Egipto. Mais de 500 pessoas internadas por picadas de escorpiões

Conhecido pelas pragas bíblicas, o Egito parece estar a enfrentar de novo algum castigo divino. No fim de semana, parte do território egípcio foi assolado por uma rara tempestade. Agora, como consequência das inundações provocadas pelas fortes chuvas dos últimos dias, a cidade de Assuã, no sul do país, está a enfrentar uma praga de escorpiões. Já foram hospitalizadas mais de 500 pessoas devido à picada deste animal invertebrado e venenoso.

Inês Moreira Santos - RTP /
Reuters

Na sexta-feira, a província de Assuã foi atingida por uma rara tempestade: chuva forte, granizo e trovões. O mau tempo, que se prolongou durante o fim de semana, provocou a morte de três pessoas e levou as autoridades a suspenderem as aulas no início da semana. A tempestade destruiu ainda, segundo as autoridades locais, 103 casas.

Mas, depois das enchentes, o pior ainda estava por vir. Com as chuvas torrenciais e as tempestades de areia, muitos animais como cobras e escorpiões viram-se forçados a abandonar as suas tocas no deserto e tentaram refugiar-se nas terras povoadas mais próximas, avança a imprensa local.

Com enormes desertos, o Egito é normalmente o habitat perfeito para os escorpiões, estando identificadas 24 espécies ao todo no território, que vivem em tocas no deserto ou debaixo de rochas e podem sobreviver semanas a fio sem comida ou água.

Com o dilúvio dos últimos dias, estes invertebrados conhecidos pelo seu veneno fatal invadiram as ruas de Assuã e entraram nas habitações de centenas de pessoas, através das frinchas das paredes dos edifícios antigos ou das portas.

“As inundações nas aldeias de Assuã forçaram os escorpiões a saírem dos seus esconderijos e já picaram algumas pessoas”, lamentou nas redes sociais um residente da cidade, a maior do sul do Egito, citado pelo New York Times. "Ó Deus, protege a terra”.

A população egípcia está habituada a ver estes animais a circular pelas ruas, nas cidades e povoações perto dos desertos, durante o verão. E todos os anos há alguns incidentes devido à picada de escorpiões.

“Estamos habituados a isto”, disse Islam Mohamed, que pilota um dos muitos pequenos barcos que navegam pelo Nilo em torno de Assuã, transportando pessoas de um lugar para outro. “Nós normalmente tentamos atingi-los com qualquer coisa quando os vemos”.

No entanto, só na noite de sexta-feira foram picadas pelo menos 503 pessoas, o que segundo as autoridades é um acontecimento inédito.
Centenas de pessoas tratadas com “antídoto”
Um responsável das autoridades de saúde egípcias referiu à agência Al-Ahram que foram fornecidas doses extra de antiveneno de escorpião a centros médicos e hospitais em aldeias próximas do deserto e de áreas montanhosas. Além disso, os médicos que estavam a vacinar pessoas contra a Covid-19 foram destacados para tratarem as pessoas que foram picadas pelos escorpiões.

Deram entrada em hospitais e centros de saúde centenas de pessoas, mas após o tratamento com antiveneno tiveram, praticamente todas, alta. O ministro da Saúde, Khalid Abdel-Ghafar, confirmou entretanto que não há registo de nenhuma morte devido às picadas dos escorpiões.

Os profissionais de saúde foram todos chamados e os hospitais ficaram em alerta máximo, informou ainda o Ministério da Saúde, que garantiu que havia doses suficientes de antiveneno.

As pessoas que foram picadas descreveram sintomas que incluem dor forte, febre, suor, vómitos, diarreia, tremores musculares e espasmos.

Além do transtorno causado pela praga de escorpiões, as inundações deixaram muitos desalojados e uma situação de calamidade em algumas regiões da cidade. Os meios de comunicação locais começaram, entretanto, a realizar uma campanha para a recolha de mantimentos para ajudar as pessoas mais afetadas.

As montanhas de Assuã são o lar do escorpião árabe de cauda gorda, ou Androctonus crassicauda, que se traduz do grego por “assassino do homem”. São considerados um dos escorpiões mais perigosos do mundo, com um veneno altamente tóxico que pode levar um adulto à morte uma hora depois da picada. O escorpião árabe é responsável por várias mortes humanas por ano.

As autoridades egípcias estão também a pedir às pessoas para ficarem em casa e evitarem zonas com muitas árvores.

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