Estado da Virginia "lamenta" a escravatura

Primeiro Estado norte-americano a lamentar o seu passado esclavagista, a Virgínia abre caminho a uma América ainda reticente a fazer o seu mea culpa, 200 anos depois da proibição de importar negros para o continente.

Agência LUSA /
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O presidente Thomas Jefferson proibiu a importação dos escravos de África a 02 de Março de 1807.

A Virgínia (leste), que assentou a sua prosperidade no tráfico dos negros nos séculos XVII, XVIII e XIX, adoptou no final de Fevereiro uma resolução que exprime um " profundo pesar" pelo seu papel no comércio dos escravos e reconhece as "contribuições significativas" dos Afro-Americanos para o Estado e o país.

"É um grande dia para abordar a História norte-americana com honestidade", declarou o historiador Roger Wilkins.

"O meu professor de história ensinava-me que a escravatura era secundária", contou. "Ora isto não é secundário na História norte- amwricana, muito pelo contrário".

Em meados do século XIX, as terras do Novo Mundo contavam com cerca de quatro milhões de escravos. A Virgínia, onde os primeiros escravos chegaram de África há quase 400 anos, possuía só ela cerca de 500.000 negros.

A decisão de Jefferson não visava explicitamente pôr fim à escravatura e não foi respeitado pelas Estados do Sul. O tráfico de negros, abolido em 1865, continua a reforçar-se e prolongar-se-á por dois séculos e meio.

Todavia, nos Estados Unidos, "a História, tal como a ensinam, continua a girar à volta dos brancos. A contribuição dos negros continua a ser desvalorizada", acrescentou Roger Wilkins, professor de História e Cultura norte-americanas na Universidade George Mason (Virgínia).

"Não se trata tanto do passado, trata-se do futuro. Trata-se de compreender a herança da escravatura hoje", disse Joanne Martin, directora negra do Museu de cera dos grandes Negros norte-americanos em Baltimore, (Maryland, leste).

"Simples desculpas sem exemplos concretos do impacto da escravatura sobre a América e do impacto que continua a ter hoje, não têm qualquer substância", comentou, a propósito da resolução votada na Virgínia.

"É uma resposta escandalosa face à enormidade do drama que a escravatura representa para a população negra", reforçou Russel Adams, sociólogo na Universidade Howard de Washington, uma das mais antigas e prestigiadas universidades negras. Evocou as discriminações raciais, a pobreza, "a terrível doença" da negritude.

"É como se alguém matasse a vossa mãe e dissesse a seguir:

"estou desolado", exclamou o professor, reclamando reparações financeiras para os descendentes dos escravos, "tal como se reconstruiu a Alemanha depois da II Guerra Mundial.

"Se isso parar aí, é um insulto", frisou.

A decisão aprovada pelo Parlamento da Virgínia, por iniciativa de dois eleitos descendentes de escravos, poderá ser seguida por outros Estados, como o Missuri (centro), o Maryland (Leste), o Mississipi (Sul) ou Rhode Island (Nordeste).

Mas, apesar de o ex-presidente Bill Clinton ter manifestado "pesar" pelo papel dos Estados Unidos no comércio de escravos, e o presidente George W. Bush o ter qualificado de um "dos maiores crimes da História", nenhuma desculpa foi ainda apresentada oficialmente.

"A América tem de preparar-se" para tais desculpas nacionais, exortou Gerald Foster do Museu nacional da escravatura em Fredericksburg (Virgínia), mas "isso levará tempo".

"Demorou um século e meio para obter desculpas do Congresso sobre os linchamentos", lembrou Joanne Martin, mas "não é impossível que os Estados Unidos votem um dia uma resolução nacional" sobre a escravatura.

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