Durão na mira dos franceses a cinco dias da visita de Hollande

O Presidente francês engrossou esta quinta-feira a coluna dos críticos de Durão Barroso no seu recente ingresso no Goldman Sachs como presidente não executivo do banco. Durão banqueiro é uma versão de José Manuel Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, que está a provocar forte reação de mal-estar entre os responsáveis políticos europeus. François Hollande, por exemplo, vê esta transição como "moralmente inaceitável".

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
Durão Barroso fotografado em novembro de 2008 durante uma visita à exposição "Entre Deuses e Homens", no Museu do Prado, em Madrid Susana Vera - Reuters

O Presidente Hollande considera “moralmente inaceitável” a opção de Durão Barroso de ocupar o lugar de chairman (presidente não executivo) de um banco que tantas vezes tem aparecido à cabeça dos maiores escândalos financeiros das últimas décadas: a crise de 2007/2008 que arrasou as economias a nível global ou a fraude em que patrocinou contas adulteradas da Grécia para apresentar à Comissão Europeia, escassos anos antes de o próprio Barroso dirigir o braço executivo da União (de novembro de 2004 a outubro de 2014).

O Goldman Sachs “aconselhava os gregos sobre como esconder os números” das suas finanças para poder aderir à Zona Euro, acusou Hollande.A contratação de Durão Barroso já estaria garantida há mais de um mês.

Durão Barroso, que deixou a liderança do Governo português à pressa, em julho de 2004, para ocupar o cargo em Bruxelas, foi anunciado na semana passada como novo presidente não executivo do Goldman Sachs.

Numa entrevista de maio ao Expresso, falava contudo na necessidade de um período de nojo para a transição da esfera política para o mundo da alta finança. Legalmente, estaria obrigado a esse período de inatividade durante ano e meio. A clausura acabou e Barroso faria saber pouco depois que tinha uma oferta tentadora.

De sublinhar o cuidado com que o antigo primeiro-ministro geriu a sua entrada no Goldman Sachs. Ao atirar a decisão de entrar para depois do referido período de nojo, Durão Barroso estava não apenas a cumprir preceitos de Bruxelas, mas também a esquivar-se à necessidade de um parecer da sua Comissão de Ética para entrar na banca – o que seria obrigatório antes de maio.

O assunto é tão sensível que “um grupo de funcionários de instituições europeias lançou uma petição a apelar à tomada de medidas exemplares contra o recrutamento de Barroso pelo Goldman Sachs, considerando que o seu comportamento é “moralmente condenável” e “desonra” a UE”, como refere o semanário num artigo desta quarta-feira.
"Bater no ceguinho"
Criticar Durão Barroso tornou-se estes dias uma modalidade da política europeia. E nessa modalidade a França é campeã. Nem o facto de François Hollande estar a cinco dias de uma visita de Estado a Portugal está a impedir o Presidente francês de atirar mais uma pedrada contra a imagem de um político português que, supor-se-ia, se iria apresentar aos livros de História com um currículo invejável.
O Presidente francês tem prevista uma visita a Portugal para o próximo dia 19 de julho.


Numa entrevista televisiva a propósito do dia nacional de França, Hollande deixou a confissão: pedira a Barroso para não aceitar o lugar e recuar na ida para a Goldman Sachs. Hollande sabe que esta é uma opção que fará mossa na já muito ferida classe política da velha Europa.

“Juridicamente é possível, mas moralmente é inaceitável (…) foi presidente [da Comissão Europeia] durante dez anos”, em que se deu a crise do mercado imobiliário subprime, na qual o Goldman Sachs foi “uma das entidades principais”.

Nesse mesmo dia já havia sido deixado o pedido de um outro governante francês para que Durão Barroso recusasse o lugar: o ex-primeiro-ministro português “fez a cama dos antieuropeus”, desabafou o mesmo político no Parlamento.

E, como se fosse necessário lembrá-lo, lançou Harlem Désir, secretário de Estado dos Assuntos Europeus: “[Essa contratação] é particularmente escandalosa tendo em conta o papel desempenhado pelo banco [Goldman Sachs] durante a crise financeira de 2008, mas também o papel na camuflagem das contas públicas da Grécia”.

Apenas acrescentar as palavras de Jean-Marc Ayrault, o ministro francês dos Negócios Estrangeiros: “Deve [renunciar], é uma questão de ética, de moral. É totalmente chocante e melhor seria que Barroso fizesse outra coisa”.
Mas também os belgas...
Os sindicatos belgas exigiram, por sua vez, que fosse retirada a mesada de 15 mil euros que a Comissão Europeia destinou a Barroso depois da sua saída do cargo, com o argumento de que o ex-presidente da Comissão não fora autorizado pelo patrão anterior a aceitar o novo emprego. A isto respondem os partidários de Barroso que a obrigação legal, visando precaver conflitos de interesses, vale apenas durante 18 meses, sendo que o antigo primeiro-ministro já deixara o cargo há 20 meses.

Em Der Spiegel, sublinha-se com uma nota de sarcasmo que a passagem de Barroso para o Goldman Sachs não tem nada de extraordinário. E enumeram-se casos de políticos alemães que se puseram ao serviço de multinacionais farmacêuticas, fábricas de armamento, de automóveis ou de petrolíferas. Sublinha-se, além disso, que o Goldman Sachs tem uma lista especialmente recheada de contratações proeminentes.

À promiscuidade entre o capital e a política norte-americana atribui-se uma decisão tão gravosa como a da Casa Branca, de salvar a banca privada com uma injecção de 700 mil milhões de dólares do contribuinte, na crise de 2008, decidida pelo secretário do Tesouro Henry Paulson e pelo seu vice secretário Robert K. Steel, ambos antigos banqueiros do Goldman Sachs (GS).

A promiscuidade é aliás ilustrada nos Estados Unidos por uma larga lista de antigos banqueiros daquele banco que passaram para a política, ou de antigos políticos que passaram para o banco: o chefe de gabinete de Bush filho, Joshua Bolten; John Whitehead, responsável do Federal Reserve Bank; Robert Rubin, ex-secretário de Estado do Tesouro; Robert D. Hormats, subsecretário de Estado para a Economia, a Energia e o Ambiente no Governo de Obama.
"GS connection"

Na política europeia em geral e muito para lá do caso Barroso – “escandaloso”, como agora lhe chamam os franceses –, a “GS connection” tem também expoentes incontornáveis nos mais altos cargos: Otmar Issing, antigo banqueiro central alemão, conselheiro financeiro de Merkel e ao mesmo tempo "International Advisor" do Goldman Sachs; o presidente do BCE, Mario Draghi, alto funcionário da delegação londrina daquele banco entre 2002 e 2005, que já lá foi encontrar as contas gregas convenientemente maquilhadas.

Em sentido inverso, há casos de políticos que transitaram para o banco: Mario Monti passou em 2004 de comissário europeu a banqueiro do GS e depois teve ainda a audácia de voltar à política, em 2011, como primeiro-ministro italiano; ou o comissário europeu, de passaporte irlandês Peter Sutherland, depois responsável da Organização Mundial do Comércio e desde o ano passado banqueiro no GS; ou o ex-ministro da Economia alemão, Hans Friderichs, igualmente banqueiro do GS.

A visão alemã do caso Barroso não é, portanto, a de um “escândalo”, como o classifica o Governo francês. No artigo de Hans-Jürgen Schlamp em Der Spiegel, a conclusão é quase a de uma “banalidade do mal”. Citando textualmente: “Para isto não é precisa uma tosca corrupção nem uma obscura maldade em acção. Simplesmente, as pessoas entendem-se bem”.
PUB