Encomendas chinesas calam críticas sobre direitos humanos

A chanceler alemã tem sido, para os padrões da diplomacia, uma das vozes mais insistentes sobre as violações de direitos humanos na China. Agora visita Pequim, mas a prioridade é conseguir encomendas chinesas de 17 mil milhões de euros.

RTP /
Angela Merkel com o primeiro ministro chinês, Li Keqiang Muneyoshi Someya, Reuters

A responsável da política da Amnistia Internacional (AI) para a China, Sophie Richardson, admite, em entrevista a Der Spiegel, no início da oitava viagem de Angela Merkel à China, que a chanceler alemã "tem sido uma das poucas personalidades políticas ocidentais a empenhar-se neste tema".

Mas, acrescenta, "chama-nos a atenção que nos últimos dois anos ela se tem tornado muito menos audível. E deveria voltar ao seu tom inequivoco, cortês mas crítico. O povo chinês espera isso dela. E o Governo chinês de modo algum entra em pânico quando se fala claramente sobre os direitos humanos".

Richardson, por seu lado, chama a atenção para o agravamento "dramático" da situação dos direitos humanos na China, em particular com a campanha de intimidação contra os próprios advogados que costumam representar em tribunal os casos de direitos humanos.

Segundo a AI, foram desde Julho detidos ou submetidos a interrogatório 300 advogados de casos desta índole. Estes e estas juristas, diz Richardson, "são um grupo pequenoda sociedade civil, mas extremamente importante para o futuro da China".

Confrontada com a argumentação britânica, segundo a qual é mais benéfica para a defesa dos direitos humanos uma diplomacia silenciosa do que uma "política de megafone", a activista da Amnistia considera tratar-se de uma atitude, patente durante a recentíssima visita do presidente chinês Xi Jinping a Londres, que "não só contraria a política de direitos humanos da União Europeia, como prejudica a própria Grã-Bretanha".

E explica-se: "Aparentemente acredita-se em Londres que é bom para o comércio não se ser muito rigoroso com os direitos humanos. Toda a experiência mostra que, no trato com a China, isso não é certo. Quem se mostra fraco sobre um tema, vai tornar-se perante a China fraco noutros temas, já para não falar da vergonha que isso atrai sobre a Inglaterra".

O facto, contudo, é que a maioria dos políticos ocidentais parece descrente desta ligação estabelecida por Richardson entre a firmeza em matéria de direitos humanos e o êxito na negociação de contratos. A própria Angela Merkel, muito menos vocal nos últimos dois anos, visita agora a China com uma agenda em outros valores se levantam mais alto que o das liberdades cívicas.

Segundo notícia publicada em Die Zeit, os contratos que leva para assinar ascendem a 17.000 milhões de euros. A parte de leão diz respeito a uma encomenda que a China vai fazer de cem aviões Airbus tipo A320 e outros trinta tipo A330, tudo no valor de 15.500 milhões.

Segundo um representante da Airbus, citado em Der Spiegel, trata-se de "um dos maiores contratos que a China alguma vez assinou".

Outros contratos dizem respeito a cooperações estratégicas de firmas do sector energético e outros ainda à cooperação entre a firma alemã de produção de máquinas-ferramentas Voith e a "Sociedade das Três Gargantas" - que construiu a monumental barragem do rio Yangtsé e em Portugal adquiriu, como é sabido, a EDP.

PUB