Estados Unidos avisam Rússia contra "postura agressiva" na Geórgia

O secretário norte-americano da Defesa advertiu a Rússia para o impacto negativo que as manobras militares em território georgiano poderão acarretar nas relações entre Washington e Moscovo. Robert Gates garantiu que os EUA não pretendem avançar com uma intervenção militar no Cáucaso.

Raquel Ramalho Lopes e Carlos Santos Neves, RTP /
Os próximos dias serão essenciais para “determinar o futuro rumo” das relações entre Estados Unidos e Rússia, disse Gates Shawn Thew, EPA

“Se a Rússia não voltar atrás na sua postura agressiva e acções na Geórgia, as relações EUA-Rússia poderão ser afectadas negativamente nos próximos anos”, declarou Robert Gates, no seu primeiro encontro com os jornalistas desde o início do conflito.

O secretário da Defesa garantiu que os Estados Unidos não tencionam avançar com uma intervenção militar na Geórgia. A seu lado, o general James Cartwright dizia que as tropas russas parecem estar a preparar a retirada da Geórgia.

Gates, antigo especialista sobre a ex-URSS nos serviços secretos norte-americanos, considerou que os próximos dias e meses serão essenciais para “determinar o futuro rumo” das relações entre os dois países.

Na eventualidade de a Rússia não respeitar o cessar-fogo, negociado através do presidente em exercício do Conselho Europeu junto dos presidentes russo e georgiano, devem ser retiradas “consequências”.

Apesar das dúvidas em relação a uma retirada para breve das tropas russas, Gates disse ter recebido garantias do seu homólogo russo de que “os russos não pretendem voltar para a Geórgia”.

O homem forte do Pentágono considera que os russos tentaram, com esta operação militar, compensar as muitas concessões a que foram forçados com o desmoronar da União Soviética e pretendem “reafirmar o seu estatuto internacional”.

Diplomacias norte-americana e europeia apelam ao fim da crise

O esforço diplomático dos Estados Unidos para resolver o conflito no Cáucaso conheceu esta quinta-feira um novo desenvolvimento com o encontro entre a secretária de Estado norte-americana e o presidente em exercício da União Europeia.

Imagem da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e do Presidente francês, Nicolas Sarkozy

Condoleezza Rice disse, ao lado do Presidente francês Nicolas Sarkozy, que “é tempo de terminar com este conflito”.

“É preciso parar o choque da guerra, isso exige algum tempo mas está em progressão”, acrescentou Sarkozy.

Amanhã, em Tbilissi, Condoleezza Rice vai transmitir a Saakashvili o “apoio inabalável” dos Estados Unidos à Geórgia. A secretária de Estado vai também entregar ao Chefe de Estado da Geórgia alguns “documentos que permitirão consolidar o cessar-fogo. Se amanhã, o presidente Saakashvili assinar o documento que negociámos com Medvedev ter início a retirada das tropas russas”, explicou Sarkozy.

O Presidente de França acredita que a situação no terreno “vai melhorar progressivamente”. Sarkozy apontou ainda “uma grande identificação de pontos de vista” entre França e EUA, sendo comum “uma vontade de obter a paz. A retirada das forças militares russas da Geórgia e o respeito pela soberania, independência e integridade da Geórgia”. Esta é “uma tarefa difícil, morosa e complexa”, reconhece.

Sarkozy comunicou que está em contacto com outros Chefes de Estado e de Governo europeus como a alemã Angela Merkel ou o polaco Donald Tusk.

Tropas russas continuam a movimentar-se em território georgiano

No teatro do conflito, as tropas russas manobraram ao longo do dia em pelo menos três cidades georgianas. Para além de Gori, onde continuam a ocupar posições, as colunas russas foram avistadas em Zugdidi, no Oeste da Geórgia, e no porto de Poti, na costa do Mar Negro.

Os militares russos dizem estar a percorrer cidades e florestas para recolher equipamento abandonado pelas forças georgianas.

As chefias militares de Moscovo afirmaram que a retirada de Gori deverá estar concluída na sexta-feira. As tropas da Geórgia estiveram esta quinta-feira a patrulhar Gori, mas acabaram por sair daquela cidade estratégica, que permanece parcialmente controlada pelas forças russas.

