São claros os efeitos de viver em microgravidade.
Em poucas horas, no espaço, os fluidos sobem das pernas para a cabeça, o rosto incha e o corpo começa a adaptar-se a uma vida sem peso. Com o passar dos meses, músculos e ossos enfraquecem, o coração trabalha de outra forma e a visão pode ser afetada.
Em poucas horas, no espaço, os fluidos sobem das pernas para a cabeça, o rosto incha e o corpo começa a adaptar-se a uma vida sem peso. Com o passar dos meses, músculos e ossos enfraquecem, o coração trabalha de outra forma e a visão pode ser afetada.
Estas alterações representam um risco para quem sonha, por exemplo, chegar a Marte, mas também oferecem à ciência janelas raras para estudar processos semelhantes aos do envelhecimento, compreender os efeitos da radiação e procurar novas formas de proteger e tratar doentes e doenças na Terra.

Créditos imagem: ESA/NASA
Espaço. O acelerador laboratorial do corpo humano
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Espaço. O acelerador laboratorial do corpo humano
O corpo humano é um organismo multicomposto, entre ossos, músculos, órgãos e muito líquido, onde cerca de 60 por cento é água. Um corpo já por si moldável e em transformação ao longo do tempo, que sobre efeito da microgravidade sofre ainda mais alterações. Mudanças que a medicina procura compreender e prevenir.
Desde que se começou a estudar estes efeitos, o conhecimento obtido no Espaço pode regressar à Terra e ser aplicado ao envelhecimento, à imobilização, à radioterapia e a outras áreas clínicas. É por isso que muitas das investigações que atualmente se efetuam nestes cenários não buscam apenas futuras viagens espaciais, mas também aproveitar esse conhecimento para tratar doenças e doentes na Terra.
Créditos imagem: ESA/NASA
Matthias Maurer, astronauta alemão ao serviço da Agencia Espacial Europeia (ESA), viveu no espaço, a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS - sigla em inglês), durante 117 dias e foram claras as alterações no próprio corpo, e logo nas primeiras horas da missão no espaço, explicou à RTP Notícias.
“É claro que se consegue ver a alteração. Se olharem para a minha foto antes do lançamento e, depois, umas duas horas mais tarde, pode ver-se que tenho o rosto realmente redondo e pensam: oh, o Matthias engordou cinco quilos nas últimas cinco horas, mas, na verdade, isto deve-se apenas ao facto de o líquido que eu tinha nas pernas e nos pés estar agora a flutuar no meu corpo e, por isso, tenho muito desse líquido acumulado no rosto".
Durante o longo período que Matthias esteve na ISS, foi simultaneamente investigador e objeto de investigação. O seu corpo foi observado antes, durante e depois da missão para perceber como o organismo humano reage fora das condições em que evoluiu.
Um trabalho essencial, afirma o astronauta da ESA, para compreender “como o corpo humano se adapta ao espaço e como se adapta ao envelhecimento no espaço e em terra”.
Um trabalho essencial, afirma o astronauta da ESA, para compreender “como o corpo humano se adapta ao espaço e como se adapta ao envelhecimento no espaço e em terra”.
Mas pensa o leitor: “O que tem isto que ver comigo, se nunca irei ao espaço?”. A resposta está na rapidez das alterações, 20 vezes mais, que as células humanas efetuam em microgravidade.
Sem o esforço imposto pela gravidade terrestre, o organismo atua de acordo com as condições em que o rodeia e “pensa” que já não precisa da mesma massa muscular e óssea. Razão pela qual os astronautas treinam cerca de duas horas por dia para contrariar a perda de músculo, a redução da densidade óssea e o descondicionamento cardiovascular.
O astronauta Matthias Maurer esteve 177 dias na Estação espacial Internacional onde efetuou centenas de experiências em microgravidade, entre as quais algumas relacionadas com as alterações do seu próprio corpo.
Algumas destas alterações fazem lembrar processos que, na Terra, observamos durante o envelhecimento, a imobilização prolongada ou determinadas doenças. No espaço, porém, desenvolvem-se num período muito mais curto. Essa aceleração transforma os astronautas num modelo de estudo, embora não reproduza integralmente o envelhecimento humano.
Então se o espaço nos envelhece e pode contribuir para uma maior rapidez na degradação do corpo humano, estaremos preparados para ir a Marte ou projetar futuras missões de exploração espacial? “Diria que, atualmente, não”, sublinha Matthis Maurer.
“Existem duas razões principais que são demasiado prejudiciais para o corpo humano: uma é a radiação. Se voasse até Marte e voltasse, provavelmente receberia tanta radiação que o meu risco de ter cancro aqui na Terra aumentaria 15 por cento em comparação com o risco normal. (…) A segunda razão é que, quando vivemos em gravidade zero, ocorrem alterações nos nossos olhos, o que pode levar a que, ao voarmos para Marte e chegarmos lá, possamos ficar cegos”.
