Especulação aumenta, cardeais divididos entre conservadores e progressistas

Os cardeais eleitores reúnem-se segunda-feira em conclave, depois de duas semanas durante as quais fixaram posições e definiram estratégias de voto, enquanto no exterior se tenta adivinhar o nome do sucessor de João Paulo II.

Agência LUSA /

Antes do silêncio, imposto há uma semana pelo cardeal alemão Joseph Ratzinger, alguns cardeais falaram aos meios de comunicação social e esboçaram um primeiro retrato do futuro Papa.

É o caso do patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, para quem deverá ser um Papa "autêntico, com ideias pessoais adaptadas as circunstâncias e que permitam o avanço da Igreja".

"Deverá mostrar que está ao serviço da humanidade e mais ainda dos pobres e dos excluídos", afirmou o brasileiro Cláudio Hummes, um dos nomes mais citados entre os favoritos à sucessão.

"João Paulo II é uma figura inimitável, inesquecível. Se posso dar um conselho ao próximo, é que não procure imitar (João Paulo II), mas que seja ele próprio. Que continue aquilo que já fez e que faça ainda melhor", declarou o cardeal primaz da Bélgica, monsenhor Godfried Danneels.

Para o cardeal norte-americano Theodore McCarrick "deverá ser um evangelizador", e um "guia espiritual", segundo o cardeal hondurenho Rodriguez Madariaga.

Esta eleição é diferente de qualquer outra. Não é permitido fazer campanha e os cardeais não devem discutir os méritos dos possíveis candidatos durante as reuniões diárias, denominadas Congregações gerais.

Nestes encontros que antecederam o conclave, os cardeais limitaram-se, pelo menos oficialmente, a debater as questões administrativas relativas à organização das exéquias de João Paulo II, do conclave que elegerá o seu sucessor, e a situação da igreja, nomeadamente o estado das finanças do Vaticano, cujas contas estão a vermelho.

Fora das reuniões eram permitidas outras conversas, mais privadas ou em grupo, com o objectivo de chegar ao maior consenso possível sobre um nome.

De acordo com a imprensa italiana, dois nomes deverão surgir em confronto desde as primeiras votações: o cardeal Ratzinger, 78 anos, figura destacada da ala "conservadora", e o italiano Carlo Maria Martini, 78 anos, do lado dito "progressista".

Nenhum dos dois deverá, no entanto, conseguir os 77 votos suficientes, ou seja a maioria de dois terços dos 115 eleitores (todos os cardeais com menos de 80 anos), diz a mesma imprensa.

No final das Congregações gerais, o nome mais falado era o de Ratzinger, "braço direito", enquanto guardião da fé e do dogma, de João Paulo II, e a imprensa italiana atribuía-lhe à partida 40 a 50 votos.

Os opositores enumeram os problemas: a saúde precária (já teve um acidente vascular-cerebral), o perfil "conservador" e a "limitada" capacidade de gestão.

Os "conservadores" poderão então voltar-se para o Patriarca de Veneza, Angelo Scola, 63 anos, ou para o cardeal arcebispo de Viena, Christoph Schoenborn, 60 anos.

Entre os "progressistas" surgem nomes como o do cardeal de Lisboa, José Policarpo, 69 anos, ou do hondurenho Oscar Andres Rodriguez Maradiaga, 63 anos.

Até agora discreto, outro dos considerados favoritos é o cardeal arcebispo de Milão Dionigi Tettamanzi, 71, um "conservador" moderado que poderá congregar os votos dos "progressistas", sublinham observadores próximos do Vaticano.

No campo italiano, o mais importante, porque entre 58 cardeais eleitores europeus 20 são italianos, fala-se no antigo secretário de Estado Angelo Sodano, 77 anos, no cardeal Giovanni Battista Re, 71 anos, e no cardeal Camillo Ruini, 74 anos, presidente da Conferência episcopal italiana, todos "conservadores".

Outros nomes italianos citados como "papabili" são o do cardeal de Florença Ennio Antonelli, 69 anos, próximo do movimento ecuménico de renovação espiritual e social Focolari, e o cardeal de Génova Tarcisio Bertone, 70 anos, autor do anátema contra o romance "O Código Da Vinci".

A América Latina espera, entretanto, que este conclave seja o da eleição de um Papa latino-americano. Apesar de ao todo serem 21 cardeais eleitores, existem fortes divisões.

O cardeal brasileiro Cláudio Hummes, 71 anos, e o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, 69 anos, estão entre os nomes mais referidos do lado "progressista".

O campo "conservador" latino-americano conta com o colombiano Dario Castrillon Hoyos, 76 anos, o colombiano Alfonso Lopez Trujillo, 70 anos, o chileno Jorge Arturo Medina, 78 anos, e o cardeal cubano Jaime Lucas Ortega y Alamino, 69, considerado um "moderado".

A África e a Ásia têm "papabili" possíveis, mas não surgem entre os mais prováveis sucessores de João Paulo II. É o caso do cardeal nigeriano Francis Arinze, 76 anos, muito "conservador", para quem são muito débeis as possibilidades de um Papa negro ser eleito pois - na sua opinião - "a Igreja não está pronta para isso".

A mesma análise vale para a Índia, que tem dois candidatos: o cardeal de Bombaim Ivan Dias, 69 anos, mas que está doente, e o cardeal de Ranchi, Placidus Telesphores Toppo, 65 anos.

Os novos grupos católicos conservadores, que se tornaram muito influentes durante o longo pontificado de João Paulo II, como a Opus Dei, os legionários de Cristo ou Comunhão e Libertação, também marcaram posição, contando com vários cardeais entre os seus membros ou simpatizantes.

Em 2002, na canonização do fundador da Opus Dei, Jose Maria Escrivã de Balaguer, mais de 40 cardeais assistiram à cerimónia. Dos 117 cardeais eleitores (dois estão ausentes), 80 têm mais de 70 anos (43 entre 70 e 75 anos, e 37 entre 75 e 79 anos) e apenas 37 têm menos de 70 anos. O mais novo tem 53 anos.

Um certo número de regras não escritas podem, entretanto, influenciar a escolha final: conhecimento de línguas e aptidão para comunicar, ser saudável, ser natural de um país que não seja nem uma potência económica, nem uma potência militar.

Outro dado a ter em conta é a tradição, que na milenar eleição de sucessores do apóstolo Pedro tem sido "afastar" os candidatos dados como grande favoritos e repetir a máxima de que, "no conclave, quem entra Papa, sai cardeal".

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