Registaram-se pelo menos 20 explosões nas imediações da cidade, bem como disparos de armas de fogo.

Imagem de soldados russos a ocupar posições numa estrada para Gori

As estradas que conduzem a Gori permanecem também bloqueadas por tanques russos.

A partir de um posto de controlo nos arredores de Gori, o ministro georgiano do Interior, Vano Merabishvili, adiantou que as forças especiais do seu país estão a percorrer a zona em busca de minas russas.

Por sua vez, o coronel-general Anatoly Nogovitsyn, vice-chefe do Estado-Maior russo, afirmou que a presença das tropas russas em Gori visa estabelecer contactos com a administração civil da cidade e assumir o controlo de depósitos militares abandonados pelas forças da Geórgia.

“As armas abandonadas precisavam de protecção”, afirmou o oficial russo.

As tropas russas, apoiadas por tanques, manobraram também no interior e nos arredores de Poti, o principal entreposto petrolífero da Geórgia. Segundo a Guarda Costeira georgiana, os militares russos incendiaram, ontem, quatro lanchas de patrulhamento em Poti. Esta quinta-feira, terão destruído um sistema de radar.

Na cidade georgiana de Zugdidi, já perto da Abecásia, um repórter da agência Reuters avistou uma coluna russa composta por mais de 100 veículos militares, entre os quais quatro dezenas de blindados.

Os comandantes russos insistem que as movimentações das tropas de Moscovo em território georgiano não extravasam os limites do plano de paz obtido com a mediação do Presidente francês, Nicolas Sarkozy. O plano, argumentam os oficiais russos, inclui uma cláusula que permite “implementar medidas adicionais de segurança” no tempo que medeia até à chegada de observadores internacionais.

Tensão entre Rússia e Ucrânia

A tensão entre Rússia e Ucrânia acentuou-se esta quinta-feira, com as chefias militares de Moscovo a contestarem as medidas implementadas por Kiev com o objectivo de restringir os movimentos da frota russa no Mar Morto.

O Presidente da Ucrânia, Viktor Yushchenko, assinou um decreto para obrigar os vasos de guerra russos fundeados no porto ucraniano de Sevastopol a obterem uma permissão prévia antes de entrar ou sair da base.

A hierarquia russa, pela voz do coronel-general Anatoly Nogovitsyn, contesta a medida de Yushchenko: “Temos um comandante para a frota do Mar Negro. É o Presidente da Rússia. Todas as ordens externas são ilegítimas para nós”.

Bush recebe presidentes da Ucrânia e da Lituânia

O Chefe de Estado norte-americano recebeu os seus homólogos ucraniano e lituano, a quem transmitiu a solidariedade dos EUA para com o governo de Saakashvili e repetiu o desejo de “uma Geórgia soberana e livre e com integridade territorial”.

A porta-voz da Casa Branca classificou de “fanfarronice” as declarações do ministro russo dos Negócios Estrangeiros que a soberania georgiana deveria ser “esquecida”. “A nossa posição respeitante à integridade territorial da Geórgia não vai mudar”, comentou Dana Perino.

A Casa Branca acredita que a Rússia vai retirar-se do território georgiano, porque o rumo “das coisas vai em boa direcção” e considera ser demasiado cedo para acusar Moscovo de desrespeitar o cessar-fogo.

Medvedev encontra-se com líderes da Ossétia do Sul e Abecásia

O Presidente russo transmitiu, no Kremlin, aos presidentes das duas repúblicas da Ossétia do Sul e da Abecásia que a Rússia vai apoiar todas as decisões futuras das duas repúblicas separatistas. Esta declaração poderá ser interpretada como uma promessa de apoio à independência das duas regiões que integram o território da Geórgia.

Medvedev transmitiu a Eduard Kokoity e a Serguei Bagapch que nenhum acordo de paz vai fazer a Rússia mudar de política.

A Rússia garante que não há qualquer violação de cessar-fogo no Cáucaso e garante estar em curso o processo de transmissão do controlo da cidade georgiana de Gori para as autoridades locais.
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