Erros de protocolo explicam contágio do Ébola em Espanha

O primeiro caso de contágio do ébola fora de África está quase transformado numa novela. Conhecem-se erros de protocolo, erros de diagnóstico e até acusações de "possível" mentira entre as autoridades sanitárias e a paciente infetada. Atualmente permanecem seis pessoas em isolamento e mais de 80 estarão sob vigilância.

Christopher Marques, RTP /
Paul Hanna, Reuters

Passo a passo, vai-se tentando descobrir o que falhou nos protocolos de segurança e que provocaram o primeiro caso de contágio do Ébola fora do continente africano. Acredita-se que a enfermeira ficou infetada ao retirar o fato e tocar com a luva na sua face. Uma informação que, dificilmente, conseguirá ser confirmada.

Imagens não foram gravadas

Embora os quartos onde estiveram isolados os missionários estejam equipados com câmaras de vigilância, trata-se apenas de um circuito fechado, sem gravação. As autoridades sanitárias não poderão, desta forma, confirmar todas as entradas e saídas e observar, atentamente, qual o momento em que terá ocorrido o contágio à enfermeira Teresa Romero.

Mesmo sem imagens que permitam confirmar as suspeitas, as autoridades parecem certas que a enfermeira terá tocado a sua cara ao retirar o fato de proteção, o que provocou o contágio. Para além de não terem acesso às imagens, as autoridades acreditam que os registos de entrada e saída no quarto de Viejo não estão completos. A confirmar-se este novo desrespeito protocolar, Romero terá entrado duas ou três vezes no quarto isolado, embora apenas duas vezes estejam registadas. Suspeita-se que a enfermeira não terá avisado o supervisor numa última entrada, que ocorreu já depois de Viejo ter falecido e do cadáver ter sido retirado. Terá sido nesta circunstância, no dia 25 de setembro, que terá ocorrido o contágio.

A confirmar-se as informações avançadas esta quinta-feira pelo El País, o desrespeito pelos protocolos multiplicaram-se. Não tendo avisado o supervisor, acredita-se que não estava a ser controlada quando retirou o fato de proteção. Só assim se poderá explicar que tenha tocado a face e que nenhum responsável tenha percebido. Mas, mais uma vez, são suspeitas difíceis de confirmar, não havendo acesso às imagens gravadas. Os responsáveis do Hospital Carlos III pediram já autorização judicial para que as imagens passem a ser gravadas e não apenas transmitidas no circuito interno.

Até à hospitalização de Romero no Hospital Carlos III, foram várias as situações suscetíveis de contágio a terceiros, antes do diagnóstico ser realizado. Para além dos dias que antecedem a sua hospitalização, acumulam-se todos os momentos do próprio dia 6 de outubro, quando deu entrada nas instalações hospitalares. Daí que, atualmente, seis pessoas se encontrem em situação de isolamento e mais de 80 pessoas estejam sob vigilância.

“Febril, mas descarta-se Ébola”
A saga de dia 6 de outubro começou por volta das 7h00 da manhã (6h00 em Lisboa). As autoridades sanitárias contactaram uma empresa de ambulâncias para requerer um veículo para transportar a enfermeira ao hospital. Entre dois tipos de veículos possíveis, foi selecionado o mais simples: uma ambulância convencional, sem equipamento para doentes contagiosos, uma vez que o sistema de informação especificava que a mulher não tinha ébola.

O responsável sanitário da Comunidade de Madrid, Javier Rodriguez, justificou a opção por uma ambulância convencional. Diz que, embora se soubesse que a vítima tinha tido contato com os missionários, tinha uma febre baixa. Daí que também tenha sido enviada para o Hospital de Alcorcón, em vez de ter ido diretamente para o Centro Hospitalar Carlos III. Rodriguez assume: “Os protocolos falharam”.

Segundo o relato apresentado pelo El País, a ambulância seguiu em direção à casa de Romero. A mensagem indicada nos ecrãs – “febril, mas descarta-se ébola” - levou a equipa a pedir mais informações. Responderam-lhes que os médicos tinham descartado um possível contágio pelo vírus do ébola, daí a mensagem indicada no ecrã.

