Embaixador moçambicano no Vaticano diz que falta "cultura de democracia" em Moçambique
O embaixador moçambicano no Vaticano e antigo dirigente da Renamo, principal partido da oposição, Raul Domingos, apontou hoje a falta de uma "cultura de democracia" como fator de guerras no país, defendendo a inclusão e reconciliação para uma "paz efetiva".
É "uma cultura de democracia que nos falta e que cria sempre conflitos", afirmou Domingos, falando por videoconferência, a partir do Vaticano, em Roma, durante uma conferência sobre a paz e reconciliação, realizada hoje em Maputo, por ocasião do lançamento da revista "Agora".
Aquele político, que foi negociador-chefe da delegação da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) nas conversações com o Governo para o Acordo Geral de Paz de 1992, afirmou que o país tem falhado na reconciliação nacional, referindo-se às acusações no parlamento entre os deputados sobre as culpas da guerra civil que durou 16 anos.
"Na Assembleia da República, há momentos em que se perde o foco, deixa-se de discutir a agenda, para discutir quem matou [durante a guerra civil], quem destrui [bens], isso é falta de cultura de reconciliação, de diálogo e de aceitação mútua", destacou.
Raul Domingos defendeu o imperativo da inclusão política, social, económica e cultural entre os moçambicanos, enfatizando a sua nomeação "inédita", em agosto de 2022, no cargo de embaixador como um "passo importante e significativo para o caminho da reconciliação.
"A reconciliação e o diálogo para a paz deviam ser parte da nossa cultura", e estimuladas nas "escolas e igrejas", frisou.
Depois da nomeação de Raul Domingos para a função de embaixador no Vaticano, o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, indicou, em janeiro, António Namburete, quadro sénior da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), embaixador na Argélia, tornando-se na segunda figura da oposição a ocupar aquele posto diplomático na história de Moçambique.
Dinis Sengulane, bispo emérito da Igreja Anglicana em Moçambique, afirmou, na conferência sobre paz e reconciliação promovida hoje, que o país não se deve limitar a desarmar forças beligerantes, mas devem ser "desarmadas as mentes, o vocabulário da guerra e os corações".
Sengulane defendeu uma maior inclusão das mulheres nos processos de paz em Moçambique, assinalando que partiu de uma mulher a iniciativa do projeto "Armas por Enxadas", que permitiu que fossem recolhidas cerca de um milhão de armas que foram escondidas durante a guerra civil que terminou em 1992.
"Nos currículos escolares a paz deve ser uma parte muito importante na educação", enfatizou Sengulane, um dos mais conhecidos líderes religiosos em Moçambique.
Depois da guerra de 16 anos, que terminou com o Acordo Geral de Paz, as tropas governamentais envolveram-se em confrontos com a guerrilha da Renamo, na sequência da contestação de resultados eleitorais pelo principal partido da oposição.
Em 06 de agosto de 2019, o Governo e a Renamo assinaram o Acordo de Paz e Reconciliação Nacional que permitiu o Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR), que abrange 5.221 antigos guerrilheiros do principal partido da oposição.