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Escalada da violência e da repressão inflama Egipto

Escalada da violência e da repressão inflama Egipto

Pelo menos um estudante morreu durante confrontos numa nova manifestação islamita esta quinta-feira na Universidade do Cairo, reprimida pela polícia com canhões de água, granadas de gás lacrimogéneo e tiros de chumbo grosso. Ativistas seculares e liberais participaram do protesto na capital do Egipto, contra a crescente repressão por parte das autoridades. Em causa, uma nova lei do governo interino a proibir manifestações e ajuntamentos políticos públicos de mais de 10 pessoas.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Os protestos contra o governo interino do Egipto são diários e estão a generalizar-se Reuters

A nova lei contra os protestos pareceu mesmo a gota que fez transbordar o copo da contestação ao governo.

O primeiro-ministro interino do Egipto na quarta-feira a nova lei como um "passo necessário". Mas centenas de pessoas, tanto opositores do Presidente Mohammed Morsi, destituído por uma junta militar a três de junho de 2013, como do novo governo, juntaram-se para protestar no Cairo.

"Aqueles que pensam que o estilo faraónico autoritário resulta vão perceber que estão enganados," afirmou uma manifestante, Laila Souief. "Vão assistir a uma terceira vaga da revolução muito mais violenta que antes. Estamos a assistir a um ponto de viragem," acrescentou.
Protestos proibidos
De acordo com a nova lei, protestos públicos e ajuntamentos políticos de mais de 10 pessoas, organizados sem permissão das autoridades, são banidos e podem ser punidos com multas e sentenças de prisão.

A proibição surge antes de um período eleitoral que inclui um referendo sobre emendas à Constituição elaborada na era Morsi e cujo pendor islamita foi severamente criticado por diversos grupos moderados, tanto dentro como fora do Egipto.
Condenação polémica
A condenação a 11 anos de prisão, esta quarta-feira, de um grupo de 21 mulheres acusadas de perturbar a ordem pública, inflamou ainda mais a contestação.

A mais nova do grupo tem 15 anos e outras seis condenadas têm menos de 18 anos. Vão ser todas enviadas para estabelecimentos de detenção juvenis.

As mulheres foram detidas quando integravam uma cadeia humana e distribuíam panfletos na cidade de Alexandria, em outubro, muito cedo. Familiares das raparigas disseram que este era o primeiro protesto do seu grupo, intitulado "Sete da manhã". A família da jovem de 15 anos afirma que ela não estava sequer a participar da manifestação mas apenas passava no local a caminho da escola.

Ativistas defensores dos direitos humanos condenaram a sentença como "uma loucura". A decisão inflamou igualmente os protestos islamitas que se têm realizado diariamente deste a deposição do Presidente Mohammed Morsi, a três de junho, por uma junta militar.

O Egipto tem estado a ser governado por um governo interino com apoio do exército mas a solução da força está a revelar-se ineficaz.

Repulsa
A sentença das 21 mulheres fez com que "muitos egípcios se interroguem para onde vai o seu país e o que poderá ainda suceder", afirmam alguns jornalistas no Cairo.

A sessão do julgamento foi transmitida pela televisão a partir do tribunal em Alexandria e provocou uma reação geral de repulsa. "Houve um grito de protesto e tenho a dizer que foi transversal, quando muitos egípcios olharam para estas raparigas, vestidas de branco, sentadas numa jaula e muito novas ainda," afirmou um jornalista da televisão Al Jazeera no Cairo.

A ativista egípcia Yasmin Refaei afirmou que a detenção das mulheres é uma "tática do Estado para desencorajar e amedrontar as mulheres" de participarem nas manifestações.

As mulheres e jovens foram condenadas a 11 anos de prisão por obstrução do trânsito, posse de instrumentos ilegais que podiam ferir outros cidadãos, sabotagem, militância num grupo terrorista e outros crimes menores.

De acordo com vários analistas, em vez do mês de detenção esperado, as mulheres e raparigas receberam sentenças mais graves do que as atribuídas a polícias responsáveis pelo assassínio ou por ferimentos graves de civis.
Repressão generalizada
No mesmo julgamento, seis lideres da Irmandade Muçulmana foram julgados à revelia e condenados a 15 anos de prisão por incitarem as mulheres ao protesto.

Noutro caso de intimidação, dezassete clérigos islamitas ligados a Irmandade Muçulmana foram presos em Garbyia uma cidade no Delta do Nilo, acusados de usarem as mesquitas e os seus sermões para incitarem os seus seguidores à violência contra o Estado.

A repressão atinge também manifestantes seculares no Cairo, tendo várias dezenas destes sido presos, incluindo um outro grupo de mulheres que terão acabado por ser abandonadas no deserto após terem sido espancadas e ameaçadas
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