Escritores angolanos desvalorizaram contribuição de mulheres para independência
Londres, 15 fev 2025 (Lusa) - Um estudo da literatura pós-colonialista como fonte privilegiada da história angolana descobriu que muitos escritores angolanos desvalorizaram a contribuição das mulheres para a luta pela independência, afirmou a investigadora Dorothée Boulanger.
A conclusão resultou do livro "A Ficção como História - Resistência e Cumplicidades na Literatura Angolana Pós-colonial", a tradução em português da mesma obra em língua inglesa publicada em 2022 pela académica francesa, professora na Universidade de Oxford. A investigação realizada durante o doutoramento focou-se no estudo de mais de 20 romances de oito escritores angolanos publicados depois de 1977 para fazer uma análise da política e história angolana, mas entretanto surgiram questões sobre o género e as normas sociais.
Boulanger constatou que as personagens femininas são raras e retratadas como "mães e namoradas, muito sexualizadas, frequentemente bastante `antipáticas` e pouco interessantes".
Para a investigadora, esta caracterização é "redutora" e contraria relatos factuais da participação de mulheres na resistência e movimentos anti-coloniais e na guerra civil angolana.
"É por isso que é interessante juntar todos estes livros, porque assim temos uma imagem mais completa, e a escassez de personagens femininas e mesmo a caraterização das personagens femininas era muito problemática", afirmou a investigadora à agência Lusa.
Na sua opinião, isto "reflectia claramente alguma coisa profundamente enraizada - não diria necessariamente misoginia, mas sexismo - particularmente no que diz respeito às mulheres quando a luta de libertação estava em causa".
Boulanger acredita que este é um sinal de como os estereótipos conservadores sobre as mulheres existentes durante o Estado Novo não foram suficientemente questionados após a independência angolana.
"Podemos dizer que os escritores não têm de ser historicamente exactos, podem escrever o que quiserem. O problema é que isto perpetua a invisibilidade das mulheres como agentes históricos, tendo participado nessa história de resistência e libertação", vincou.
O livro de Dorothée Boulanger explora como escritores famosos, como Pepetela ou José Eduardo Agualusa, e outros menos conhecidos, como Boaventura Cardoso, Sousa Jamba ou Manuel dos Santos Lima, escreveram sobre a história do país.
"A minha principal fonte é a ficção. Interessou-me muito a forma como, ao criarem estas histórias, estão também a contar-nos uma história sobre Angola que é muito real, sobre desigualdade e violência e sobre a construção da elite", contou a autora.
Inicialmente formada em Relações Internacionais em França, Boulanger interessou-se por este tema depois de passar dois anos como professora no Lobito, em Angola, em 2009 e 2010.
Durante este período, percebeu que as pessoas nem sempre gostavam de falar sobre a situação política, mas que os romances de autores angolanos eram bastante mais ousados na discussão deste tema e do passado recente.
Ao investigar, percebeu que muitos eram ou tinham sido ativistas e tinham relações com o partido no poder, o MPLA.
"O caso dos escritores e de Angola é fascinante, porque estiveram tão envolvidos na luta anti-colonial e também tão próximos da elite pós-colonial. E não estamos a falar apenas de proximidade ideológica ou política, estamos a falar de laços sociais, por vezes familiares, de companheirismo de longa data", salientou Boulanger.
A académica acredita que este "sentimento de proximidade e, por conseguinte, de reflexão sobre a sua própria posição e independência enquanto escritores, uma vez que conheciam as pessoas que estavam no poder" influenciou a forma como escreveram e interpretaram a história.
Neste aspecto, disse a professora da Universidade de Oxford, a literatura angolana é singular, deixando de ser apenas uma forma de entretenimento e passando a ter um papel de fonte histórica e também de influência sobre o debate e consciência política.
"Ver o envolvimento de tantos escritores e intelectuais a este nível nos assuntos do Estado, e depois serem contadores de histórias absolutamente incríveis, acho isso realmente muito raro. Significa que existe esta ambiguidade quando se lê literatura angolana e a torna absolutamente fascinante", .
A publicação agora do livro em português é o resultado de uma colaboração da editora Mercado de Letras e da Africae, uma editora financiada pela organização científica francesa CNRS, que vai disponibilizar posteriormente a obra em formato digital de forma gratuita.
"Era muito importante para mim ter uma versão que pudesse ser lida e compreendida por qualquer pessoa da África lusófona e tornar esta investigação disponível para além do público anglófono", explicou Boulanger.
A académica francesa está agora a trabalhar noutros temas, nomeadamente sobre a escritora moçambicana Paulina Chiziane e também numa comparação das literaturas de Angola, Moçambique e Brasil e a forma como estas falam do ambiente.
A edição da obra em português acontece no ano em que se assinalam os 50 anos das independências dos países africanos que foram colonizados por Portugal.