Estudantes na Mongólia Interior protestam contra imposição de língua chinesa nas escolas
Estudantes e pais chineses de etnia mongol, na região chinesa da Mongólia Interior, noroeste da China, realizaram esta semana raros protestos públicos contra uma nova política de educação bilíngue que dizem ameaçar a língua mongol na região.
Um estudante do ensino médio na cidade de Hulunbuir disse que os alunos saíram das salas de aula, na terça-feira, e destruíram uma cerca, antes que a polícia paramilitar interviesse.
"Nós, que somos alunos do último ano, estávamos a conversar e pensamos que devíamos fazer alguma coisa", disse o aluno, Narsu, que, como a maioria dos mongóis, tem apenas um nome. "Embora isto não nos afete diretamente agora, terá um grande impacto sobre nós no futuro".
A política, anunciada na segunda-feira, antes do início do novo ano letivo, exige que as escolas usem novos livros didáticos em chinês, substituindo os livros em língua mongol. Os manifestantes afirmaram saber que há protestos e greves em Hohhot, a capital da província, bem como nas cidades de Chifeng e Tongliao ou na prefeitura de Xilin Gol.
Nuomin, mãe de uma aluna num jardim de infância em Hulunbuir, admitiu que "muitos dos pais" vão manter os filhos em casa até que "tragam o mongol de volta às salas de aula".
Em 2017, o Partido Comunista Chinês criou um comité para rever os livros didáticos de todo o país.
A nova política para a Mongólia Interior, que faz fronteira com a Mongólia, afeta escolas onde o idioma mongol é a principal língua de ensino.
As aulas de literatura para alunos do ensino básico e médio nas escolas que ensinam em língua mongol passarão a adotar livros chineses e serão ministradas em mandarim.
No próximo ano, o curso de política e moral também mudará para o mandarim, assim como as aulas de história, a partir de 2022. As restantes disciplinas, como a matemática, não mudarão o idioma de ensino.
Os alunos também vão começar a aprender mandarim no primeiro ano. Até agora começavam apenas no segundo.
Mudanças semelhantes ocorreram em outras áreas habitadas por minorias étnicas. Nas regiões do Tibete e Xinjiang, o idioma principal de instrução nas escolas tornou-se também o mandarim.
A China tem vindo a alterar o sistema de ensino sob um novo modelo de assimilação cultural pelos Han, o grupo étnico dominante, que deixa para trás políticas de inspiração soviética de promoção de línguas de grupos minoritários.
O Presidente chinês, Xi Jinping, disse que, se as pessoas não falarem a mesma língua, torna-se difícil comunicarem entre si.
Para os mongóis, a nova diretriz gera receios de que percam a sua língua materna.
Na cidade de Tongliao, os pais decidiram levar os filhos de um internato para casa, na segunda-feira. Muitos pais só ficaram a saber desta nova política depois de terem deixado os filhos na escola, disse Nure Zhang, residente de Tongliao.
As autoridades de uma escola primária, apoiada pela polícia, recusaram-se a permitir que os pais levassem os filhos de volta, de acordo com Zhang, que participou no protesto.
Após confrontos entre pais e membros da polícia, o diretor da escola e as autoridades locais disseram que os filhos podiam voltar a casa.
As escolas permanecem vazias em Tongliao e os líderes locais do Partido Comunista têm visitado cada família para tentar convencer os alunos a regressar, disse Zhang.
Aquele pai disse sentir-se já fortemente influenciado pelos han, que constituem 79% dos 25 milhões de habitantes da Mongólia Interior.
"Agora o chinês passou a ser a língua principal e o mongol tornou-se uma língua suplementar", disse. "Se isto continuar ao longo de 10 anos, 20 anos, a nossa língua será lentamente esquecida".