“Existem duas razões principais que são demasiado prejudiciais para o corpo humano: uma é a radiação. Se voasse até Marte e voltasse, provavelmente receberia tanta radiação que o meu risco de ter cancro aqui na Terra aumentaria 15 por cento em comparação com o risco normal. (…) A segunda razão é que, quando vivemos em gravidade zero, ocorrem alterações nos nossos olhos, o que pode levar a que, ao voarmos para Marte e chegarmos lá, possamos ficar cegos”.
Mas nem todas as alterações desaparecem quando o astronauta regressa à Terra. Uma das maiores preocupações está ainda nos olhos e no cérebro.
Na ausência de gravidade, a redistribuição dos fluidos pode alterar as pressões na cabeça e afetar estruturas relacionadas com a visão. Algo que a medicina ainda procura compreender por que razão alguns astronautas são mais afetados do que outros e até que ponto as alterações podem persistir.
Simpósio Ciência e Espaço. Conhecer para preparar melhor saúde na Terra e no Espaço
Simpósio Ciência e Espaço. Conhecer para preparar melhor saúde na Terra e no Espaço
As experiências que se realizam no Espaço não ficam por lá e os resultados dessas investigações ocupam as preocupações e a necessidade de maior conhecimento por parte da comunidade cientifica. Processos naturais que chegaram a Lisboa foram abordados na primeira edição do Science and Space Symposium, que se realizou nos dias 21 e 22 de outubro de 2026, no Grande Auditório João Lobo Antunes (Edifício Egas Moniz) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Entre os convidados esteve Matthias Maurer, que testemunhou, na primeira pessoa, como foi viver no espaço e como o seu corpo e as experiências realizadas são necessárias ao desenvolvimento científico na área da saúde humana.

Créditos imagem: ESA/NASA
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Também neste simpósio, encontrámos a professora Doutora Cláudia Faria, neurocirurgiã, investigadora e directora do GIMM Care - Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, que explica a necessidade deste tipo de experiência, que às vezes são difíceis de levar para os espaço, devido ao elevado custo que acarreta à investigação.
"Estudar o efeito da radiação no espaço permite “num espaço de tempo mais curto” acelerar processos e ficar a conhecer como doenças como o cancro se desenvolvem, para poder desenvolver terapias nestas áreas.
“Algumas já são feitas, mas é preciso investir um pouco mais nisso, perceber de que forma é que a ida ao espaço aumenta a pressão dentro do crânio e que pode levar, por exemplo, e sabe-se que leva a alterações da visão, dor de cabeça, e portanto há uma alteração da dinâmica do líquido, dos fluidos que existem no cérebro e que pode ter impacto nisso”.
Mas não é só o efeito da microgravidade sobre os fluidos corporais que preocupam os cientistas relativo à permanecia de humanos no espaço, alerta a cientista do Instituto de Medicina Molecular. Há outros fatores a ter em conta, como é o caso da radiação espacial a que os astronautas estão constantemente sujeitos.
Para Cláudia Faria, estudar o efeito da radiação no espaço permite “num espaço de tempo mais curto” acelerar processos e ficar a conhecer como doenças como o cancro se desenvolvem, para poder desenvolver terapias nestas áreas.
A investigadora do GIMM é também neurocirurgiã pediátrica e trabalha com crianças com tumores cerebrais. Algumas das quais necessitam de radioterapia mesmo depois de o tumor ser removido. E este tipo de investigação pode permitir conhecer avanços que mais tarde podem solucionar questões para as quais, atualmente, ainda não exista resposta ou apenas estejam à espera de uma oportunidade e experiência vinda do espaço.
Um Centro de Estudos (para) Medicina Aeroespacial
Precisamente para interligar as experiências entre o Espaço e a Terra, foi criado em 2022, em Lisboa, no espaço universitário da Faculdade de Medicina, o Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial (CEMA), que tem como objectivo e prioridade o estudo sobre alguns desvios comportamentais, entre eles a cegueira, mas também o sistema cardiovascular e questões neurológicas, exercido sobre o corpo humano pela microgravidade no espaço.
"Estamos, neste momento, à procura, de facto, de financiamento para podermos ter o primeiro astronauta português, e a apostar muito no doutor Edson Oliveira para poder ser o nosso primeiro astronauta." - Fausto Pinto, diretor do Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial (CEMA).
Fausto Pinto, diretor do CEMA, deu a conhecer o âmbito do laboratório e convidou os jornalistas da RTP Notícias a acompanhar uma visita a este espaço, em conjunto com os investigadores e com o astronauta Matthias Maurer.