Mesmo assim, os dois funcionários da empresa de ambulância decidiram agir com precaução. Apenas um deles subiria à habitação. Mal o operário subiu, a enfermeira explicou-lhe que era uma das profissionais que tinha tratado o missionário García Viejo e que estaria, provavelmente, infetada. O funcionário contactou o centro de coordenação, mas a mensagem era clara: assegurar o transporte da paciente ao Hospital de Alcorcón.

A ambulância transportou Romero até ao hospital de Alcorcón, como foi pedido. Os funcionários dizem que seguiram o protocolo, mas sem ter acesso ao equipamento de proteção adequado. Por isso mesmo, ficaram preocupados e pediram novas informações à sua empresa para saber o que deveriam fazer. Foi-lhes apenas dito que caso houvesse novas informações, seriam chamados.

Foram contactados doze horas depois e, após ter sido confirmado o contágio, é que a ambulância ficou parada e foi desinfetada. Por esta altura, já tinha transportado sete pacientes, depois de Romero. Os dois funcionários da empresa de ambulâncias encontram-se em casa e devem controlar frequentemente a temperatura do corpo: caso supere os 38.6 graus devem contactar as autoridades.

“As mangas eram curtas”
Os relatos dos funcionários da empresa de ambulância representam apenas o princípio de um dia negro para o sistema de saúde espanhol. Os erros de protocolo e a impreparação para este caso continuam e são, desta vez, denunciadas pelo próprio médico que inicialmente tomou conta da ocorrência.

Juan Manuel Parra foi o médico responsável pelo caso de Romero no Hospital de Alcorcón. Uma missão que teve início por volta das 8h00 locais e que durou cerca de dezasseis horas. Parra está atualmente de quarentena no Hospital Carlos III, em Madrid.

Numa carta em que retrata os principais acontecimentos que marcaram a permanência de Romero no hospital de Alcorcón, Parra diz ter acedido a habitação umas 12 vezes. Mas só a partir das 17 horas é que passa a ser usado um fato com uma proteção adequada. Um fato que, por sua vez, era curto, denuncia o médico.

Parra refere ainda que, embora fosse o médico responsável pelo caso, foi sempre pelos media que soube dos resultados das análises. O médico diz ainda ter pedido a transferência de Romero para o Hospital Carlos III às 18 horas. Só à meia-noite a enfermeira foi transferida para o complexo hospitalar Carlos III, o hospital habilitado para o tratamento do Ébola.
Romero “pode ter” mentido
A hipótese é avançada pelas autoridades sanitárias de Madrid e já foi criticada por responsáveis sindicais. O responsável sanitário da Comunidade de Madrid refere que Romero foi a um médico ao qual não informou que tinha tido contacto com o vírus. E que, depois de ter dito que tinha respeitado todos os protocolos, acaba por admitir que pode ter tocado a face com a sua luva.

“Durante todo este tempo negou sempre e não informou o seu médico”, refere Javier Rodriguez. Segundo o El Mundo, o responsável sanitário da Comunidade de Madrid diz ainda ser mentira que Romero tenha sido informada que estava contagiada por ébola pelos jornais e que ela e o marido foram informados pela equipa hospitalar.

O responsável diz ainda que, no dia 3, Romero contactou o serviço de saúde, depois de estes a terem tentado contactar. Neste telefonema, terá negado o contato com equipamentos ou fluídos do paciente, embora tenha dito ter 36.7 graus de febre. Na passada segunda-feira, com Romero a ter uma temperatura de 37.2 graus, foi decidido transportá-la ao Hospital de Alcorcón. Foi considerada uma paciente de “baixo risco”.

O sindicato dos enfermeiros mostrou-se indignado com as palavras ditas por Rodriguez. “Um responsável público não pode fazer declarações baseando-se em apreciações subjetivas”, afirma um responsável sindical. Entretanto, Rodriguez já veio moderar as suas palavras. Considera que dizer que “pode ter mentido” e “mentiu” não é a mesma coisa e refere ser comum os pacientes negarem a doença.
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