Encerramento do Estreito de Ormuz ameaça abastecimento de medicamentos na Europa

Encerramento do Estreito de Ormuz ameaça abastecimento de medicamentos na Europa

A indústria farmacêutica depende fortemente das rotas logísticas através do Médio Oriente. Até ao momento, não há registo de faltas críticas de medicamentos mas a situação pode complicar-se se o bloqueio persistir.

Um Olhar Europeu com RTVE /
Jorge Guerrero / AFP



O encerramento do Estreito de Ormuz não constitui apenas uma ameaça para o aprovisionamento energético mundial, tem também um impacto profundo na indústria farmacêutica, altamente dependente das rotas logísticas que atravessam o Médio Oriente. 

A esta preocupação junta-se outro fator fundamental: o funcionamento dos grandes aeroportos do Golfo Pérsico, como o Dubai, que se tornaram plataformas essenciais para o transporte de medicamentos, especialmente entre a Ásia e a Europa. 

Em Espanha, as autoridades sanitárias e a indústria farmacêutica excluíram, para já, a possibilidade de escassez, mas alertam para o facto de a situação poder complicar-se se o bloqueio se mantiver, o que poderá causar atrasos, custos de transporte mais elevados e custos acrescidos.

A guerra fez subir o preço do barril de petróleo para níveis que não se registavam há anos, uma pressão que se estende ao resto da economia. Neste contexto, o setor farmacêutico está a sofrer um golpe particularmente duro, uma vez que o aumento das matérias-primas e dos custos de transporte é agravado pela rigidez de um sistema de preços regulados que impede que estes aumentos sejam transferidos para o produto final. 

Além disso, a guerra está a reduzir a capacidade de carga na região, o que tem impacto num setor em que predominam as rotas marítimas, mas que também depende fortemente do transporte aéreo - os produtos farmacêuticos representam 4% do volume total de mercadorias transportadas por via aérea em todo o mundo.

"Até à data, não se registou qualquer escassez crítica; no entanto, as empresas estão a reportar diferentes níveis de perturbações, principalmente relacionadas com interrupções no transporte aéreo e nas rotas marítimas, bem como com o aumento dos custos", disseram fontes da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos de Saúde (AEMPS) à RTVE Noticias, embora tenham sublinhado que "a situação é muito dinâmica e o risco de escassez pode aumentar se as perturbações persistirem". 

Por esta razão, embora a indústria não preveja um impacto significativo em termos de abastecimento, para cobrir eventuais imprevistos, as diferentes empresas estão a avaliar rotas alternativas e constituíram stocks para prevenir eventuais atrasos.

A AEMPS sublinha que, no caso de todos os medicamentos comercializados na União Europeia, o laboratório que os produz é obrigado a garantir o fornecimento e, se não o puder fazer, deve ser notificado com antecedência suficiente para que se possam procurar alternativas. 

Como medida preventiva, a agência intensificou o acompanhamento da cadeia de abastecimento para evitar situações de desabastecimento e está em contacto permanente com as duas principais associações patronais da indústria farmacêutica em Espanha: a Farmaindustria e a Associação Espanhola de Medicamentos Genéricos (AESEG).
A vulnerabilidade das substâncias ativas

Um dos principais fatores de vulnerabilidade é a forte dependência da Europa em relação à Ásia para a produção de substâncias ativas, a componente terapêutica dos produtos farmacêuticos.

Atualmente, até 80% dos princípios ativos utilizados na Europa e quase 40% dos medicamentos vendidos no continente provêm dos dois gigantes asiáticos: a China e a Índia. 

Esta concentração da cadeia de abastecimento comporta riscos significativos. Por um lado, qualquer perturbação, como a atual, pode provocar a escassez de medicamentos essenciais no mercado europeu. Por outro lado, limita a capacidade de reação do sistema de saúde a qualquer crise, ao depender de fornecedores externos sobre os quais a Europa tem um controlo limitado.

A nível europeu, a vigilância da oferta é articulada através do Grupo de Trabalho do Ponto Único de Contacto (SPOC) sobre rupturas de stock, coordenado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), que está a monitorizar o impacto do conflito no Irão com o objetivo de definir medidas de mitigação, se necessário. 

A entidade reguladora europeia também se mostra tranquila em relação à situação atual, referindo que "até à data, não há relatos de faltas críticas de medicamentos".
Impacto reduzido nos medicamentos genéricos
Os medicamentos genéricos ocupam um lugar estratégico nos sistemas de saúde, mas esta posição de relevância contrasta com a fragilidade das cadeias de abastecimento. 

