Espanha paga mais para emitir dívida e BCE corta crédito a bancos gregos

O Banco Central Europeu anunciou que deixa de disponibilizar liquidez aos bancos gregos que não considerar solventes e o presidente do BCE admitiu, pela primeira vez, que a Grécia poderá ter de deixar a União Monetária. Os economistas avisam que, a verificar-se, esta opção sairá extremamente cara à Europa, havendo já quem estime os prejuízos em um bilião de euros. Neste ambiente de incerteza, os juros da dívida espanhola registaram numa forte subida no leilão de hoje, ao mesmo tempo que se agrava a situação da Bankia, intervencionado na semana passada pelo Estado espanhol. Com as nuvens negras a adensarem-se sobre o continente, crescem as preocupações entre os responsáveis da Grã-Bretanha que já falam abertamente no “desmoronar” da Zona Euro e nas graves consequências que isso terá para a economia britânica.

RTP /
As núvens de tempestade parecem adensar-se sobre o euro, aqui representado em frente da sede do BCE em Frankfurt Yann

“A principal questão não é a Grécia, mas sim Espanha e Itália “, insistiu ontem o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Se a Grécia deixar a Zona Euro, os efeitos de contágio espalhar-se-ão às grandes economias europeias, provocando um cataclismo financeiro semelhante ao do colapso do banco de investimentos Lehman Brothers em 2008.
Espanha paga mais para colocar dívida
Exemplo disso, o leilão levado a cabo esta quinta-feira pelo tesouro espanhol. A Espanha conseguiu colocar 2.494 milhões de dólares a 3 e a quatro anos mas teve de pagar juros bem mais altos do que na última emissão de dívida semelhante.

As taxas de juro de referência oscilaram entre os 4,375 por cento e os 5,106 por cento, quando anteriormente tinham variado entre 2,89 por cento e 4,037 por cento.

Igualmente preocupantes são os desenvolvimentos na Bankia, que na semana passada solicitou a intervenção do Estado espanhol. A situação continua a complicar-se com quedas profundas na bolsa e notícias de corrida aos depósitos.
BCE corta crédito a bancos gregos
Também na Grécia, a fragilidade do setor bancário voltou a ser notícia, com o BCE a suspender o fornecimento de liquidez a vários bancos gregos, cujo capital está demasiadamente enfraquecido.

“Como não se estava a verificar uma recapitalização, o BCE suspendeu as operações de política monetária” disse à Reuters uma fonte da Zona Euro junto do BCE, que se recusou a ser identificada.

Esta medida significa que os bancos afetados já não podem oferecer os seus ativos ao BCE como colateral para novos empréstimos, e terão de pedir financiamento de emergência ao Banco da Grécia, o qual será bastante mais dispendioso.

Não se sabe ainda quais foram os bancos atingidos pelo corte de financiamento. Uma fonte próxima do assunto revelou que quatro dos bancos gregos estavam tão descapitalizados que estavam a operar com equidades negativas.
FMI avisa para consequências "extremamente caras" da saída da Grécia do euro
Entretanto, a chefe do Fundo Monetário Internacional avisou quanto às consequências “extremamente caras” que terá uma saída da Grécia do Euro.

Num eco do quejá tinha sido dito antes pelo presidente do Banco Mundial, Christine Lagarde disse que a saída da Grécia do euro “seria extremamente dispendiosa e difícil, e não só para os gregos”. Alguns economistas estimam que os custos para os países europeus seriam  próximos de um bilião de euros [um milhão de milhões].

Mesmo assim, o que antes era tabu é agora amplamente discutido pelos responsáveis europeus.
BCE "preferia" que Grécia continuasse no euro
Quarta-feira, o presidente do BCE Mario Draghi abordou esta possibilidade numa conferência de imprensa em Frankfurt.

“Quero manifestar a nossa forte preferência por que a Grécia continue na Zona Euro” disse Draghi, acrescentando: “ como o tratado não prevê nada sobre uma saída não é uma questão a ser decidida pelo BCE”.

Mais diretos foram o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schauble, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Guido Westerwelle, que reforçaram a ideia de que as próximas eleições na Grécia serão um referendo à permanecia do país na zona monetária comum

“Para que a Grécia possa ficar no euro precisa de um governo estável que esteja disposto a prosseguir no caminho que definimos” disse Schäuble .

“Nas eleições será necessário fazer um voto de confiança na Europa”, acrescentou Westerwelle.
Apreensão crescente dos britãnicos com situação na Zona Euro
No outro lado do Canal da Mancha, a situação na Zona Euro é vista com alarme crescente. Apesar de o país não fazer parte da moeda europeia, os dirigentes britânicos não tem dúvida que ninguém escapará a um possível tsunami financeiro.

Num discurso proferido hoje perante empresários do noroeste de Inglaterra, o primeiro-ministro David Cameron avisa que a moeda única europeia pode vir a desmoronar-se, de uma forma que “acarreta riscos para todos” , a menos que os 17 países membros evoluam rapidamente para uma total união fiscal e política.
Cameron: "Zona Euro está numa encruzilhada"
“A Zona Euro está numa encruzilhada “ avisa Cameron, “ou se adapta ou tem de enfrentar uma potencial desagregação”.

"Ou a Europa tem uma Zona Euro, empenhada, estável e bem sucedida, com uma firewall eficaz, um sistema bancário bem capitalizado e bem regulado, um sistema de partilha do fardo fiscal e uma política monetária de apoio que se estenda por toda a Zona Euro, ou entramos em território desconhecido , que trás grandes riscos para toda a gente”, acrescentou o chefe do governo britânico.

As palavras de Cameron amplificam os comentários feitos pelo governador do Banco de Inglaterra, Sir Mervyn King, o qual declarou ontem que “a Zona Euro se estava a desfazer a si própria, sem que fosse visível uma solução óbvia” e que isso estava a ameaçar a economia e o setor bancário da Grã-Bretanha.
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