Erdogan sobe a parada e acusa o Ocidente de apoiar o terrorismo

Foi a mais ácida intervenção pública do Presidente turco contra Washington e as capitais europeias desde a tentativa falhada de golpe de Estado. Num discurso proferido esta terça-feira a partir de Ancara, Recep Tayyip Erdogan respondeu com uma dura acusação às críticas de que é alvo por causa da purga em curso, desde meados de julho, no aparelho do Estado: “O Ocidente apoia o terrorismo”, ao alinhar posições com “os golpistas”.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Infelizmente, o Ocidente apoia o terrorismo e coloca-se ao lado dos golpistas”, declarou o Presidente turco num discurso em Ancara Thilo Schmuelgen - Reuters

“Infelizmente, o Ocidente apoia o terrorismo e coloca-se ao lado dos golpistas”, declarou o Presidente turco, antes de redobrar o contra-ataque verbal: “Aqueles que imaginávamos serem os nossos amigos tomam o partido dos golpistas e dos terroristas”.“O estado de emergência respeita os procedimentos europeus”, argumentou Erdogan.


Erdogan, que intervinha durante um fórum económico, sob os auspícios da Presidência do país, agitaria ainda a tese de uma tentativa de golpe de Estado antecedida de um cenário “escrito a partir do estrangeiro”.

O poder político que saiu intocado da ação armada de 15 de julho acusa o clérigo islâmico Fethullah Gülen, exilado nos Estados Unidos, de ser o mentor do golpe. Algo que o visado tem desmentido repetidamente.

Recep Tayyip Erdogan isolou Berlim no ponto de mira, insurgindo-se contra a decisão, por parte das autoridades alemãs, de interditar a transmissão por videoconferência, no domingo, de um discurso presidencial destinado a partidários turcos concentrados em Colónia.
“Vejam o que fez a França”

Na mesma linha, o Presidente turco invocou a resposta de Paris à sucessão de atentados em território francês. “Vejam o que fez a França: três mais três mais seis, eles declararam um ano de estado de emergência”, lembrou.A maioria dos generais turcos foi saneada depois do golpe falhado. A purga atingiu também a justiça, a educação e a comunicação social.


Entretanto a purga desencadeada na esteira do golpe chegou esta terça-feira a um dos derradeiros domínios poupados – a saúde.

Foram emitidos mandados de detenção contra 98 elementos de um hospital militar de Ancara. Incluindo médicos.

A coberto do anonimato, um responsável turco adiantou à France Presse que as autoridades interpelaram meia centena de funcionários da Academia Médica Militar Gulhane, sob a acusação de terem permitido a infiltração de apoiantes de Fethullah Gülen no exército, facilitando-lhes “uma rápida progressão na carreira militar”.
A fatura

Por sua vez, o ministro turco do Comércio divulgou um primeiro cálculo do custo económico do golpe de 15 de julho: uma verba equivalente a 90 mil milhões de euros.

“Se tivermos em conta todos os caças, os helicópteros, as armas, as bombas e os edifícios [danificados], o custo é, no mínimo, de 300 mil milhões de liras, segundo os nossos cálculos iniciais”, indicou Bulent Tüfenkci, em declarações ao diário Hürriyet.



O mesmo jornal noticiou, de resto, que também o serviço de informações deverá ser alvo de uma profunda reforma. Isto depois de o próprio Erdogan ter lamentado o atraso do MIT na comunicação ao Presidente de que havia um golpe em marcha.

A fórmula deverá passar por uma separação da estrutura em dois serviços: o primeiro dedicado a questões externas, sob a tutela da Presidência, e o segundo à vigilância intrafronteiras, com uma forte ligação às forças de segurança.

c/ agências internacionais
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