Fausto Pinto, diretor do CEMA, deu a conhecer o âmbito do laboratório e convidou os jornalistas da RTP Notícias a acompanhar uma visita a este espaço, em conjunto com os investigadores e com o astronauta Matthias Maurer.
Entre os investigadores presentes estava Edson Oliveira, apelidado de “médico dos astronautas” e neurocirurgião, que está a fazer um doutoramento precisamente na área da neurociência para tentar perceber um pouco melhor os genes que estão por trás da síndrome que desencadeia a cegueira nos astronautras - um dos impedimentos, por exemplo, para viagens de longa duração, como poderam ser viagens a Marte.
À época da criação deste centro de investigação e no âmbito do financiamento do Portugal 2020, foi possivel equipar este laboratório de medicina aeroespacial com equipamentos iguais aos instalados na Estação Espacial Internacional e que permite atualmente trabalhar num grande projeto e que carece apenas de exprimentação no espaço, dia Fausto Pinto: "Seria muito interessante de poder fazê-lo na Estação Espacial Internacional e para o qual estamos a procurar financiamento", sublinha.
"Estamos, neste momento, à procura, de facto, de financiamento para podermos ter o primeiro astronauta português, e a apostar muito no doutor Edson Oliveira para poder ser o nosso primeiro astronauta".
Biobanco. As “amostras espaciais” que ajudam na investigação
Uma missão termina quando o astronauta regressa à Terra, mas as investigações iniciadas e produzidas no espaço podem continuar durante décadas.
São amostras como o sangue, saliva, cabelo, urina e outros materiais biológicos que permitem comparar o organismo antes e depois da exposição ao ambiente espacial. Conservadas num biobanco, essas amostras poderão ser novamente analisadas quando surgirem novas perguntas ou tecnologias mais avançadas.
Uma questão que o astronauta da ESA Matthias Maurer diz ser essencial.
“Quando os astronautas vão ao espaço, temos de recolher amostras de sangue e também de outros materiais do nosso corpo, como saliva, cabelo e células da pele, para investigação. Congelamos estas pequenas células, amostras ou líquidos e enviamo-los de volta para a Terra e, no futuro, para Lisboa [Biobanco], para que os investigadores possam vir dizer: Havia um astronauta como o Matthias no espaço e temos estas e estas condições. Tenho uma questão científica: posso ter acesso às amostras de sangue do Matthias?. Seria uma honra e uma grande alegria poder contribuir para o avanço da ciência desta forma”, sublinha.
Créditos imagem: ESA/NASA
Mas Matthias Maurer acredita que estas investigações, que começam e passam pelo espaço, vão permitir avanços científicos significativos no campo da medicina, em comparação aos dias de hoje.
“O meu grande sonho é que a investigação espacial também ajude no desenvolvimento de órgãos no espaço. Atualmente, existem milhares de pessoas na Terra que necessitam ou aguardam um novo rim ou fígado, e não temos órgãos suficientes para transplante. (…) O futuro pode trazer, daqui a 20 ou 30 anos, a possibilidade de, se precisar de um novo rim, o podermos cultivar a partir de pequenas células enviadas para o espaço, pois, na ausência de gravidade, podem crescer”.
Experiências que a neurocirurgiã Cláudia Faria corrobora, referindo que no futuro, analisar estas amostras de astronautas e de outras experiências relacionadas com o espaço, cria conhecimento para encontrar marcadores e estratégias que podem ser aplicadas à saúde humana. E o biobanco instalado no GIMM,há cerca de um ano, em Lisboa, quer ser essa ponte na conservação das amostras associadas a estudos e programas de investigação espacial da ESA.
“O que nós queremos agora e, obviamente, juntamente com a ESA é poder analisar, no futuro, estas amostras de astronautas e de outras amostras de experiências relacionadas com o espaço, criar conhecimento e, depois, em conjunto, encontrar marcadores ou algumas estratégias que possam ser aplicadas à saúde humana”.
O corpo humano evoluiu sob a força da gravidade. Quando a deixa para trás, na Terra, os fluidos - liquidos que compõem o corpo dos seres vivos - mudam de lugar, os ossos enfraquecem, os músculos perdem força e o cérebro e o coração procuram um novo equilíbrio.
Resolver estes problemas será indispensável antes de uma viagem prolongada a Marte. Mas o conhecimento não ficará necessariamente reservado a quem partir. Poderá regressar sob a forma de novas estratégias contra a perda óssea, melhores formas de acompanhar o envelhecimento, maior proteção contra os efeitos da radiação ou novos métodos para estudar o cérebro.
O espaço é o laboratório. O destino final da investigação continua a ser a Terra.