Epidemia de Marburg começou há seis meses e é a pior a nível mundial

A epidemia de febre hemorrágica em Angola completa hoje seis meses desde que foi registado o primeiro caso desta doença provocada pelo vírus de Marburg, que já matou mais de duas centenas de angolanos.

Agência LUSA /
Vírus de Marburg responsável pela febre hemorrágica DR

Apesar de aparentemente permanecer confinada à província do Uíge, no Norte de Angola, a epidemia ainda parece longe do fim e continua a ser motivo de preocupação para a generalidade da população.

O primeiro caso de febre hemorrágica provocada pelo vírus de Marburg em Angola ocorreu a 13 de Outubro de 2004, mas, nessa altura, ainda ninguém adivinhava as dimensões que iria atingir, sendo já considerada a maior epidemia desta doença alguma vez registada no mundo.

O facto dos sintomas iniciais serem muito parecidos com os da malária, doença muito frequente em Angola, fez com que os profissionais de saúde não suspeitassem da gravidade do problema nos primeiros meses.

Isso também explica que a epidemia só tenha vindo a público no início de Março, na sequência da morte de duas enfermeiras do Hospital Provincial do Uíge, o que gerou uma onda de preocupação entre a população angolana.

A origem da doença, causada pelo vírus de Marburg, apenas foi cientificamente identificada a 22 de Março, na sequência de análises realizadas em laboratórios internacionais.

De imediato, foram mobilizados para Angola, especialmente para a província do Uíge, meios técnicos e humanos de várias organizações internacionais para ajudar a conter a epidemia.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), o Centro de Controlo de Doenças de Atlanta, nos EUA, e os Médicos Sem Fronteiras são as principais organizações envolvidas num esforço conjunto com o governo angolano.

A divulgação das formas de contágio e dos meios de prevenção, a ausência de casos fora da província do Uíge e a rápida mobilização de especialistas internacionais para conter o alastramento da epidemia permitiram acalmar a população.

A epidemia continua, apesar disso, a ser o principal motivo de conversa entre angolanos e estrangeiros que vivem no país, sendo frequentes os rumores sobre o aparecimento de novos casos, especialmente em Luanda, que depois acabam por se revelar infundados.

Até hoje, todos os casos registados pelas autoridades sanitárias tiveram origem na província do Uíge, onde está localizado o foco da epidemia, mas já ocorreram mortes também em Malange, Cabinda, Luanda, Cuanza Norte, Cuanza Sul e Zaire.

Para evitar o alastramento da epidemia, estão a ser acompanhadas quase cinco centenas de pessoas que tiveram contacto directo com os doentes e, até agora, ainda ninguém foi infectado fora do Uíge.

A doença de Marburg, que tem como principal vector o macaco verde, é uma infecção viral, do grupo de radovírus, da mesma família do Ébola, que se manifesta clinicamente por uma síndrome febril hemorrágica, apresentando como primeiros sintomas dores de cabeça e musculares, febre alta, indisposição, vómitos, diarreia e náuseas.

O contágio é feito por contacto directo com fluidos corporais, como sangue, saliva ou sémen, de indivíduos infectados.

Os primeiros casos desta doença ocorreram em 1967 na cidade alemã de Marburg envolvendo pessoal que trabalhava num laboratório onde estavam a ser analisados tecidos de macacos verdes importados do Uganda.

Este surto registou um total de 25 casos, de que resultaram sete mortes.

O vírus só voltou a aparecer em 1975, na África do Sul, onde morreu um jovem australiano que tinha estado no Zimbabué, onde terá sido infectado.

Cinco anos mais tarde, no Quénia, foi registado mais um caso mortal, vitimando um cidadão francês que terá sido infectado durante uma visita ao Parque Nacional do Monte Elgon, naquele país africano.

Neste parque nacional queniano esteve também um jovem dinamarquês que veio a morrer em Agosto de 1987 depois de ter sido infectado com o vírus.

O primeiro grande surto de febre hemorrágica provocada pelo vírus de Marburg ocorreu entre 1998 e 2000, na República Democrática do Congo, onde se registaram 128 mortos, entre 154 casos da doença.

Em Angola, em apenas seis meses, a epidemia já provocou mais de 200 mortos, em quase duas centenas e meia de casos registados pelas autoridades.

Ao contrário do que aconteceu nos outros países onde o vírus foi detectado, em Angola a maioria das vítimas mortais são crianças e jovens, com os menores de 14 anos a representarem 64 por cento do total de mortos.

PUB