Estudo de think-tank russo conclui que influência de Moscovo no espaço pós-soviético está a diminuir

Estudo de think-tank russo conclui que influência de Moscovo no espaço pós-soviético está a diminuir

A Rússia está a perder influência nos antigos países que faziam parte da União Soviética, devido à guerra na Ucrânia e às mudanças geopolíticas. A afirmação é feita pelo think-tank pró-Kremlin Clube de Debates de Valdai.

RTP /
Foto: Mikhail Metzel via AFP

Num relatório publicado esta quinta-feira, o think-tank assume que a Rússia “tem sido incapaz de implementar as suas iniciativas mais significativas em relação às antigas repúblicas soviéticas” e que o país terá de se “adaptar às mudanças que ocorrem sem o seu envolvimento direto e, por vezes, até contra a sua vontade”.

O Clube Valdai também admite que “alguns especialistas russos acreditam que a erosão da posição da Rússia como um moderador e um árbitro nas disputas internas no espaço pós-soviético está repleto de fatores de desestabilização”, e que essa perda de influência se deve à guerra na Ucrânia e à emergência de três sub-regiões (Europa pós-soviética, Cáucaso do Sul e Ásia Central).

No caso da guerra na Ucrânia, o relatório afirma que “uma porção significativa dos recursos do Estado russo foi redirecionada para alcançar uma vitória na confrontação militar e económica”. Além disso, “o foco exclusivo em combater os interesses e influência da Rússia” nos países pós-soviéticos, por parte do Ocidente, é também uma das causas apontadas.
Mudanças geopolíticas no espaço pós-soviético
No caso das três sub-regiões citadas, a Europa pós-soviética é caracterizada por uma divisão entre a Bielorrússia, “aliada com a Rússia”, e o Báltico, a Moldova e a Ucrânia, que são acusados de terem uma política anti-russa, caracterizada por uma “falta de incentivos que podiam servir como uma alternativa aos [incentivos] ocidentais e determinar os seus desenvolvimentos internos e políticas externas”.

O Cáucaso do Sul, composto pela Arménia, Azerbaijão e Geórgia, é caracterizado pelo relatório por “aspirarem caminhos de state-building e diversificação das suas políticas externas e laços económicos”, mas em que a Rússia “ainda retém condições para uma presença significativa”, ainda que cada vez mais diminutas.

A Arménia, um dos principais aliados russos na região, tem-se distanciado cada vez mais da Rússia, sobretudo após a guerra do Nagorno-Karabakh com o Azerbaijão, em 2023. O Azerbaijão tem procurado seguir uma política externa mais próxima da Turquia e de outros atores regionais. A Geórgia é apresentada como tendo uma política externa “equilibrada” entre o Ocidente e a Rússia.

No caso da Ásia Central, os países “procuram reforçar as suas relações com base na afinidade cultural e linguística (turca)” – à exceção do Tajiquistão, de origem persa – e superar a crise económica, a “ameaça de arcaização das relações sociais e os desafios da desestabilização sociopolítica”, assim como o combate ao extremismo religioso.

O relatório também nota que a “mudança geracional” na política interna dos países pós-soviéticos “afeta o espírito e a substância das suas relações com a Rússia, pelo facto desta nova classe política ser composta por “pessoas sem experiência de interação dentro de un único estado, livre de competências sociais de comunicação, hábitos e perceções formadas nos tempos soviéticos”.Futuro entre a não-interferência e a promoção de novos fatores de interação
O Clube Valdai assume que é “pouco provável que a Rússia procure expandir a sua influência direta” sobre os seus vizinhos ou impor-lhes prioridades de política externa, mas cuja sua posição geopolítica a impede de “ignorar os seus desenvolvimentos internos”.

Este cenário leva o país a adorar, direta ou indiretamente, duas abordagens: preservação da influência com base num “legado compartilhado” e a flexibilização das relações, “abandonando a política de os manter ‘a qualquer custo’”.

Neste âmbito, o clube aponta dois caminhos para o futuro das relações da Rússia com os países pós-soviéticos: ou a não-interferência ou a “promoção de novos fatores de interação”.

No primeiro cenário, o clube pede que a Rússia se “concentre nos seus próprios assuntos e permita aos países vizinhos trilharem independentemente o caminho da formação da sua própria soberania”, mas que não deve envolver uma retirada dos interesses russos nesses países. É também referido o “fator China” que também tem relações com estes países e que poderá ser alvo de retaliações por parte do Ocidente, ao “desestabilizar os países vizinhos na Ásia Central”.

No segundo caso, o relatório prevê a promoção de relações no campo internacional “na base das dinâmicas de interação com os parceiros mais significativos a nível regional e global”, nomeadamente os países que também têm relações com a Turquia, o Irão a China e a Índia. As áreas mais importantes a apostar seriam o comércio internacional, o mercado de trabalho e os transportes e logística.
PUB