Estado da União. Von der Leyen apela à luta contra "ultranacionalistas" e "antieuropeus"

Estado da União. Von der Leyen apela à luta contra "ultranacionalistas" e "antieuropeus"

No discurso do Estado da União, que marca o regresso aos trabalhos dos eurodeputados, Ursula von der Leyen anunciou medidas nos campos da Inteligência Artificial, da resiliência climática, migrações ou redes sociais.

Joana Raposo Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Yves Herman - Reuters

A presidente da Comissão Europeia apelou esta quarta-feira à luta contra os “ultranacionalistas” e “antieuropeus” que “querem destruir a unidade europeia”. Ursula von der Leyen discursou no Estado da União, em Estrasburgo, sob o lema “Concretizar a independência da Europa”.

“Quer se trate de ultranacionalistas ou de antieuropeus, de ingerências russas ou de desinformação, os nomes mudam, mas o objetivo é o mesmo”, declarou. “Desprezam os nossos valores e querem destruir a unidade europeia. Por isso, lutemos contra isso, mas lutemos também juntos pela nossa visão da Europa”.

"Uma guerra territorial de agressão está a assolar o nosso continente; outras eclodiram nas proximidades. Uma luta pelas capacidades industriais está a moldar a concorrência global. E uma batalha de narrativas procura minar a confiança na Europa".

A líder europeia afirmou que, “olhando para a Europa de hoje, poderia dizer-se que o estado da nossa União é o mais sólido de sempre e que pode ser também o mais precário de sempre”.

Estas “podem parecer duas afirmações incompatíveis, mas ambas são verdadeiras e refletem o período excecional em que vivemos”, vincou.

Ursula von der Leyen lembrou que esta é “uma era complexa de grandes perigos que, por um lado, cria inúmeras possibilidades, mas por outro gera riscos enormes”.

“E neste mundo, a Europa optou por traçar o seu próprio caminho”, acrescentou.
UE vai tentar abrandar setor da IA
Segundo a presidente da Comissão Europeia, as alterações climáticas e a Inteligência Artificial representam os “pontos de viragem da nossa época”.

“A nossa prosperidade e segurança futuras dependerão em grande parte da forma como gerirmos os pontos de viragem da nossa época: as alterações climáticas e a IA”, declarou.

No campo da Inteligência Artificial, von der Leyen avançou que a UE irá reunir os principais intervenientes para ajudar o setor a abrandar o ritmo de desenvolvimento.

"Vou convidar os principais laboratórios de ponta para uma discussão sobre como podemos apoiar os esforços em curso da indústria para controlar o ritmo da inovação", afirmou Von der Leyen.

“As regras da UE em matéria de IA podem moldar os esforços globais para fazer frente aos riscos”, declarou, acrescentando que Bruxelas “vai intensificar os esforços com parceiros com visões semelhantes, como o Canadá, o Reino Unido e outros, nesta questão”.

A líder europeia esclareceu que a abordagem de Bruxelas "é clara: queremos IA, queremos que a IA crie mais valor, de forma mais responsável e a um custo mais baixo e com menor consumo de energia, mas, acima de tudo, queremos uma IA com o ser humano no controlo".
Bruxelas vai propor quadro para a resiliência climática

Quanto ao clima, von der Leyen lembrou que "o tempo extremo deste verão foi uma amostra do que está para vir", garantindo que a Europa "vai continuar no caminho das suas metas climáticas". 

A líder europeia anunciou que Bruxelas irá propor, em outubro, um quadro para a resiliência climática, uma iniciativa que "irá identificar os 100 territórios mais vulneráveis ao clima na Europa e determinar como gerir os seus riscos".

A UE vai também propor um plano europeu para ondas de calor, focado em sistemas de alerta precoce e preparação na área da saúde. "Precisamos de aumentar drasticamente a nossa preparação para os impactos das alterações climáticas", alertou.

Além disso, pretende criar uma "aliança de seguros climáticos" com o objetivo de aumentar a cobertura de seguros para fenómenos meteorológicos extremos.

"Atualmente, apenas cerca de 25 por cento dos prejuízos causados por catástrofes na Europa são cobertos por seguros privados. Isto significa que, com demasiada frequência, os orçamentos nacionais tornam-se a seguradora de último recurso. Temos de tomar medidas para colmatar esta lacuna", afirmou von der Leyen.
UE vai propor medidas contra fluxos de migrantes
A Comissão Europeia vai propor um quadro de emergência para prevenir fluxos repentinos e em massa de migrantes “orquestrados e instrumentalizados”, adiantou a presidente da Comissão.

Os acontecimentos deste verão em Ceuta “mostram que os nossos instrumentos precisam de evoluir, especialmente para situações de emergência”, considerou. “A Europa precisa de meios para proteger as suas fronteiras em todos os momentos”.

