Eleição de Angela Merkel como chanceler no Parlamento alemão
Angela Merkel deverá ser eleita chanceler da Alemanha na terça-feira, no Bundestag (Parlamento Federal), 65 dias após as eleições gerais antecipadas, para chefiar um governo de coligação de democratas-cristãos e social-democratas.
Dirigentes da CDU/CSU e do SPD já admitiram que Angela Merkel não consiga fazer no Bundestag o pleno dos 448 votos dos partidos da coligação, mas não parece haver dúvidas de que obterá o mínimo necessário de 308 votos para ter a maioria absoluta.
"A maioria será bastante clara", vaticinou o futuro vice- chanceler e ex-presidente do SPD, Franz Muentefering, afastando a hipótese de uma rebelião da bancada social-democrata contra Merkel.
Os três partidos da oposição, Liberais, Verdes e neocomunistas do Linkspartei-PDS, em conjunto, têm 166 do total de 614 deputados no Bundestag, o que não basta para impedir que a presidente da CDU se torne o oitavo chanceler da Alemanha Federal.
Na votação no Parlamento para o chanceler federal que presidiu anteriormente à única coligação entre democratas-cristãos e social- democratas, em 1966, Kurt Keorg Kiesinger, somou menos 104 votos do que o total dos deputados dos dois partidos.
Em contrapartida, na eleição de Gerhard Schroeder para chanceler de um governo SPD/Verdes, em 1998, o candidato recolheu, pela primeira vez, mais votos - pelo menos seis - do que a soma dos representantes das bancadas do governo.
A Constituição Alemã prevê a hipótese de haver uma segunda volta, e até uma terceira em que já é apenas necessária uma maioria relativa, caso um candidato a chanceler não consiga obter a maioria absoluta na primeira votação, mas até agora nunca foi necessário fazer mais do que um escrutínio.
No entanto, houve alguns resultados escassos, como a eleição de Konrad Adenauer, em 1949, apenas com mais um voto, o seu próprio voto, do que era necessário.
Em 1976, Helmut Schmidt, do SPD, foi eleito chanceler apenas com uma maioria de dois votos, e o mesmo sucedeu com Helmut Kohl, da CDU, na sua quarta eleição, em 1994.
Angela Merkel, a primeira mulher na história da Alemanha a candidatar-se a chanceler federal, venceu as legislativas antecipadas, mas apenas com mais um ponto percentual e mais quatro deputados do que o chanceler cessante, Gerhard Schroeder.
O governo SPD/Verdes perdeu a maioria absoluta, mas a CDU/CSU e Merkel também não conseguiram maioria no Bundestag para formar novo executivo com os Liberais, com os quais tinham feito um pré-acordo de governo.
Depois de algumas hesitações, sobretudo porque Schroeder se recusou, inicialmente, a aceitar a vitória da sua rival conservadora, CDU/CSU e SPD iniciaram então negociações para um governo de coligação, concluídas com êxito a 11 de Novembro.
O acordo, que inclui cortes sociais e aumentos de impostos, mas também um ambicioso programa de investimentos, foi um compromisso entre as propostas da CDU/CSU, que advoga uma maior liberalização da economia, e as premissas sociais do SPD, sem prejuízo do prosseguimento da reforma do Estado-providência, política já iniciada na última fase do consulado de Gerhard Schroeder.
O impasse verificado nas eleições obrigou ainda Angela Merkel a aceitar um governo formado por sete ministros democratas-cristãos e oito do SPD, incluindo o vice-chanceler Franz Muentefering, o ministro das Finanças, Peer Steinbrueck, e o futuro chefe da diplomacia alemã, Frank-Walter Steinmeier.
Angela Merkel, 52 anos, doutorada em Física e oriunda da Alemanha de Leste (ex-RDA), embora tenha nascido no ocidente, em Hamburgo, foi ministra com várias pastas dos governos de Helmut Kohl, o seu mentor político, na década de noventa, e ascendeu à presidência da CDU em 2001, no auge de um escândalo de donativos ilícitos que abalou o grande partido democrata-cristã.
Nas legislativas de 2002, o candidato democrata-cristão a chanceler ainda foi Edmund Stoiber, presidente da CSU da Baviera, mas em 2005 a escolha de Merkel, que reorganizou a CDU e conduziu o partido a 11 vitórias consecutivas em eleições regionais, tornou-se incontornável.
Logo no dia a seguir à sua eleição e à cerimónia de tomada de posse, Angela Merkel fará a sua primeira visita oficial a Paris, para sublinhar a importância da aliança tradicional entre a Alemanha e a França.
Merkel será recebida no Palácio do Eliseu pelo presidente Jacques Chirac, com quem almoçará, seguindo à tarde para Bruxelas.
Na capital belga, a nova chanceler alemã tem encontros marcados com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e com o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer.
No dia seguinte, quinta-feira, Angela Merkel estará em Londres para se reunir com o primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Os contactos internacionais de Angela Merkel prosseguirão com uma visita à Polónia, já agendada para 02 de Dezembro.
Até ao fim do ano, a chanceler democrata-cristã deverá visitar também Washington, para tentar restabelecer o clima de confiança entre os Estados Unidos e a Alemanha, afectado pela recusa de Schroeder de apoiar George W. Bush e o seu aliado tradicional na Guerra do Iraque.
Da agenda de Angela Merkel deverá fazer também parte uma viagem a Moscovo até ao fim deste ano, para reafirmar junto do presidente russo, Vladimir Putin, a importância da parceria estratégica entre a Alemanha e a Rússia.