Estudo revela nova mutação do coronavírus mais infecciosa mas menos grave

por Mariana Ribeiro Soares - RTP
A mutação afeta a proteína “Spike”, a estrutura que arquiteta a membrana do vírus dando-lhe a aparência de uma coroa Reuters

Uma investigação global encontrou fortes evidências de que uma nova variação do SARS-CoV-2 alastrou da Europa para os EUA. A nova mutação é três a nove vezes mais infecciosa, mas não parece aumentar a gravidade da doença.

À medida que alastra por todo o mundo, o novo coronavírus está a sofrer mutações. De acordo com os cientistas, desde o seu aparecimento na China, o SARS-CoV-2 já sofreu centenas de transformações.

Entre todas estas mutações, a mais comum era a D614, mais agressiva e mais grave, identificada pelos cientistas que alertavam para sua proliferação na Europa e nos EUA. Agora, de acordo com o recente estudo publicado na revista científica Cell, uma nova variante do vírus substituiu por completo esta versão anterior e tornou-se a forma dominante a nível global do SARS-CoV-2.

Os investigadores realizaram estudos que envolvem pessoas, animais e células e concluíram que esta nova alteração, chamada G614, é mais comum e tem um poder infeccioso superior às outras versões anteriores. A mutação afeta a proteína “Spike”, a estrutura que arquiteta a sua membrana dando-lhe a aparência de uma coroa que é utilizada pelo vírus para perfurar as células que infeta.

A nova mutação do coronavírus parece multiplicar-se mais rapidamente no trato respiratório superior, o que explica a sua maior facilidade de transmissão.

De acordo com o diretor do Laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento de Vacina contra o HIV, David Montefiore, “a variante G é três a nove vezes mais infecciosa do que a variante D”, revelando à CNN que esta nova mutação tem uma “vantagem de adaptação em termos de infecciosidade”.

“Os nossos dados globais de monitorização mostram que a variante G614 se dispersou mais rapidamente do que a D614. Nós interpretamos isso como sinal de que é provável que o vírus seja mais infeccioso”, lê-se no estudo.

Curiosamente, não encontramos evidências do impacto do G614 na gravidade da doença, ou seja, não foi significativamente associado ao estado de hospitalização”, acrescentam os investigadores. Testes realizados em mil pacientes hospitalizados com Covid-19 na Grã-Bretanha concluíram que os infetados com a nova mutação do vírus não desenvolveram uma doença mais grave.

O estudo sugere, por isso, que “embora a variante G614 possa ser mais infecciosa, não é mais patogénica. Há uma esperança de que, à medida que a infeção por SARS-CoV-2 se espalhe, o vírus se torne menos patogénico”, sugere Lawrence Young, professor de oncologia da Universidade de Warwick, no Reino Unido.

A equipa de investigadores testou amostras recolhidas de pacientes europeus e norte-americanos e agrupou os genomas de forma a conseguirem delinear uma cronologia da propagação das duas mutações do novo coronavírus.

“Até 1 de março, a variante G614 era rara fora da Europa, mas no final desse mês aumentou a sua frequência em todo o mundo”, explicam no estudo.

De acordo com a investigação, mesmo quando a variante D614 causou epidemias generalizadas em Inglaterra e nos EUA, o G614 assumiu o controlo assim que surgiu. “O aumento da frequência do G614 continuou mesmo depois das ordens para ficar em casa e após o período de incubação de duas semanas”, revela o estudo, afirmando que existem algumas exceções, como a região de Santa Clara, na Califórnia, EUA, e na Islândia, onde a antiga versão D614 nunca foi substituído pela variável G614.
Complicações numa futura vacina?
Segundo a investigação, a variante G614 “é sensível à neutralização por soro convalescente”, que provém do sangue de pessoas infetadas pelo novo coronavírus e que recuperaram. Os pesquisadores dizem que esta é uma descoberta “encorajadora, mas será importante determinar se as formas D614 e G614 do SARS-CoV-2 são distintamente sensíveis à neutralização por anticorpos”.

Os investigadores temem que, se a variante G614 é, de facto, mais infecciosa, exija um maior esforço por parte do sistema imunitário para a neutralizar.

Erica Ollmann Saphire, uma das investigadoras do estudo e especialista do Instituto de Imunologia La Jolla e do Consórcio de Imunoterapia Coronavírus, revelou à CNN que a sua equipa testou amostras sanguíneas de seis sobreviventes da Covid-19 que permitiram refutar estas preocupações.

“Observamos que a variedade de anticorpos no sangue das pessoas era tão eficaz na neutralização do novo vírus como no antigo vírus, e era. Era, até, um pouco melhor. Isso foi um alívio”, disse Saphire, ressalvando que são necessários mais estudos em maior escala que permitam solidificar estas conclusões.

Uma outra preocupação está relacionada com a vacina. Tal como explicam os cientistas no estudo, as alterações que o vírus sofre à medida que se propaga de humano para humano “podem potencialmente alterar o fenótipo viral e/ou a eficácia de intervenções imunológicas”.

Por outras palavras, os especialistas temem que esta mutação que afeta a proteína “Spike” possa condicionar o efeito de uma vacina, dado que as vacinas que estão a ser testadas atualmente visam, principalmente, esta proteína, mas foram desenvolvidas de acordo com as características antigas do vírus.

Existem possíveis consequências para as vacinas”, admite David Montefiore, garantindo que estão a “investigar ativamente essas possíveis consequências”, bem como possíveis novas mutações.
Tópicos
pub