El Niño com impactos humanitários extremos em 2016

O fenómeno climático contribuiu para que 2015 seja considerado o ano mais quente de sempre. Mas os efeitos adversos vão continuar a fazer-se sentir ainda no próximo ano, estimam várias organizações de apoio humanitário. Os especialistas consideram que o impacto do El Niño pode piorar situações de fome e doença em algumas zonas do globo. A NASA vem agora dizer que o fenómeno deste ano poderá trazer consequências tão graves como as que foram registadas em 1998.

Andreia Martins - RTP /
Jorge Adorno - Reuters

Dos dois lados do Atlântico são esperados efeitos diferentes de um fenómeno sempre imprevisível que causa distúrbios aos padrões naturais do clima em todo o mundo. Em determinadas áreas são esperadas secas extremas. Noutras, várias inundações como as que se registaram nos últimos dias no hemisfério sul.
NASA deixa o alerta
Entretanto, a NASA estima que este El Niño poderá ser semlhante ao que foi registado no ano de 1998. Após a análise das mais recentes imagens do Oceano Pacífico recolhidas por satélites, a agência espacial norte-americana refere que o estado atual dos mares não oferece para já sinais de alarme, mas que existem "semelhanças impressionantes" com as imagens recolhidas em dezembro de 1997.
O El Niño é um fenómeno recorrente que pode acontecer em intervalos de dois a sete anos. Nos registos até agora obtidos, pode durar até um ano. Resulta de um sobreaquecimento das águas perto da costa do Perú e na redução de ventos alísios no Oceano Pacífico, ao longo da linha do Equador.
O El Niño de 1998 foi o mais forte desde que há registo, ou seja, desde 1950. O fenómeno é estudado por cientistas e leigos desde o século XVII, mas só na década de 90 do século passado começou a ser referido com maior frequência e atenção.

Estima-se que o fenómeno ocorrido durante o Inverno de 1997 tenha causado a morte a mais de 2100 pessoas e um prejuízo de 33 mil milhões de dólares americanos devido à destruição de propriedades.

As inundações registadas após chuvas fortes em quatro países da América do Sul, incluindo o Brasil, fizeram pelo menos seis mortos e obrigaram à evacuação de 160 mil pessoas, a grande maioria no Paraguai (só neste país, onde foi declarado o estado de emergência, cerca de 130 mil pessoas foram alojadas em abrigos até ao passado sábado). No Brasil, o estado do Rio Grande do Sul foi o mais afetado.

Estes são os primeiros sinais daquele que deverá ser o El Niño com maior impacto desde que há registos do fenómeno. Em África, por exemplo, espera-se a escassez de alimentos já a partir de fevereiro. Nas Caraíbas, América Central e do Sul, espera-se, pelo contrário, a ocorrência de chuvas fortes como as que afetaram a região na última semana.

Adam Scaife, cientista especializado em meteorologia, atribui alguns dos eventos extremos da última semana à ocorrência do El Niño, nomeadamente as cheias no Reino Unido, as temperaturas altas registadas na costa Este dos Estados Unidos, os rios inundados no estado do Missouri e ainda os incêndios florestais na Austrália registados na semana passada.

Segundo o relatório divulgado em novembro pela Organização Mundial do Clima, o El Niño iniciado este ano foi um dos elementos que mais contribuiu para que 2015 seja considerado um dos anos mais quentes de sempre, em conjunto com o aquecimento global induzido pela ação humana.

Um estudo divulgado pela revista científica Nature, em janeiro de 2014, apontava para o efeito de estufa como uma das principais causas para a maior frequência de fenómenos extremos causados pelo El Niño. Os investigadores estimavam então que o número de ocorrências poderia mesmo duplicar.
A crise humanitária de 2016?
As organizações de apoio humanitário temem que este El Niño traga consequências drásticas para várias populações e estimam que pelo menos 31 milhões de pessoas poderão ver a sua alimentação diária em risco devido à seca extrema. A Etiópia deverá ser o país mais afetado.

Nick Klingaman, especialista no fenómeno, refere em declarações à BBC que este El Niño poderá ser o mais forte desde que há registo. Uma opinião que é partilhada pela Organização Mundial do Clima que estima uma subida de temperatura na superfície do Oceano Pacífico, com mais 2ºC que o habitual.

A Oxfam, uma confederação de várias organizações de combate à pobreza, chama à atenção para as consequências drásticas que poderão chegar com este El Niño, sobretudo no corno de África.

"Os efeitos de um super El Niño deverão colocar o sistema internacional de ajuda humanitária sob pressão sem precedentes em 2016, sistemas que já se encontram em esforço devido aos conflitos na Síria, Sudão do Sul, Iémen, e outros locais", lê-se num comunicado publicado esta quarta-feira no site da organização.

A organização contra a pobreza acrescenta que a alteração no sistema climático "poderá afetar dezenas de milhões de pessoas em situação de fome, escassez de água e doenças".

Jane Cocking, uma das responsáveis pelos planos de ajuda humanitária, avisa que já há povoações a sofrerem diretamente os efeitos desta alteração do clima: "Milhões de pessoas em países como a Etiópia, Haiti e Papua Nova Guiné já estão a sentir os efeitos das secas e fracasso das colheitas. Precisamos de ajuda urgente nessas áreas de modo a evitar a emergência de novas crises humanitárias no sul de África e América Latina", avisa.

Mas quem estuda os impactos do El Niño refere que os efeitos não serão apenas sentidos nos países em desenvolvimento. No mundo desenvolvido os efeitos vão refletir-se sobretudo na subida do preço dos alimentos, com os especialistas a recordarem eventos passados em que o fenómeno climático levou à subida de cinco a dez por cento de bens alimentares como o café, arroz, açúcar e cacau.
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