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Espanha. Número de mortos sobe para 69 e mais de 60 pessoas registaram desaparecidos
A Guarda Civil espanhola recebeu, até ao momento, 64 registos de informação sobre familiares desaparecidos após o acidente ferroviário ocorrido na quarta-feira em Urda, Toledo e que fez pelo menos 69 mortos, de acordo com um novo balanço, mais uma vítima mortal do que a anterior informação oficial. Há ainda 50 feridos hospitalizados e 60 que desde ontem já tiveram alta do hospital.
Fontes da Guarda Civil disseram hoje à agência de notícias espanhola EFE, que os 64 relatos foram registados nos vários postos que o corpo de segurança estabeleceu para prestar apoio os familiares das vítimas. O número oficial de desaparecidos é indeterminado.
No ponto de situação das autoridades na manhã desta quinta-feira,o presidente da região de Castilla La-Mancha revelou que foram identificados "restos humanos" entre vagões esta noite, referindo ser "previsível que o balanço de vítimas mortais possa ainda aumentar".
Não há informação de vítimas portuguesas
O ministro dos Negócios Estrangeiros adiantou esta manhã não haver qualquer informação de vítimas portuguesas neste acidente, mas alertou que "não podemos excluir essa hipótese", já que os trabalhos de busca e socorro no local do acidente ainda continuam.
O acidente ocorreu na quarta-feira, pouco antes das 09h00 (08h00 em Lisboa), quando um comboio de alta velocidade (AVE), da operadora Renfe, embateu na traseira de um comboio da empresa Iryo na linha de alta velocidade entre Madrid e Sevilha, na localidade de Urda, em Toledo.
"Todo o Estado está mobilizado"
O presidente do governo espanhol está no local das operações de resgate e, em conferência de imprensa, assegurou que "todo o Estado está mobilizado" com uma tripla vertente. Em primeiro lugar, refere Pedro Sánchez, a resposta de emergência, com o resgate das vítimas e a sua identificação. Em segundo lugar, o "esclarecimento de quais as causas que originaram este terrível acidente ferroviário" e, por último, a "indemnização, pelo menos do ponto de vita material" dos familiares das vítimas por parte da Administração do Estado.
Espanha acionou o plano geral de emergência para dar uma resposta "urgente e eficaz" a este acidente.
Sánchez quis ainda assegurar que "se reforçará a segurança para que não volte a acontecer algo idêntico".
Pedro Sánchez referiu ainda que a Renfe colocou em marcha um plano de assistência às famílias das vítimas, com uma linha de apoio, algo que também aconteceu com a empresa privada proprietária de um dos comboios envolvidos no acidente. Os números são o 900 10 10 20 (Renfe) y el 900 001 403 (Iryo).
Controladores ouvidos hoje
Os controladores de tráfego ferroviária de Atocha, responsáveis pela gestão dos comboios a partir de Madrid, foram ouvidos esta quinta-feira, já que ontem isso foi impossível por estarem "em choque" com o acidente, como refere a correspondente da RTP, Ana Romeu.
Ontem mesmo foram feitos testes de álcool e droga aos três controladores, testes que deram negativo.
Falha técnica e uma cadeia de erros humanos
Esta quarta-feira foi ainda tornado público o aúdio com a ordem de marcha ao maquinista do comboio que veio depois a embater num outro comboio que estava parado. Na gravação, percebe-se alguma confusão no centro de controlo.
Inicialmente houve uma quebra no sistema automático (denominado LZB) que fez com que todos os comboios tivessem ordem para parar numa extensão de mais de 60 quilómetros e, seguindo os protocolos em vigor, passou a ser o centro de controlo a coordenar a circulação.
A linha ferroviária que liga Madrid à Andaluzia (Sevilha, Málaga e Córdoba) está suspensa até dezembro.
Foi a partir daqui que se sucederam uma série de decisões e indicações, sobretudo ao maquinista de um dos comboios, que o ministro dos Transportes de Espanha, Oscar Puente, considerou "inexplicáveis" e "erradas".
Segundo as gravações agora conhecidas, o maquinista de um dos comboios, o AVE, da empresa pública Renfe, recebeu às 08h36 indicação para retomar "a marcha normal", quando havia outra composição (da empresa privada Iryo) parada na mesma linha, 25 quilómetros à frente.
Minutos mais tarde, às 08h41, a maquinista do Iryo recebeu a mesma indicação.
No entanto, às 08h48 esta maquinista contacta o centro de controlo para dizer que não consegue retomar a marcha, por problemas técnicos, e continua parada na linha, à entrada da estação de Urda. O operador responde-lhe que continue a tentar, que avance quando conseguir, e se se mantiver o problema, que volte a telefonar para o centro de controlo.
Cinco minutos depois, às 08h53, o AVE da Renfe chocou com o Iryo, provocando pelo menos 68 mortos e mais de 100 feridos. Não há registo nas gravações conhecidas até agora de ter havido qualquer contacto com o comboio da Renfe após a indicação do Iryo de que estava parado poucos quilómetros à frente, na mesma linha.
Segundo o Governo espanhol e peritos na circulação ferroviária, as indicações dadas pelo operador do centro de controlo aos maquinistas são uma cadeia de erros.
Um dos primeiros erros é dar indicação aos dois comboios para retomarem a marcha normal, quando perante a falha do sistema automático de segurança só deveriam poder circular em "marcha à vista", a cerca de 40 quilómetros por hora, para permitir aos maquinistas a travagem manual caso vejam algum obstáculo.
Outro dos erros foi dar indicação ao comboio da Renfe para avançar antes de a mesma ordem ter sido dada ao Iryo, que estava à frente.
Juntou-se depois a aparente falta de indicações ao comboio da Renfe para parar face ao aviso do Iryo de que não conseguia arrancar.
O comboio da Renfe circulou entre 15 e 17 minutos antes de bater no Iryo, tempo suficiente para o fazer parar e evitar o acidente, como reconheceu na quarta-feira o ministro dos Transportes.
Sindicato de maquinistas denuncia sistemas de segurança “degradados”
O secretário-geral do Sindicato Espanhol de Maquinistas e Ajudantes Ferroviários (SEMAF), Diego Martín, exigiu “uma investigação rigorosa e independente” do acidente ferroviário e classificou como “alarmante e desrespeitosa a divulgação de áudios tendenciosos” do centro de controlo, que mostram o erro de um controlador em Atocha.
“A culpa não resolve tragédias; determinar suas causas, sim. É nisso que devemos focar agora”, declarou Martín durante um dia de paralisações promovido pelo sindicato para “reivindicar as medidas necessárias para que o setor volte a ser seguro”.
O secretário-geral dos maquinistas espanhóis denunciou também que “se trabalha cada vez mais com sistemas degradados” e afirmou que o sistema de sinalização LZB — que falhou no acidente de Urda — “deveria ter sido substituído há muito tempo”, visto que apresentou falhas em “repetidas ocasiões”.
Silêncio em homenagem
A estação de Atocha, em Madrid, foi palco de um momento emotivo, quando foram observados 5 minutos de silêncio pelas vítimas do acidente em Urda.