“Respeitaremos sempre os nossos valores e direitos fundamentais. Mas nunca faremos concessões no que diz respeito à proteção das nossas fronteiras”, insistiu.

O novo Quadro Europeu de Resposta a Emergências só seria ativado ao abrigo de um conjunto de critérios estritamente definido e permitiria “uma flexibilidade limitada no tempo e estritamente definida nos procedimentos padrão” em circunstâncias excecionais, detalhou.
Proibição de redes sociais para menores de 13 anos e “mini-contas” para menores de 15
A presidente da Comissão Europeia anunciou igualmente propostas para a proteção de crianças e os adolescentes na Internet, confirmando a intenção de proibir as redes sociais para menores de 13 anos e de criar “mini-contas” para menores de 15 anos.

“Nenhuma rede social antes dos 13 anos” e “nenhuma conta pessoal antes dos 15 anos” é o objetivo da Comissão Europeia.

“Desta forma, as crianças entre os 13 e os 15 anos podem usar apenas de mini-contas, criadas e supervisionadas pelos pais, com funcionalidades restritas e um tempo de utilização limitado”, explicou.
Canadá poderá ser o primeiro "membro associado" da UE
A presidente da Comissão Europeia propôs que o Canadá se torne o “primeiro membro associado” da União Europeia.

No seu discurso, e com o primeiro-ministro canadiano Mark Carney a assistir como convidado, Ursula von der Leyen referiu que a UE quer “elevar as relações com o Canadá ao mais alto nível possível”.

“Gostaria, portanto, de trabalhar consigo na possibilidade de o Canadá se tornar o primeiro membro associado da UE”, disse a Mark Carney, numa altura em que esse país se encontra em guerra comercial com os Estados Unidos e procura novos parceiros. “Vemos o mundo com os mesmos olhos: desde a IA às alterações climáticas, do Ártico à geopolítica”, sublinhou von der Leyen, apelando a um “futuro comum”.

Propôs ainda a criação de um Conselho Europeu de Segurança que envolva a UE, o Canadá, a Noruega e o Reino Unido.

“A urgência é ainda maior hoje, tendo em conta a natureza e a amplitude dos riscos em jogo. É por isso que iremos apresentar as nossas ideias para que um Conselho Europeu de Segurança se torne uma realidade”.
Apoio à Ucrânia no "inverno mais difícil" da guerra
A responsável prometeu ainda que a UE vai dar o seu "maior apoio de sempre à Ucrânia" durante o próximo inverno, que deverá ser o mais difícil desde o início da guerra desencadeada pela invasão da Rússia.

"Juntamente com os nossos parceiros, iremos prestar ajuda humanitária e reforçar o abastecimento de energia e aquecimento da Ucrânia", afirmou. "Em segundo lugar, iremos reforçar as defesas aéreas da Ucrânia".

Ursula von der Leyen afirmou que os mísseis "Patriot" dos EUA precisam de ser entregues com urgência, mas que "também devemos reduzir, em conjunto, a nossa dependência de um único fornecedor", desenvolvendo com a Ucrânia "um sistema de defesa antimísseis acessível e modular", tendo como elemento central o projeto ucraniano "Freyja".

Sobre o conflito no Médio Oriente, von der Leyen afirmou que a decisão do Governo israelita de avançar com "o projeto ilegal do colonato E1", na Cisjordânia, "é inaceitável‌".
Von der Leyen quer duplicar quota de eletricidade renovável
A líder europeia disse ainda querer duplicar a quota de eletricidade renovável na União Europeia até 2040, reduzindo em 260 mil milhões de euros anuais a importação de combustíveis fósseis.

"Precisamos de redobrar o investimento na nossa energia limpa, acessível e de produção nacional, sejam renováveis e nuclear, ou biometano e outras, tecnologicamente neutras. Mas têm de nos dar independência. Para esta independência, precisamos de eletrificar a Europa. A nossa meta é duplicar a quota de eletricidade até 2040", afirmou.

Segundo Von der Leyen, deste modo a UE "poderia reduzir a sua fatura de importação de combustíveis fósseis em 260 mil milhões de euros por ano. Mas também precisamos de garantir que a eletricidade que geramos fica disponível".

A líder do executivo comunitário referiu ainda que 480 gigawatts de capacidade renovável "continua à espera de ligação à rede, é por isto que precisamos do pacote para as redes elétricas com tanta urgência".

"Temos de investir mais depressa, acelerar as ligações à rede, desenvolver o armazenamento, em suma, façamos do futuro da Europa um futuro elétrico", apelou ao Parlamento Europeu.

c/ agências
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