Equipa de investigadores, entre os quais portugueses, descobre que papilas gustativas abrem caminho à dependência
Madrid, 20 Jan (Lusa) - Nem só o cérebro têm receptores à nicotina, a substância do tabaco que cria dependência, pois também existem receptores nicotínicos nas papilas gustativas, segundo um estudo publicado segunda-feira na revista "Proceedings of the National Academy of Sciences".
Até agora, os cientistas pensavam que a nicotina teria de migrar até ao cérebro, passando pelos pulmões e a corrente sanguínea, para conseguir os seus efeitos.
No entanto, uma equipa de investigadores da Universidade do Porto, em Portugal, do Instituto Internacional de Neurociência Edmon y Lily Safra de Natal (Brasil), da Universidade de Commonwealth, na Virgínia e da Universidade La Duke, nos Estados Unidos, descobriram que existe um segundo caminho de reconhecimento da nicotina que provavelmente contribui para a dependência.
É na boca que se encontram esses receptores, que são responsáveis pela activação do córtex gustativo (no cérebro).
Os cientistas chegaram a esta conclusão após modificar geneticamente ratos de laboratório para que estes não tivessem a proteína TRPM5, responsável pelo reconhecimento de sabores amargos, como a nicotina ou o quinino.
Apesar de não sintetizarem esta proteína, os ratos foram capazes de distinguir a nicotina e o quinino e a água por um caminho independente ao sentido do gosto.
Os investigadores explicam que a nicotina estimula os sistemas na boca: um relacionado com o sabor amargo e outro específico da nicotina.
Os receptores da nicotina presentes nas papilas gustativas produzem a activação neuronal do córtex gustativo, que está na ilha do córtex.
Sabe-se que os danos nessa região cerebral podem terminar de forma instantânea com a adição à nicotina, pelo que os cientistas estudam agora se os receptores bucais estão relacionados com os efeitos dessa substância no cérebro.
Se assim for, o bloqueio pode converter-se numa arma eficaz contra o tabagismo.
O poder aditivo do tabaco reside no efeito que a nicotina tem no cérebro.
A equipa de investigadores sugere que o desenvolvimento de medicamentos para aplicar nos receptores bucais da nicotina de forma tópica reduziria drasticamente os efeitos secundários dos tratamentos actuais.