Esquerdistas podem baralhar cálculos de Merkel e Schroeder

Os esquerdistas do Linkspartei-PDS são a grande surpresa da campanha eleitoral alemã, e podem tornar-se num pesadelo para as aspirações do centro-direita e para os planos de reeleição do Governo SPD/Verdes.

Agência LUSA /

Há alguns meses, os neocomunistas do PDS, que apenas têm expressão eleitoral no leste do país (ex-RDA), receavam não conseguir ultrapassar a barreira dos cinco por cento necessária para entrar no Bundestag (Parlamento Federal).

Mas depois da sua aliança com a Alternativa Eleitoral Trabalho e Justiça Social (WASG), formada por dissidentes do SPD e dirigentes sindicais esquerdistas da parte ocidental da Alemanha, o PDS passou a ser cotado nas sondagens acima dos 10 por cento, embora nas últimas semanas apresente tendência para descer.

Entretanto, o ex-presidente do SPD, Oskar Lafontaine, prontificou-se a cooperar com o PDS e a ajudar o partido que herdou as estruturas dos comunistas do SED da extinta RDA a criar uma base de apoio na parte ocidental da Alemanha.

Lafontaine foi o primeiro ministro das Finanças dos Governos de Gerhard Schroeder, a partir de Outubro de 1998, mas em Março de 1999 saiu em litígio com o seu camarada, depois de já ter sido obrigado a ceder-lhe o passo na candidatura a chanceler.

Entretanto, Lafontaine, que se apresenta como o legítimo herdeiro político do lendário chanceler social-democrata Willy Brandt, demitiu-se do SPD, é cabeça de lista do Linkspartei-PDS e critica duramente os cortes sociais impostos por Schroeder.

A subida dos esquerdistas nas sondagens embaraça os outros partidos, da esquerda à direita, e o PDS ameaça tornar-se fiel da balança numas eleições inicialmente destinadas a ser um duelo entre o bloco SPD/Verdes, liderado por Gerhard Schroeder, e o bloco CDU/CSU/Liberais, em torno de Angela Merkel.

Se o Linkspartei-PDS tiver mais de 10 por cento dos votos, SPD e Verdes não terão hipótese de repetir a maioria absoluta conquistada em 2002.

Mas a CDU/CSU e os Liberais também podem sofrer as consequências, e falhar a almejada maioria absoluta, o que daria um sabor amargo a uma eventual vitória de Angela Merkel e obrigaria a CDU/CSU a fazer uma grande coligação com o SPD.

Entretanto, o Linkspartei-PDS respira confiança, e espera tornar-se a 18 de Setembro a terceira força política no Bundestag, o objectivo traçado pelo seu presidente, Lothar Bisky, após a aliança com a Alternativa Eleitoral Trabalho e Justiça Social.

Apanhado de surpresa pela antecipação das eleições, o aparelho do PDS e da WASG conseguiu reagir a tempo, e formar listas de candidatos nas 16 regiões federadas.

O facto de os outros partidos acusarem o PDS de ter incluído nas suas listas dezenas de informadores da STASI, a polícia política da extinta RDA não perturbou os dirigentes esquerdistas.

O próprio Gregor Gisy, ex-chefe do grupo parlamentar do PDS no Bundestag e brilhante tribuno que voltou à vida política depois de um breve interregno, figurava nas listas de informadores da STASI, como uma comissão parlamentar de inquérito constatou, apesar dos protestos do advogado esquerdista.

Os analistas já consideram ponto assente que o Linskspartei- PDS, que em 2002 ficou abaixo dos cinco por cento e elegeu apenas directamente duas deputadas nos respectivos círculos eleitorais, voltará a ter um grupo parlamentar com dezenas de representantes.

"Com a sua campanha contra aquilo a que chama política neo- liberal de cortes sociais, o PDS surge como alternativa para todos os eleitores desiludidos com as reformas do Governo, e que receiam que a oposição conservadora acentue ainda mais esta política", sublinhou o politólogo berlinense Oskar Niedermayer.

Além disso, o PDS tem uma sólida base de apoio entre os 20 e os 25 por cento nas regiões que formavam a extinta RDA, onde o elevado desemprego é motivo de grande descontentamento com o actual Governo.

Dizer se o Linkspartei-PDS ultrapassará ou não os 10 por cento nas eleições é prematuro, porque os eleitores do leste alemão não têm tantas afinidades com os partidos, e decidem mais em cima da hora.

Mas sobretudo a CDU/CSU facilitou muito a vida aos esquerdistas, depois de o ministro-presidente da Baviera, Edmund Stoiber, ter chamado "frustrados" aos leste-alemães, obrigando a sua própria candidata, a leste-alemã Angela Merkel, a demarcar-se das polémicas afirmações.

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