Estados Unidos. Onda progressista desafia "establishment" democrata

As eleições primárias democratas nos Estados Unidos têm mostrado alguns resultados surpreendentes, como é o caso de Jamaal Bowman, um candidato da ala progressista do partido que, na corrida para conseguir a nomeação por parte de um dos distritos de Nova Iorque, derrotou Eliot Engel, peso pesado do partido que dirige o Comité de Assuntos Externos da Câmara dos Representantes.

RTP /
Jamaal Bowman parece estar prestes a chegar ao Congresso norte-americano Lucas Jackson - Reuters

Dois anos depois de Alexandria Ocasio-Cortez ter surpreendido o establishment democrata, o candidato negro Jamaal Bowman parece ser o próximo. Diretor de uma escola, o democrata de 44 anos derrotou Eliot Engel nas eleições primárias. Para além do apoio de Ocasio-Cortez, Bowman conta também com demonstrações de apoio de nomes como Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

Com resultados negativos, Engel teve, nos últimos tempos, o apoio de nomes como Hillary Clinton, Andrew Cuomo, Nancy Pelosi e Chuck Schumer, mas está prestes a perder o seu lugar na Câmara dos Representantes.

As eleições tiveram lugar em Nova Iorque, Kentucky e noutros quatro Estados, com Bowman a ter destaque por fazer parte de uma ala mais esquerdista do partido democrata, que tem desafiado o establishment do partido. Ainda faltam muitos votos por contar e apenas na próxima semana serão conhecidos resultados definitivos.

A campanha de Bowman recebeu apoios de grupos liberais menos conhecidos, como o Justice Democrats (também foram apoiantes de Ocasio-Cortez) e o Partido das Famílias Trabalhadoras, que financiaram a campanha do diretor de escola, e que apostam em candidatos progressistas que podem fazer a diferença e conseguir um lugar no Senado e Congresso norte-americanos.

No entanto, Engel foi vítima de decisões pessoais que prejudicaram a campanha, tal como o facto de ter passado várias semanas fora do distrito nova-iorquino que representa durante a pandemia de covid-19, sendo acusado de ter perdido contacto com as pessoas.

Noutra situação, o candidato democrata foi apanhado por um microfone a declarar que caso não existissem eleições primárias não teria nenhum interesse em falar à comunicação social. Uma situação aproveitada por Bowman que acusou Engel de não se preocupar com a população durante a pandemia e de ter sido um representante ausente durante vários dos mais de 30 anos que foi eleito.

Apesar de algumas semelhanças no currículo, como o apoio ao programa de saúde “Medicare for All”, são as diferenças entre os dois democratas que mais se destacam. Engel é conhecido por uma posição radical pró-Israel, por ter sido a favor da guerra no Iraque e por se ter oposto ao acordo nuclear que os Estados Unidos (durante a presidência de Barack Obama) assinaram com o Irão. Muitos grupos pró-Israel foram os principais financiadores da campanha de Engel.

A ala mais à esquerda do Partido Democrata considera que a eleição de candidatos progressistas pode ser uma resposta à derrota de Bernie Sanders frente a Joe Biden, que conseguiu a nomeação democrata para as eleições presidenciais nos Estados Unidos. Isto acontece numa altura de grande turbilhão social no país, depois da morte de George Floyd às mãos da polícia de Minneapolis.

No Bronx e no Vale do Hudson, mais dois candidatos progressistas estão a liderar as contagens de votos. Ritchie Torres e Mondaire Jones (também apoiado por Ocasio-Cortez) estão na linha da frente nos seus distritos e, caso sejam eleitos em Novembro, tornar-se-ão nos dois primeiros negros homossexuais a conseguir um assento no Congresso norte-americano.
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