90% dos medicamentos designados como críticos pela Agência Europeia de Medicamentos são genéricos e representam também quase metade das embalagens de prescrição dispensadas nas farmácias espanholas. No entanto, a cadeia de abastecimento é particularmente sensível a perturbações globais, uma vez que grande parte dos princípios ativos são fabricados na Ásia e chegam à Europa por via marítima. No entanto, estes medicamentos têm uma certa margem de proteção devido aos stocks. Além disso, as empresas trabalham frequentemente com margens de segurança de vários meses, o que permite absorver atrasos pontuais.

Do lado da Associação Espanhola de Medicamentos Genéricos (AESEG), a secretária-geral, María Elena Casaus, disse à RTVE Noticias que "de momento, a Espanha não tem problemas de abastecimento relacionados com o conflito no Médio Oriente", acrescentando que as empresas de medicamentos genéricos que operam no país "mantêm a capacidade de fabrico e abastecimento".

Esta estabilidade, acrescenta, deve-se ao facto de as empresas não terem fábricas na zona afetada e disporem de stocks de segurança de cerca de seis meses. No entanto, alerta para uma deterioração progressiva do contexto logístico que está a conduzir a uma "tensão crescente na cadeia de abastecimento global" e concorda que "se o conflito se prolongar, poderão surgir tensões em algumas categorias de medicamentos". Salienta ainda que o aumento do custo dos transportes e da energia é uma pressão muito importante para o setor dos medicamentos genéricos, "que opera com preços regulados e margens muito apertadas", pelo que "não tem capacidade para repercutir estes custos no preço final do medicamento"

Como descreve, o desvio de rotas marítimas e aéreas, juntamente com a queda do tráfego através de Ormuz, está a gerar múltiplos efeitos, tais como atrasos na chegada de ingredientes activos e produtos acabados, uma saturação de rotas alternativas e o facto de os custos logísticos terem disparado, especialmente no transporte aéreo. 

Casaus explica que esta situação está a afetar principalmente os produtos considerados "sensíveis". "Os dados mais recentes da Medicines for Europe indicam que quase metade das empresas europeias já estão a reportar perturbações e muitas antecipam riscos crescentes se a situação se mantiver, especialmente para produtos sensíveis como os injetáveis esterilizados, os medicamentos termolábeis (especialmente sensíveis a mudanças de temperatura) e substâncias ativas provenientes da Ásia", afirma a secretária-geral da AESEG.

O maior risco imediato é para os medicamentos que requerem condições especiais de armazenamento. As vacinas, a insulina, os produtos biológicos e as terapias contra o cancro requerem a chamada cadeia de frio, o que significa que têm um prazo de validade muito curto e são particularmente sensíveis a atrasos, aumentando a vulnerabilidade a problemas de continuidade logística.Garantia de abastecimento no curto prazo
Por sua vez, Farmaindustria - a Associação Nacional de Empresas da Indústria Farmacêutica em Espanha - também observa que a produção permanece estável. "As mais de 180 unidades de produção mantidas pelo setor farmacêutico no nosso país continuam a trabalhar normalmente para garantir o fornecimento de medicamentos às nossas farmácias e hospitais", disseram fontes da associação à RTVE Noticias.

No entanto, alerta que se o conflito no Médio Oriente se prolongar no tempo, a situação "pode ter um grande impacto na indústria farmacêutica, como já aconteceu com o conflito na Ucrânia". Nesse caso, o problema viria principalmente do aumento dos custos energéticos e logísticos, que em 2022 já ultrapassaram os 900 milhões de euros para o setor em Espanha, como referem.

Embora o abastecimento esteja assegurado a curto prazo, o cenário a médio prazo apresenta incertezas, acrescentam as mesmas fontes da indústria. 

A combinação da dependência estrutural da Ásia, das tensões logísticas e do aumento dos custos poderá traduzir-se em efeitos negativos, como atrasos na distribuição, custos de transporte mais elevados, maior pressão sobre as margens industriais e maior dependência externa.

Para já, o sistema está a aguentar-se. Mas a estabilidade depende de um fator-chave: a duração do conflito e o encerramento de Ormuz, bem como o impacto da guerra nos principais aeroportos do Golfo Pérsico.

Samuel A. Pilar / 15 abril 2026 06:06 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa
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