e vários jihadistas estarão ali entrincheirados.

"O segundo carro explodiu ainda agora e há combatentes lá dentro", afirmou à Reuters o major Farah Abdulle, que testemunhou o sucedido. "Não conseguimos saber o número de vítimas lá dentro," acrescentou.

O balanço final dos atentados fixou-se em 19 mortos.

Al Shabaab confirmou ataque
De acordo com o repórter da Al Jazeera, a certa altura as luzes da Marisqueira foram todas apagadas e a polícia tentou um assalto. "Está em curso um enorme tiroteio", afirmou o jornalista freelance Abdirizak Mohamud, à televisão do Qatar, Al Jazeera.

"Mais e mais forças de segurança estão a entrar no restaurante. Retiraram até agora três feridos", acrescentou Mohamud.

À Reuters, o porta-voz das operações militares do al Shabaab, Sheikh Abdiasis Abu Musab, confirmou a autoria do ataque e o cerco.

"Estamos dentro e controlamos o café," afirmou Abu Musab. "Há muitas vítimas pelo chão dentro e fora do café", acrescentou.

A Reuters não esclarece se Abu Musab se refere à situação da Marisqueira, à situação do hotel Beach View ou se a ambas.

Testemunhas afirmam que o eco da segunda explosão se ouviu em todo o centro da cidade, seguindo-se tiroteio esporádico.
Relato em primeira mão
A BBC reproduziu o relato de Ali-Bashe Abdullahi Abdi, diretor da Radio Mustakbal Radio, de Mogadisciu.

"Após a oração da noite, fui à praia Lido, precisamente ao restaurante Beach View. Quando estava lá há cerca de 30 minutos, a passar tempo com os meus amigos incluindo jornalistas, vimos balas a chover sobre nós.

Havia muitas pessoas sentadas à minha volta, estava a decorrer uma festa de casamento no átrio do restaurante. Começamos a correr para a porta, mas antes de lá chegar ouvimos uma forte explosão.

Vi algumas pessoas a saltar do segundo andar. Voavam balas por todo o lado e houve uma segunda explosão. Nessa altura toda a gente ficou confusa. Eu vi pessoalmente três pessoas feridas. Não vi aqueles que foram atingidos pelas explosões. Penso que o carro estava estacionado frente à porta da entrada do restaurante."
Estratégia habitual do al Shabaab
O primeiro-ministro somali, Omar Abdirashid Ali Sharmarke, condenou o ataque que classificou como "bárbaro".

A frente de praia do Lido tem diversos restaurantes, habitualmente cheios nas quinta-feiras à noite, dia de saída nocturna na capital da Somália. 

O grupo al Shabaab é alinhado com a rede terrorista al Quaeda e já atingiu com atentados semelhantes restaurantes e hotéis por toda a capital somali. Pretende derrubar o Governo apoiado pelo Ocidente.

Um atentado recente dia 1 de novembro de 2015 seguiu o mesmo método de ataque. O alvo dessa vez foi o hotel Sahafi, onde se reuniam legisladores e responsáveis governamentais.

A Somália vive em conflito constante desde o eclodir da guerra civil em 1991
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