Espaço pós-soviético é interesse estratégico de que Rússia nunca abdicará - investigadora

O espaço pós-soviético permanece decisivo para a Federação da Rússia e constitui um interesse estratégico do qual não abdicará, num contexto de regresso das tensões entre Moscovo e o ocidente, disse à Lusa a investigadora Sónia Sénica.

Lusa /

Ao assinalar que a Rússia possui diversas "linhas estruturantes", a investigadora integrada do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) recordou que para o Presidente Vladimir Putin, e ao longo dos últimos 20 anos, "um dos vetores e dinâmicas tem sido claramente o espaço vital, a vizinhança próxima com a União Europeia ou esta fronteira junto à Federação russa após a implosão da URSS".

Nesse sentido, sublinhou que "o espaço pós-soviético é extremamente importante para a federação russa, e um interesse estratégico do qual não irá abdicar", posição que ficou mais clara "com esta projeção de força, com a nova militarização junto da fronteira com a Ucrânia".

A atual transição de poder na ordem internacional, com a imparável ascensão da China e o regresso a um "certo bipolarismo" no sistema internacional -- Estados Unidos ainda como grande potência e a emergente China -- também coincide com uma alteração do foco e da estratégia de política externa dos EUA, através da transição para a região do Indo-Pacífico, a militarização desse espaço, e com reflexos no comportamento da Rússia.

"A Rússia quer perceber qual o seu papel e tirar partido dessa transição de poder para também se afirmar enquanto grande poder", prosseguiu a investigadora do IPRI.

"Há muito que uma das suas linhas estruturantes, também defendida na política externa, era o facto de contestar a ordem internacional liberal de hegemonia norte-americana, dizendo que a mesma estava a findar, e advogando um sistema multipolar onde a Rússia também pudesse ter a sua voz", precisou.

Perante o atual contexto de "nova bipolarização", a Rússia foi forçada a fazer-se notar. "É essa Rússia previsível, de uma grande assertividade externa e de uma centralização interna, ou há quem diga autocratização, que se verifica, através de uma série de círculos dinâmicos e vetores que perduram, e que vão sendo ou robustecidos ou menos recalibrados consoante a sua atuação", acrescentou Sónia Sénica.

Para além da importância que concede ao espaço pós-soviético, a Rússia também se envolveu em outras áreas, em particular no Médio Oriente, com a intervenção no conflito da Síria desde 2015, mas não se terá limitado em apoiar o "aliado tradicional", o regime de Assad.

"[A intervenção na Síria] também não foi apenas para efetuar um exercício de demonstração das suas capacidades militares, nem para defender uma das prerrogativas sempre defendidas pela liderança russa, a estabilização dos regimes existentes e a não ingerência interna", disse a investigadora.

Nesse sentido, e ao recorrer à perspetiva de alguns analistas, esta assertividade "é consequência do retraimento norte-americano. A Rússia tem tentado preencher esse vazio em algumas áreas do mundo e o Médio Oriente surge como prioritária", indicou.

Desta forma, e a par da utilização da força militar, "existe também um processo de tentativa de concertação, de pacificação do conflito sírio com as várias partes envolvidas e com uma nova e diferenciadora dinâmica de alianças".

Assim, a Rússia "fez-se ladear, pela Turquia de um lado e pelo Irão do outro, para sugerir uma proposta de paz para o conflito sírio com o processo de Astana, em paralelo com o processo que estava a ser implementado com alguns países e as Nações Unidas, o processo de Genebra".

Uma forma de a Rússia tentar demonstrar "que é possível uma outra dinâmica de alianças e que a Rússia também tem de ter o seu papel nos grandes conflitos em curso no mundo", e onde se enquadra a sua recente visita à Índia.

Uma perspetiva não totalmente coincidente é defendida pela académica Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, que considera que o que está em causa é uma nova "cortina de ferro" e dois modelos políticos distintos.

"Por um lado, a democracia liberal, e por outro o sistema autoritário da Rússia. É um jogo de poder e de demonstração de força, e por isso considero que se trata de uma Guerra Fria feita sobre toda a região fronteiriça e sobretudo com consequências na zona dos Estados bálticos e não apenas", indicou em declarações à Lusa.

A académica também notou que na sua vizinhança e no interior da Federação russa existem "perspetivas ou esperanças de independência", tendo a Rússia de adotar uma posição de força e colocar linhas intransponíveis.

"A Ucrânia não pode aderir à NATO porque esta adesão poderia simbolizar uma fraqueza da Rússia, uma cedência da Rússia, que é um sinal para todos os que reivindicam independência e um afastamento da Rússia: podemos pensar na Bielorrússia, na Geórgia, na Chechénia, em imensos territórios que neste momento estão muito bem controlados, apesar de ter havido guerras e protestos e esmagados de forma muito musculada", indicou.

No entanto, Mónica Dias concede "razão" à Rússia quando se refere ao Tratado que consumou a reunificação da Alemanha "e onde de facto os Estados Unidos e seus aliados confirmaram que não haveria um alargamento a leste da NATO".

Uma promessa que os EUA e aliados "não conseguiam cumprir porque nesses Estados independentes a sua população, o seu parlamento, decidiram livremente pertencerem, ou não, à NATO".

Esse fator, aliado à decisão de dissolver o Pacto de Varsóvia, forneceu argumentos a Moscovo para se opor ao "aliciamento" da NATO em direção a leste, e que provoca instabilidade na região, e mesmo que esteja em causa o que define por "autonomia de decisão".

"Agora assistimos na cimeira das democracias, promovida pelo Presidente Joe Biden, ao anúncio de que os EUA vão negociar com outros Estados aliados a nova linha que separa a NATO, quem pode e quem não pode entrar para a NATO", e com perspetivas e agravamento das tensões.

"A solução será encontrar uma via que ajude a manter a face de ambos", sustentou, numa referência a Biden e Putin.

"É errado cortar e hostilizar completamente a Rússia, importante construir pontes, compromissos, sem ceder nos princípios da NATO e do ocidente. E que permita a Putin manter a face internamente e com estas fronteiras. O diálogo é sempre positivo", defendeu ainda Mónica Dias, que não deixou de recorrer ao exemplo do antigo chanceler alemão Willi Brandt e à sua `Ostpolitik`, a "Política do leste".

"Willy Brandt foi muito importante quando em plena Guerra fria visitou a RDA", na consumação da `Ostpolitik`, frisou. "Talvez Biden não seja a pessoa certa para fazer a Ostpolitik mas é importante que exista, têm que haver pontes de comunicação, de firmeza, que permitam alternativas não bélicas, não violentas, para a população afetada. E manter a face, porque há muito em jogo", concluiu.

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