"Efeito Crimeia"de 2014 não será possível de repetir pela Rússia, defende académico

 O Presidente da Rússia tem pouco a ganhar internamente com a crise nas relações com a Ucrânia porque o "efeito Crimeia" não pode ser repetido, mas manterá condições para permanecer no poder, afirmou à Lusa o investigador Arkady Moshes.

Lusa /

"Vladimir Putin possui uma grande flexibilidade a nível interno. As instituições estão sob controlo, a Rússia é um estado autoritário, e a sua manutenção no poder não depende muito do desfecho da atual crise", considerou Moshes, diretor do programa para a Europa de leste e Rússia do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais (FIIA), sediado em Helsínquia.

Apesar de considerar que o líder do Kremlin não pode extrair importantes proveitos políticos desta crise, mesmo que a sua estratégia seja bem-sucedida, o atual cenário é muito diverso do registado há oito anos, na sequência da "designada "revolução de Maidan" que levou ao poder um Governo "pró-ocidental" e a consequente anexação da península da Crimeia pela Rússia e o início do conflito no leste do país.

"O designado `efeito Crimeia` foi um momento de euforia que não pode ser repetido. Há oito anos, quando a Rússia anexou a Crimeia, foi uma medida que agradou à população, a maioria dos russos considerou-a justa, legítima, que a população da Crimeia queria juntar-se à Rússia. Foi popular e basicamente não teve custos. Não houve guerra, não chegaram caixões com mortos à Rússia, foi rápido", assinalou o académico, também membro do Programa de Novas Abordagens sobre Pesquisa e Segurança na Eurásia (PONARS, Eurásia).

O impacto a nível interno de novos sucessos protagonizados pela Rússia no seu envolvimento político-militar além-fronteiras também acabou por ser mitigado, assinalou, apontando o exemplo da Síria.

"A atuação russa na Síria foi muito bem-sucedida. Em relação à situação no terreno e face ao ocidente, a Rússia não permitiu que o ocidente concretizasse a sua agenda na Síria, mas no interior do país teve um efeito quase nulo na popularidade do Governo de Putin", indicou.

No entanto, Arkady Moshes adverte que a atual situação na Ucrânia pode ser "mais complicada" para o Kremlin, pelo facto de uma eventual escalada implicar um conflito em larga escala, com fortes consequências.

"Ninguém pode considerar que será uma guerra fácil. Será uma guerra. E os custos serão significativos, haverá mortos, e não será particularmente popular num país onde existem muitos `patriotas do sofá`, como os designamos. Os que gostam de ver os sucessos na televisão, mas não necessariamente enviar os seus filhos para combater".

O analista, especialista nas relações União Europeia-Rússia e nas políticas interna e externa dos países desta região e ex-repúblicas soviéticas, admite que o foco deve continuar a ser dirigido para as negociações em curso, a vários níveis e com diversos protagonistas - em particular em torno das "garantias de segurança" emitidas por Moscovo - e que poderão mesmo implicar algumas concessões à Rússia.

"Também isso não alterará em muito a popularidade do Governo, mas é qualquer coisa. Em comparação com o risco de uma escalada, é uma estratégia de saída muito mais fácil no âmbito da atual crise. Espero que seja conseguida".

No atual contexto, frisa, a opinião pública russa "não está preparada para a guerra", mas no caso de um conflito admite que Putin permanecerá no poder.

Mas a opção pela ocupação e anexação de territórios, envio de tropas terrestres para os controlar, implicaria uma situação que se prolongaria por largos anos, e um exercício particularmente arriscado.

"No passado, a Rússia errou várias vezes nos seus cálculos, nas duas revoluções ucranianas e em 2014-2015, quando pensou que metade da Ucrânia estava simplesmente à espera de ver a libertação por parte dos soldados russos ou pró-russos. Na realidade isso não aconteceu e a maioria dos soldados na linha da frente e do lado ucraniano eram falantes de russo (russófonos)", assegurou.

"Os cálculos errados aconteceram e penso que neste momento uma análise sóbria supõe que a situação pende mais para a busca de um compromisso que para uma escalada. Caso se inicie será uma grande guerra, com baixas, e nesse caso não é possível analisar que impacto teria".

Na sua perspetiva, a perspetiva de uma invasão militar da Ucrânia - que tem frequentemente sido admitida no ocidente, em particular pelos Estados Unidos - "não é inevitável".

Numa referência ao "plano original" da liderança russa, Arkady Moshes, considera que se destinava essencialmente "a demonstrar a prontidão para impor pressão militar, mas não necessariamente uma invasão e que seria demasiado arriscado", apesar de considerar que ninguém pode excluir essa hipótese.

"Mas tenho verificado nos últimos meses que o desejo da Rússia consiste em prosseguir as negociações. Haverá encontros na base do formato da Normandia a nível de conselheiros [componente política do processo de paz que permanece bloqueado e com envolvimento da Rússia, Ucrânia, Alemanha e França], trocas de cartas entre a Rússia e os países europeus e NATO, visitas a Moscovo, algumas mais bem-sucedidas que outras, e que indicam a existência de uma vontade séria para prosseguir no caminho da diplomacia. Não penso que a invasão seja inevitável".

Moshes recordou ainda que em 2014 e 2015 a Ucrânia era um "Estado neutral", não alinhado militarmente, mas que se confrontou com a perda de território e um conflito no leste.

Neste contexto, considera que as posteriores emendas à Constituição ucraniana, com a consequente aproximação às estruturas euro-atlânticas, foi o resultado de uma experiência "muito negativa" como não-alinhado.

"Tinha procurado ser membro da NATO antes, procura agora o mesmo, mas em 2014 não procurava essa adesão. E iniciou-se a crise... Oferecer agora à Ucrânia o mesmo do que quando perdeu os seus territórios será impraticável, condenado ao fracasso, e é compreensível", num mundo "totalmente diferente e num sistema de segurança europeia totalmente diverso" do existente após a Segunda Guerra Mundial.

Uma situação que comparou à existente no seu país, e na vizinha Suécia, que após os tratados de Ialta e Potsdam viram negado o direito de optar a que aliança pertencer.

"Aceitar ou não um país na NATO é uma questão diferente, porque o caso tem de ser analisado. Mas negar a um país o direito de escolher a que aliança pertencer e pedir essa adesão é totalmente obsoleto e inaceitável no século XXI", concluiu. 

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