Caso Flávio Bolsonaro vença as eleições, as relações bilaterais com Lisboa podem sofrer um abalo diplomático inédito, espelhando a postura ideológica adotada durante a presidência do seu pai, Jair Bolsonaro. Segundo o investigador Pedro Castelo Branco, o governo brasileiro tenderia a desvalorizar as relações institucionais com o atual executivo português para privilegiar o alinhamento com a direita radical.
“Uma diplomacia do governo Flávio Bolsonaro seria muito mais ideológica, em que as parcerias e alianças seriam com parceiros, partidos e governos alinhados. No caso de Portugal, a aliança de Flávio Bolsonaro certamente seria muito maior com o Chega, que não ocupa agora o poder, mas é a segunda força política. Seria talvez uma maior aproximação e um investimento no Chega para ganhar as próximas eleições”, antevê Pedro Castelo Branco.
Em contrapartida, uma eventual reeleição de Lula da Silva manteria a tradicional doutrina do Itamaraty assente no multilateralismo e no diálogo universal entre governos, independentemente das cores partidárias no poder, realça o cientista político.
O clã Bolsonaro e a Casa Branca: lobby, tarifas e a pressão de Washington
O clima eleitoral é atravessado por um nível de ingerência externa sem paralelo na história recente do país, impulsionado pela articulação direta da família Bolsonaro com a Administração de Donald Trump. As relações entre Brasília e Washington entraram em rota de colisão após Washington converter instrumentos de política económica e diplomática em armas de pressão política explícita.
Num cenário marcado por tarifas punitivas ao Brasil, houve sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes (relator do processo que condenou Jair Bolsonaro a prisão) e a revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos.
A tensão ganhou contornos críticos após a fuga de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), enviado ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Planalto, que aponta o risco real de tentativas de intervenção norte-americana no escrutínio.
Nos bastidores dessa pressão tem atuado Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato à presidência, que viajou para os Estados Unidos no início de 2025 e lá permaneceu em autoexílio sem regressar ao Brasil, o que desencadeou uma sucessão de desfechos institucionais e judiciais ao longo dos meses seguintes.
Em meados de 2025 acabou por perder o mandato de deputado federal por excesso de faltas parlamentares, foi demitido em definitivo do cargo de escrivão da Polícia Federal por abandono de funções e, já no primeiro semestre de 2026, viu o Supremo Tribunal Federal condená-lo a quatro anos e dois meses de prisão por coação na sequência das manobras de pressão internacional articuladas em Washington para tentar travar o julgamento do pai.
A ida do próprio candidato presidencial, Flávio Bolsonaro, em maio, a Washington e a sua passagem pelos círculos de poder da Casa Branca geraram forte controvérsia, sendo interpretadas pela diplomacia brasileira como um endosso externo e uma tentativa de submeter o processo eleitoral brasileiro aos interesses da liderança norte-americana.
"O Brasil não cabe no quintal de ninguém"
A fratura externa tornou-se ainda mais explícita no palco internacional este mês de setembro com a criação do Escudo das Américas, uma aliança contra o narcotráfico promovida pela Casa Branca que reúne 15 países e da qual o Brasil de Lula e o México ficaram deliberadamente de fora. Flávio Bolsonaro, por sua vez, já garantiu que assinará a adesão imediata logo em janeiro caso chegue à Presidência.
A criação desta aliança surgiu menos de quatro meses depois da decisão formal de Washington classificar as duas maiores fações criminosas do Brasil — o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — como organizações terroristas estrangeiras. A medida foi tomada dois dias depois da visita de Flávio a Trump e abriu mais uma linha de rutura entre Brasília e os Washington.
Lula da Silva recusou a tipificação por considerar que serve de pretexto para interferências e extraterritorialidade jurídica, sustentando que esses grupos de crime organizado não praticam o terrorismo de que Trump fala, “o terrorismo de estado”, mas sim um “outro tipo de terrorismo”, voltado para a opressão e a violência quotidiana contra famílias e trabalhadores nas comunidades, devendo ser enfrentados sob a soberania da lei brasileira. Em sentido inverso, Flávio Bolsonaro alinhou-se por completo a Trump, defendendo o enquadramento internacional como narcoterroristas e prometendo subordinar a política de segurança do país à estratégia de Washington logo no início do mandato, se chegar a presidente, declarando PCC e CV como grupos terroristas (algo que carece de uma alteração legislativa).
Na abertura da Assembleia-Geral da ONU, no dia 22 de setembro, em Nova Iorque, a diplomacia brasileira tentou, sem sucesso, uma reunião entre Lula e Trump. No seu discurso, o presidente brasileiro deixou um recado contundente sobre a defesa da soberania e a rejeição a um estatuto colonial:
“Na América Latina e no Caribe, a escolha é entre soberania e subalternidade (...) o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Para Pedro Castelo Branco, as movimentações de Washington atualizam de forma agressiva a Doutrina Monroe (“a América para os americanos”) sob uma ótica predatória:
- Controlo de recursos estratégicos - petróleo, terras raras e a bacia amazónica voltaram ao radar de segurança nacional dos EUA, na esteira das movimentações que já atingiram a Venezuela;
- Alinhamento automático vs. Não-alinhamento - Flávio Bolsonaro acolhe subordinação total aos objetivos estratégicos da Casa Branca, enquanto Lula tenta blindar o espaço regional contra uma nova dinâmica de recolonização e guerra económica.
Com a polarização interna a atingir o auge e as sondagens a indicarem um cenário de empate técnico para a segunda volta, o desfecho eleitoral em Brasília ditará não apenas o rumo institucional do país, mas se o eixo atlântico e sul-americano viverá uma era de multilateralismo pragmático ou de tutela ideológica direta de Washington.
Foto: Adriano Machado - Reuters