Estado de emergência em França está a "enfraquecer" a liberdade

O prolongamento do estado de emergência em França é colocado em causa pela Federação Internacional dos Direitos do Homem. A organização considera que a medida está a enfraquecer as liberdades individuais e deverá terminar “imediatamente”.

Ana Sanlez - RTP /
Robert Pratta - Reuters

O alerta é dado pela FUDH, num relatório publicado esta quinta-feira, intitulado “Medidas de combate ao terrorismo contrárias aos direitos humanos: quando a exceção se torna a regra”. Os especialistas analisaram a resposta do Governo francês aos atentados terroristas de novembro do ano passado, de forma a perceber o seu grau de compatibilidade com os direitos humanos.

E concluíram que a forma como as medidas de segurança foram implementadas ameaça o Estado de Direito e as liberdades individuais. O relatório questiona se o “papel exato” do estado de emergência na vida dos cidadãos é “lutar contra o terrorismo ou acostumar o público a um regime especial".
"Estigmatização"
O projeto, que contou com o apoio da Liga dos Direitos Humanos, considera que "o governo não demonstrou qualquer eficácia na aplicação do estado de emergência", e que o mesmo "levou a violações profundas das liberdades individuais, um declínio do Estado de direito e exacerbação de um processo de estigmatização de uma parte da população que vive em França por causa da sua religião e / ou da sua origem”.
 
Os especialistas sublinham que o Parlamento francês não está “a cumprir o seu papel de supervisão” nem está a proteger os cidadãos. Pelo contrário, estará a abusar de medidas "desequilibradas e insuficientes". O relatório aponta como exemplo várias prisões domiciliárias injustificadas, buscas e extinção das associações, feitas "fora de controlo judicial".
O relatório foi elaborado no âmbito de uma missão internacional de quatro dias que teve lugar em março.

França está em estado de urgência desde os atentados de 13 de novembro em Paris. O regime de exceção, que já foi prolongado por três vezes, restringe o movimento de pessoas e facilita as buscas domiciliárias, que podem ser feitas sem que seja necessária qualquer autorização judicial.

Esta não é a primeira vez que a ação do Governo francês é alvo de críticas. Já em fevereiro o Conselho da Europa alegou que estavam a ser cometidos "abusos" por parte da Polícia francesa, justificados com a medida excecional, e que o estado de urgência estava a restringir “fortemente o exercício das liberdades fundamentais” e a “enfraquecer certas garantias do Estado de Direito".



Diversas Organizações Não Governamentais já apresentaram as mesmas queixas e têm-se multiplicado as manifestações contra o prolongamento do estado de exceção.

O estado de urgência tem de ser aprovado pelo senado e pelos deputados franceses. O atual regime permanecerá em vigor até ao fim de julho, de forma a abranger o campeonato da Europa de futebol e a Volta a França em bicicleta.
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